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Gororoba sonora à
moda carioca

Começa nesta sexta-feira o Rock in Rio,
que
reunirá todas as tribos do cenário
musical

Sérgio Martins

O guitarrista americano Jimi Hendrix costumava dizer que festival de rock é um bom pretexto para fazer farra. Poucas vezes essa idéia será seguida tão à risca quanto na terceira edição do Rock in Rio, que começará na próxima sexta-feira e se estenderá até o dia 21 de janeiro. Orçado em 60 milhões de reais, o festival reunirá 1,5 milhão de pessoas e contará com mais de 150 atrações musicais: da Orquestra Sinfônica Brasileira à barulheira do Iron Maiden, do veterano James Taylor ao moderníssimo Beck, da rainha do axé Daniela Mercury à princesinha do pop adolescente Britney Spears. Parece uma gororoba – e é. Para o organizador do evento, o empresário Roberto Medina, o som que virá dos palcos não é o fundamental. "Quero que as pessoas venham para se divertir e para paquerar", diz Medina. "As edições anteriores do Rock in Rio eram uma festa do interior se comparadas a esta."

Essa ênfase no puro entretenimento faz um certo sentido. Dezesseis anos atrás, a primeira edição do Rock in Rio foi um divisor de águas na história do show biz brasileiro. Naquela época, o país estava fora do circuito internacional de shows. Por aqui desembarcavam apenas músicos desconhecidos ou no crepúsculo de suas carreiras. O evento organizado por Roberto Medina trouxe artistas do primeiro time e proporcionou-lhes equipamento de som e iluminação à altura. Apresenta& como as do grupo de heavy metal Iron Maiden, do quarteto inglês Queen e dos dinossauros do rock progressivo Yes tornaram-se antológicas. Além disso, o festival ajudou a incrementar o cenário ainda em formação do pop/rock nacional, consagrando bandas como Paralamas do Sucesso e Barão Vermelho. Hoje a situação é outra. O Brasil entrou na rota dos ídolos estrangeiros e muitas das melhores atrações do festival já se apresentaram por aqui em outras ocasiões – entre elas, bandas como Red Hot Chili Peppers e Oasis. Quanto ao pop nacional, está mais do que consolidado. Tanto assim que seis grandes conjuntos – O Rappa, Skank, Raimundos, Jota Quest, Cidade Negra e Charlie Brown Jr. – desistiram de participar do evento, pois não aceitaram ser tratados como se pertencessem a um segundo escalão. Para substituir a função "desbravadora" que teve em outras épocas, o Rock in Rio hasteou ainda mais alto a bandeira da diversão – e, de quebra, também assumiu um cunho beneficente. Uma das tendas da Cidade do Rock foi reservada para debates políticos (pode-se imaginar quão profundos eles serão) e parte da renda obtida com a venda dos ingressos deverá ser destinada a projetos sociais.

A gororoba de gêneros, no entanto, talvez pudesse ter sido um pouco atenuada. No mínimo, por uma questão de segurança. Nas edições anteriores, a mistura de tendências, que não era tão grande, causou curtos-circuitos. Por exemplo: artistas pop que dividiram a noite com bandas de rock pesado em 1985 e no Rock in Rio 2, em 1991, acabaram sendo alvejados por punhados de lama e latinhas de cerveja. Nada que se compare, evidentemente, ao que aconteceu no estádio do Vasco da Gama, na final da Copa João Havelange. Mas sempre é bom não facilitar quando a equação é composta de jovens com os hormônios em ebulição, rios de cerveja (vendida legalmente), quilos e quilos de certas substâncias proibidas (repassadas por baixo do pano) e gostos musicais conflitantes. Entre gregos e troianos, é claro que há atrações de peso, que merecem ser conferidas no Rock in Rio 3 (veja quadro). Duas das maiores deverão ser Britney Spears, a ninfeta que se tornou o maior fenômeno fonográfico dos Estados Unidos, com dois discos e 21 milhões de cópias vendidas, e Neil Young, o roqueiro com trinta anos de estrada. Alguns brasileiros esperam conseguir no festival o empurrãozinho de que estão precisando. É o caso do Pato Fu, grupo mineiro que ainda não estourou como deveria na parada de sucessos. Vai ser uma zorra, meu irmão (pronuncia-se "merrmão").

 

Eles fazem a diferença

A estrela sobe

A americana Britney Spears já foi classificada como a nova Madonna. Aos 19 anos de idade, ela varia de adolescente recatada a mulher fogosa, sempre ao som de música dançante. É também um fenômeno de vendas: seus dois álbuns venderam 21 milhões de cópias só nos Estados Unidos

A volta do filho pródigo

O Guns N'Roses faz no Brasil sua segunda apresentação para o mundo depois de sete anos longe dos palcos (em 1º de janeiro, eles tocaram num concorrido show de aquecimento nos Estados Unidos). Axl Rose, único integrante da formação original, deve cantar quatro canções novas e hits da década passada

É coisa nossa

Por algum motivo obscuro, a música da banda inglesa Iron Maiden, considerada ultrapassada no Primeiro Mundo, continua a agradar aos metaleiros brasileiros. O país é o maior consumidor dos discos desse grupo em todo o mundo. O Iron Maiden já se apresentou três vezes por aqui. Os shows no Rock in Rio renderão um CD ao vivo e um DVD

A estréia do dinossauro

Pela primeira vez no Brasil, Neil Young é considerado um dos músicos mais influentes da história do rock. O astro canadense é admirado pela geração bicho-grilo dos anos 60, pela turma do grunge americano (ele gravou com o grupo Pearl Jam em 1995) e até pelos arrogantes roqueiros ingleses do Oasis

Tempero forte

Os Red Hot Chili Peppers são os principais nomes do funk metal, um gênero musical surgido em meados dos anos 80 para colocar um molho dançante no rock pesado. O grupo californiano tem tradição de arrebentar em shows ao ar livre: eles foram uma das principais atrações das duas últimas edições do festival Woodstock

 

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