Saudade não
vale um chulé
Minha
ceia de Natal foi uma pizza congelada. É nisso que dá
morar no exterior, longe da família. Meus amigos italianos
ficam com dó de mim e perguntam se, nesses momentos, sinto
saudade do Brasil. Perguntam assim mesmo: usando o termo "saudade".
Todos os italianos sabem o que significa "saudade". É nosso
produto de maior sucesso. Junto com música e futebol. Aliás,
tudo está estreitamente relacionado. O que seria da nossa
música sem a saudade? Dei uma olhada na internet e encontrei
mais de 700 canções com a palavra "saudade" no título.
Nossos músicos têm saudade das coisas mais improváveis.
De Saudade da Pobreza a Saudade de Matão,
de Saudade do Cavaquinho a Saudade dos Aviões
da Panair. Quanto ao futebol, toda vez que um jogador brasileiro
fracassa na Itália, atribui-se seu insucesso à fatídica
"saudade". O último foi Vampeta. Jogava mal porque sentia
"saudade" do Brasil, segundo os jornais italianos.
Os brasileiros sempre se orgulharam da palavra "saudade", dizendo
que o português é a única língua do
mundo a possuí-la. Não vejo motivo para tanto orgulho.
Uma boa palavra é uma palavra precisa, indiscutível,
que indica algo específico. Quanto mais específico,
melhor. E "saudade" não é específico porcaria
nenhuma. Nesse aspecto, "homesick", em inglês, é
muito superior. Exprime uma nostalgia doentia da própria
pátria, da própria cidade, da própria rua,
da própria casa. Bem menos vago do que "saudade". Se é
para me orgulhar, orgulho-me de outras palavras em português.
Palavras que descrevem a realidade de maneira concreta e que,
em minhas andanças, só encontrei na nossa língua,
provocando espanto e inveja em meus interlocutores estrangeiros.
Talvez sejam palavras menos nobres, porque não se referem
a sentimentos elevados, e sim a miudezas da vida cotidiana, de
uso corriqueiro, quase vulgares. Mas nós temos palavras
para defini-las, eles não.
A mais óbvia é "cafuné". O antropólogo
francês Roger Bastide, velho professor de Fernando Henrique
Cardoso nos tempos da USP, chegou a escrever um ensaio a esse
respeito, Psicanálise do Cafuné. Ele examinava
a nossa sociedade a partir dessa carícia singela, herança
de séculos e séculos de piolhos e escravatura. Outra
palavra é "chulé". Só o gênio semântico
português poderia associar o fedor nos pés à
gordura de porco, sintetizando em cinco letras aquilo que os estrangeiros
explicam com duas ou mais palavras. Como comparar "chulé"
a "foot odour" ou "puanteur des pieds" ou "puzza da piedi"? E
o que dizer de "banguela"? Os outros precisam de termos compostos
para descrever a falta de dentes. Nós não: uma única
palavra, rápida, direta, com o deboche incorporado. Igualmente
engenhoso foi o emprego da palavra "sovaco" para apontar a catinga
axilar. Um cheiro particular merece um nome particular. Último
exemplo: todo mundo dá "peteleco" na orelha dos outros.
Que eu saiba, porém, só nós dispomos de um
termo exclusivo para designar o gesto.
Essas palavras têm a nossa cara. Nada melhor do que elas
para descrever o caráter nacional: olfativo, táctil,
afetuoso, higiênico, sudoríparo, promíscuo,
tribal, animalesco, rasteiro, sufocante, muito físico e
pouco cerebral. Para mim, a saudade do Brasil é representada
por essas cinco ou seis palavrinhas. E nada mais.