|
Colocar
esse tipo de enredo de pé exige, ao contrário do que
possa parecer, uma complicada engenharia. "Dirigir uma novela de
Manoel Carlos é um desafio, porque a infra-estrutura é
sempre maior do que nas outras", avalia Ricardo Waddington, titular
dessa função em Laços de Família.
A novela tem três vezes mais locações externas
do que o usual, o dobro de personagens e figurinos e cerca de 50%
a mais de metros quadrados de cenários (veja
quadro). Tudo para que os personagens realmente
comprem pão na esquina e freqüentem todos os cômodos
de suas casas. A obsessão de Manoel Carlos pelo realismo
é tanta que já virou até piada na Globo. Comenta-se
que, se um funcionário da emissora bater dois segundos de
papo com o autor no elevador, corre o risco de ter algum episódio
de sua vida levado ao ar. A brincadeira não está tão
longe assim da verdade. Certa vez, o veterano galã Paulo
Figueiredo, que interpreta Rodrigo em Laços de Família,
pediu licença das gravações para fazer uma
cirurgia de próstata. Manoel Carlos concedeu, mas pediu autorização
para fazer com que o personagem tivesse o mesmo problema médico.
Algo parecido ocorreu com as coadjuvantes Inez Viana, que vive Márcia,
secretária da clínica de Helena, e Arlete Heringer,
que faz Marta, funcionária do haras de Pedro. A primeira
teve um descolamento de retina. A segunda fez uma operação
para corrigir a miopia. Nos dois casos, por arte do autor, os problemas
médicos reais das atrizes apareceram nas personagens fictícias
da novela.
O
sucesso de Laços de Família também se
explica pelos "factóides" que contribuíram para turbinar
a audiência da novela. Antes mesmo da estréia, o folhetim
já estava nas páginas das revistas de fofoca por obra
e graça da atriz principal, Vera Fischer. Numa viagem ao
Japão para gravar cenas dos primeiros capítulos, a
extrovertida estrela sapecou um beijo na boca do galã Reynaldo
Gianecchini, seu namorado na ficção. A notícia
foi divulgada e provocou uma saia-justa, uma vez que Giannechini
tem uma namorada na realidade: a jornalista de televisão
Marília Gabriela. Outro buchicho surgiu quando, numa cena
gravada a bordo de um veleiro, o fortão Paulo Zulu exaltou
de maneira enfática os atributos da beldade Helena Ranaldi.
Ele não sabia, no entanto, que os microfones estavam ligados
e, em terra firme, o diretor da novela, Ricardo Waddington, ouviu
o galanteio. Detalhe fundamental: Waddington é marido de
Helena. A notícia também ganhou destaque nos jornais.
Waddington hoje minimiza o fato. "Quando eles atracaram, eu falei:
'Pô, Zulu, você, hein?' Mas no fundo eu sabia que era
brincadeira", desconversa. Coincidência ou não, o papel
do modelo, que já era pequeno, diminuiu ainda mais na trama.
O galã Gianecchini, aliás, também teve sua
participação reduzida no entrecho. Como os dotes histriônicos
do rapagão são escassos, estava difícil fazê-lo
parecer convincente em situações de maior voltagem
dramática. Manoel Carlos, evidentemente, dá outra
versão para o encolhimento do papel de Gianecchini. "Desde
que novela é novela, você não pode casar o galã
antes do final, porque senão ele se apaga. Mas eu tive de
fazer isso com o personagem Edu porque era conveniente que ele já
estivesse com a Camila quando ela caísse doente", justifica
o autor.
Os
outros três factóides que ajudaram a manter a novela
no noticiário têm a ver com o teor apimentado da trama.
Em Laços de Família, todo mundo faz sexo o
tempo todo Capitu com Fred na sala de visitas, Danilo com
Ritinha no quarto da empregada, e Pedro com Cíntia e Helena,
na grama e na cama de seu haras-abatedouro. Além disso, todo
mundo briga o tempo todo, o que enseja cenas de uma certa violência.
O juiz Siro Darlan, da 1ª Vara de Infância e Juventude
do Rio de Janeiro, que adora aparecer na imprensa, achou que não
poderia haver crianças convivendo num ambiente onde só
se falava "naquilo" e volta e meia rolavam sopapos. Por isso, proibiu
que menores de idade aparecessem nas gravações. O
veto durou três semanas, até que os advogados da Globo
derrubassem a medida. O conteúdo da novela irritou também
a Arquidiocese do Rio de Janeiro, que se recusou a ceder uma igreja
para o casamento de Camila e Edu. O pretexto para a proibição
foi que a personagem de Carolina Dieckmann estava grávida,
o que contraria o princípio católico de que um casal
só pode fazer sexo depois do matrimônio. Para contrariedade
de Waddington e Manoel Carlos, foi necessário ceder um pouco
na obsessão pela verossimilhança e construir uma capela
de mentirinha nos estúdios do Projac. Por último,
a Justiça determinou que Laços de Família
não poderia ir ao ar antes das 9 da noite. Tanta confusão,
é claro, acabou atraindo ainda mais espectadores.
Foram
várias as tribulações, mas pelo menos de uma
Manoel Carlos esteve livre durante Laços de Família:
a reclamação dos atores do sexo masculino. Criador
de personagens femininos fortes, o autor freqüentemente propicia
a suas atrizes a façanha de ofuscar os atores. Foi assim
em Por Amor, quando a Helena de Regina Duarte era muito mais
interessante do que o Atílio de Antonio Fagundes, a ponto
de o galã da Globo queixar-se publicamente. Na mesma novela,
Odilon Wagner, intérprete de um homem de meia-idade que se
descobria homossexual, também ficou chateado com o desenvolvimento
de seu personagem. Seu drama foi embaçado pelo da esposa
trocada por outro homem, papel que consagrou Angela Vieira. "Eu
acho as mulheres dramaturgicamente muito mais interessantes do que
os homens, o que posso fazer?", defende-se Manoel Carlos. Tony Ramos
e José Mayer, até onde se sabe, não chiaram
ainda em Laços de Família, mas bem que poderiam.
Um faz o bonzinho politicamente correto, que escapa por pouco de
se tornar um chato de galochas, e o outro, o machão estereotipado,
daqueles que exaltam o próprio desempenho na cama e depois
dão uma risadinha cínica. O Pedro de José Mayer
acha até mesmo que mulher gosta de apanhar chegou
a agarrar Íris e aplicar umas palmadas em seu traseiro. Já
a Helena de Vera Fischer é uma mulher capaz de grandes gestos
por amor à filha. Da mesma forma, a Capitu de Giovanna Antonelli
esmaga o Fred de Luigi Baricelli. Enquanto o irmão pateta
de Camila passa o tempo todo repetindo chavões como "o passado
não importa", ela pondera as vantagens de largar definitivamente
a prostituição para se juntar ao homem que ama. A
decisão é difícil. Teria de se contentar com
um padrão de vida inferior e correr o risco de ser abandonada,
mais tarde, por um homem ciumento. É uma personagem madura,
valorizada pela interpretação de Giovanna Antonelli,
de longe a maior revelação da novela.
|