De olho
nas telas
Skármeta
lança nova
obra.
Já pensando
no cinema
Flávio
Moura
Divulgação
 |
| O
escritor: romance irregular |
Por causa do cinema, o escritor chileno Antonio Skármeta
tornou-se conhecido no mundo inteiro. Autor do romance O Carteiro
e o Poeta, ele teve a reputação catapultada quando
o filme homônimo fez sucesso em Hollywood. A experiência
parece ter sido mais do que gratificante. Tanto assim que Skármeta
até resolveu fazer sua nova obra já de olho na adaptação
para as telas. É essa a impressão que se tem com a
leitura de As Bodas do Poeta (tradução
de Eric Nepomuceno; Record; 364 páginas; 30 reais), recém-chegado
às livrarias do país. Definido pelo próprio
autor como um texto mais de imagens que de idéias, o livro
carrega no exotismo dos cenários e personagens e evita reflexões,
facilitando bastante a vida do cineasta que decidir adaptá-lo.
A história é simples: Jerônimo Franck, filho
de um banqueiro austríaco, abandona seu país às
vésperas da I Guerra e vai viver na imaginária Ilha
de Gema, no Mar Adriático. Logo ele se torna dono da maior
loja do local e fica noivo de Alia Emar, a jovem mais cobiçada
da ilha. O romance se passa durante os preparativos para a festa
de casamento e na noite de núpcias. Como pano de fundo, os
entreveros dos habitantes do lugarejo com o Exército austríaco,
que vez por outra invade a ilha na tentativa de recrutá-los.
Trata-se
de um romance irregular. Recheado de adjetivos, o texto de Skármeta
é prolixo e demora a engatar. Só lá pela página
150 os fios começam a juntar-se e o leitor percebe que valeu
a pena resistir à tentação de abandonar a história.
Isso porque, no início, o autor exagera na dose ao tentar
criar uma atmosfera "sensual" e às vezes confunde ironia
com mero gracejo. Retomado o controle, a narrativa avança
rumo a um final que a redime. A clara inspiração de
Skármeta para esse livro é o romance Cem Anos de
Solidão, obra central do colombiano Gabriel García
Márquez e marco do realismo mágico latino-americano.
Gema, terra que o autor concebe a partir das narrativas que ouviu
do avô quando criança, é a Macondo de Skármeta.
Nos melhores momentos do livro, o chileno consegue criar situações
que fazem eco à saga dos Buendía. Nos piores, porém,
se parece mais com sua conterrânea Isabel Allende, também
afeita a uma literatura com elementos "fantásticos", mas
sempre com um toque de sua história pessoal que não
raro resvala para a pieguice. As Bodas do Poeta não
é um livro desprezível. Mas se Skármeta tivesse
se esquecido do cinema e se ocupado apenas de literatura certamente
teria chegado a um resultado melhor.
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