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País do passado

O Brasil de 100 anos atrás. Para francês ler

Flávio Moura

Há cerca de dois meses, terminou na Alemanha a Expo 2000 de Hannover. Desde a origem, um século e meio atrás, quando ainda eram chamadas de "Exposições Universais", mostras como essa são, principalmente, uma vitrine para a exibição dos feitos econômicos das nações e uma espécie de hino ao progresso. Uma das exposições mais famosas foi a de 1889, em Paris, que motivou a construção da Torre Eiffel. Nessa ocasião, além do estande com tabaco, café e uma vitória-régia, o governo brasileiro apresentou o livro Le Brésil, editado em francês por E. Levasseur e com textos de luminares como o barão do Rio Branco e Eduardo Prado. Mais de um século depois de publicado, ele volta à luz, pela primeira vez em língua portuguesa, com o título de O Brasil (Bom Texto e Letras & Expressões; 193 páginas; 78 reais).

O livro é recheado de dados reveladores, ordenados em forma enciclopédica. Apesar do tom laudatório em relação ao país, seus autores reconhecem que apenas 18% da população livre sabia ler. Entre a população servil, eufemismo para se referir aos escravos, a porcentagem caía para 0,1%. A economia também não ia lá essas coisas: o déficit público era uma enormidade e as dívidas, externa e interna, já batiam na casa de 1,1 milhão de contos de réis – sete vezes a receita anual do governo, que era de 147.200 contos de réis. Realmente, nunca foi fácil vender o peixe nacional aos estrangeiros. No capítulo sobre literatura, O Brasil comete uma tremenda gafe: Machado de Assis é referido apenas como "um crítico literário esclarecido". Para os autores do livro, o escritor mais fecundo do país era, veja você, o visconde de Cairu. Sobre o que ele escrevia? Economia política. Seu pensamento era um plágio das teorias do escocês Adam Smith, autor de A Riqueza das Nações. Uma pobreza.

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