"Não
haverá outro Pelé"
O atleta do século
fala
das confusões
do futebol,
dos rivais e do lado
pesado
da fama
Eurípedes Alcântara e Maurício
Cardoso
Desde que se tornou o rei do futebol, há mais de quarenta
anos, Pelé teve sua majestade contestada pela primeira
vez no fim do ano passado. O desafio à majestade, nascido
de uma confusão causada pela Fifa, que resolveu promover
uma eleição no universo aberto da internet para
escolher o melhor jogador do século, não o abalou.
Quem conhece futebol sabe que o esporte sempre teve um único
rei e nunca terá outro: Pelé. O rei sabe disso.
Aos 60 anos, pai de quatro filhos que já passaram dos 20
anos e de outros dois que não chegaram aos 5 e avô
de três netos, Edson Arantes do Nascimento continua em grande
forma física e mental, em paz consigo mesmo e com o mundo.
Só se deprime quando fala do futebol no Brasil hoje. Para
ele, a Copa João Havelange terminou da maneira como começou,
em total confusão. "O torcedor não merecia isso
e o São Caetano, o time mais alegre e artístico
do país, deveria ser o campeão", diz Pelé.
Veja O que você achou da confusão criada
pela Fifa em torno da eleição do maior jogador do
século?
Pelé
Foi desnecessária. Acho que ninguém tinha dúvida
antes sobre quem foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos.
Ninguém tem dúvida agora. O melhor jogador foi o
Pelé. O Diego Maradona ganhou uma Copa do Mundo e fez 341
gols. O Romário também ganhou uma Copa do Mundo
e fez 760 gols. Se o Romário tivesse nascido na Argentina,
seria mais endeusado que o Diego. No dia que surgir um jogador
que vença três Copas do Mundo, dois campeonatos mundiais
de clubes e faça mais de 1.300
gols eu quero estar vivo para passar-lhe pessoalmente a faixa
de melhor do mundo em todos os tempos. Mas, sinceramente, não
acho que surja outro Pelé.
Veja Você escalaria Maradona para jogar no
seu time?
Pelé
Já recusei propostas de dezenas de milhões de dólares
para treinar equipes e seleções na Europa exatamente
porque sou muito exigente. Para jogar no meu time não basta
ser craque dentro das quatro linhas. Tem de ser homem no sentido
amplo. Conta muito o exemplo que se passa para os mais jovens,
o lado humano é também muito importante, por isso
no meu time se encaixam melhor jogadores como Franz Beckenbauer,
Nilton Santos, Tostão, Rivelino, Michel Platini, Dunga,
Cruyff , Di Stefano ou o Eusébio.
Veja Por que você fala do Pelé como
se fosse uma outra pessoa?
Pelé
O apelido surgiu quando eu me mudei de Três Corações,
em Minas Gerais, para Bauru, no interior de São Paulo.
Tinha um goleiro lá chamado Bilé e acho que com
aquele sotaque pesado de mineiro eu falava o nome dele e soava
algo parecido com Pelé. A turma, para fazer troça,
passou a me chamar de Pelé. Mas nem eu tenho garantias
de que a história seja essa mesmo. Meus pais e meus tios
não sabem também com certeza a origem do apelido.
Acho que nunca saberemos.
Veja Não falo da origem do apelido, mas do
uso que você faz dele, como se Pelé fosse uma entidade
separada de você...
Pelé
E é mesmo. O Pelé é um fenômeno eterno
do esporte. Eu sou o Edson. Meu pai queria que eu fosse sempre
o Edson, por causa daquele cientista que inventou a luz elétrica.
Era um nome valorizado lá no interior. Nome americano.
Mas quer saber de uma coisa? Para mim foi uma boa saída
separar o Pelé do Edson. Hoje o Pelé me protege.
É uma formidável linha de defesa para que o Edson
possa ter uma vida mais ou menos normal.
Veja Carregar a fama do Pelé desde 1957 é
um fardo?
Pelé
É. Por causa do Pelé meus filhos do primeiro casamento
não tiveram pai. A Kelly e o Edinho foram criados sem a
figura do pai em casa. Hoje reconheço isso e tenho remorso
de ter roubado tempo de convívio com eles para atender
obrigações sociais que ser Pelé me obrigava.
Tento de todas as maneiras agora compensá-los por isso.
No mês passado fui a Nova York para assistir ao nascimento
da minha netinha Ruby, filha da Kelly. Chorei o tempo todo, como
uma criança. Não entrei na sala de parto porque
sou fraco para essas coisas. Ambientes hospitalares me deixam
com as pernas bambas. O Edinho agora está fazendo motocross
e estuda um convite do Corinthians para voltar a jogar como goleiro.
Quando penso no Edinho me emociono. Chego à conclusão
de que se ele me proporcionar alguma tristeza tenho de perdoá-lo
porque fui um pai relapso. Outro dia sentei com meu violão
e compus uma música para ele. Dei o título de Dia
do Filho. Pode ter ficado boa. O Caetano Veloso pegou a fita.
Talvez, quem sabe, ele possa gravá-la.
Veja Como é o Edson de hoje?
Pelé
Hoje
sou mais vigilante com meu tempo. Meus filhos do segundo casamento,
Joshua e Celeste, e a Gemima são a prioridade da minha
vida. Se tenho algum evento ou devo atender compromissos de negócio
ou outros quaisquer ligados a minha imagem, cuido para que não
perturbem minha vida familiar. O Joshua, a Celeste e a Gemima
não querem saber se o pai é famoso ou não
e muito menos que já tem 60 anos. Quando cismam de brincar,
me deixam com a língua de fora e não posso parar.
Meus filhos pequenos poderão dizer no futuro que tiveram
um pai integral.
Veja Seus amigos dizem que você detesta acordar
cedo por ter passado toda a vida profissional saltando da cama
ao raiar do sol. É verdade?
Pelé
Essa história nasceu quando eu tinha lá meus 17
anos, já era campeão mundial, e um diretor do Santos
me obrigou a fazer o serviço militar no Tiro de Guerra.
Eu jogava à noite, dormia tarde e tinha de estar de pé
às 5 e meia da manhã. Tentei escapar, mas me convenceram
de que eu tinha de dar um bom exemplo aos jovens brasileiros.
Fui lá, servi, mas a experiência me deixou marcado.
Desde então fico irritado se tenho de acordar cedo.
Veja Outra dos amigos: você é um tremendo
roda-dura. Dizem que você quase fundiu um carro zero-quilômetro
dirigindo durante todo o trajeto de Santos a São Paulo
em primeira, sem mudar a marcha uma única vez...
Pelé
Isso é inveja. Tenho carteira de habilitação
há mais de trinta anos e nunca bati. Mas também
raramente dirijo. Gosto muito dos automóveis Mercedes.
Outro dia meu motorista, um sujeito bom que está comigo
há dois anos, destruiu na estrada meu Mercedes S500, que
rolou pelo abismo. Foi perda total. Graças a Deus o motorista
não se machucou.
Veja O carro era blindado?
Pelé
Que nada. O Pelé veio ao mundo com blindagem natural. Você
não leu nos jornais a história do sujeito que foi
me assaltar e quando viu que era o Pelé desistiu? Agora,
falando sério. Tenho dois guarda-costas. Um guarda-costas
que é Deus e um guarda-frente que é Jesus. E com
essa proteção não preciso ter medo de nada.
Veja Você vai comprar outro Mercedes S500?
Pelé
Não. É um carro muito caro. Não tenho dinheiro
para isso. Mas adoro carros dessa marca. Quem sabe a Mercedes
não me dá outro igualzinho. Tenho dois em casa.
Um ganhei do Santos, em 1972. Doze anos mais tarde a Fifa me deu
outro.
Veja É verdade que você é ruim
de negócios?
Pelé
Já levei uns canos na vida. São episódios
conhecidos. Mas desde que fiquei famoso nunca precisei de dinheiro.
Nunca fiquei na pior. É falso que quando fui para o Cosmos
em Nova York, nos anos 70, estava quebrado. A verdade é
que ganhei uma fortuna lá, um dinheirão em dólares
para os padrões do futebol brasileiro da época.
Dinheiro nunca foi minha prioridade e não tenho problemas
com ele.
Veja Em mais de quatro décadas de vida pública,
tendo cada passo observado pela imprensa, não é
extraordinário que não tenha surgido nenhum fato
desabonador em sua vida?
Pelé
Estão escrevendo um livro e fazendo um filme sobre minha
vida. Os autores dizem a mesma coisa. "Pô, Pelé,
será que não aparece nada para a gente falar mal
de você, um pouco que seja?" Vai ver descobrem que eu perdi
um pênalti contra algum time do interior. Sempre peço
a Deus que nunca me deixe decepcionar as pessoas que acreditam
em mim.
Veja Tem a Sandra Regina, a filha que você
não reconheceu...
Pelé
Taí uma coisa que gostaria de esclarecer de uma vez por
todas. A Sandra é minha filha e ponto final. O que as pessoas
não podem exigir de mim é que, um dia, ao deparar
com uma moça de 30 anos que nunca vira na vida, com um
advogado de um lado e um oficial de Justiça do outro, dizendo
"oi, papai, sou sua filha", eu a tivesse recebido de braços
abertos dizendo "venha, querida, eu te amo". Ora, isso não
existe. Para ficar bem com a opinião pública, poderia
até fingir, abraçá-la, chorar, tirar fotos
e, depois, tchau. Mas não sou hipócrita. O amor,
se tiver de existir, virá com o tempo, e isso depende mais
do comportamento dela que do meu.
Veja O povo aprendeu a votar?
Pelé
Fui muito criticado quando alertei as pessoas sobre a importância
do voto. Era um tempo em que votavam mais facilmente em promessas
de casa, dentadura, enfim, em candidatos demagógicos. Hoje
em dia o povo vota de modo muito mais consciente.
Veja Dona Celeste, sua mãe, é católica
fervorosa. Sua mulher, Assíria, é batista. Como
se contorna esse conflito religioso na família?
Pelé
Resolvemos sem radicalismo. Cada uma aceita o credo da outra.
As crianças foram batizadas nas duas igrejas. Eu sou católico
e estou numa fase de muita paz de espírito, de vida familiar
e de fé em Deus. Algumas vezes acompanho a Assíria
aos cultos, temos amigos pastores e padres, às vezes ajudo
nos projetos sociais dela. Tenho orgulho da formação
religiosa que meus pais me deram. Talvez seja por isso que esteja
sempre de bem com a vida.
Veja Você toma vitaminas, pinta o cabelo?
Pelé
Não. Eu arranco os fios brancos com uma pinça. O
fato de ter feito esporte a vida inteira me ensinou a manter a
forma de um modo natural. O espírito não envelhece
e o espírito do Pelé é jovem. Adoro ser criança,
adulto é muito chato. Por isso com 60 anos estou com essa
cara de menino.
Veja Quando você fez 50 anos voltou a atuar
em uma partida. Você acha que tem condições
de jogar ainda hoje?
Pelé
Fácil, fácil. Se não exigirem que eu jogue
como quando tinha 16 anos, dando piques de 100 metros, fazendo
gols de bicicleta, jogo mole em qualquer time, ainda mais do jeito
que está o futebol atualmente.
Veja Em que o futebol que se joga hoje é diferente
do tempo em que você era o rei dos gramados?
Pelé
A ocupação dos espaços no campo atualmente
é bem diferente. As equipes européias, principalmente,
transformam o campo num verdadeiro labirinto para os atacantes
adversários. É duro encontrar um espaço desocupado.
Nisso elas são muito superiores às equipes brasileiras.
Mas o que mudou mesmo foi o sistema de criação de
estrelas. Hoje o jogador sai do anonimato em seis meses, é
eleito o melhor do mundo e logo some. Na minha época, o
sujeito para se tornar uma estrela tinha de gramar. Vi craques
excepcionais ficarem na reserva de grandes times três ou
quatro anos sem jogar uma única partida.
Veja Você pensa em ser cartola?
Pelé
Não.
Tem pessoas competentes o bastante para dirigir o futebol brasileiro.
Basta que elas assumam suas responsabilidades. As CPIs que investigam
o futebol estão prestando um grande serviço ao país.
Mesmo que funcionem mal. Acho que é uma grande oportunidade
para os cartolas do futebol provarem que são competentes
e honestos como apregoam.
Veja Ao fazer o milésimo gol, você prestou
homenagem às crianças pobres do Brasil, numa época
em que praticamente não existia menino de rua nem trombadinha.
Seu gesto adiantou alguma coisa?
Pelé
É claro que houve um desleixo muito grande de nossos governantes.
Mas as constantes crises pelas quais o país passou agravaram
a situação. Hoje existe uma preocupação
maior, mas a solução completa do problema leva tempo.
Embora não goste de divulgar, ajudo de todas as formas
que posso, seja colaborando diretamente, financeiramente, seja
apoiando organismos internacionais e nacionais que cuidam do tema.
Acho que, se cada um fizer um pouquinho, um dia o problema se
resolve.
Veja Um projeto em tramitação no Congresso
Nacional diminui a idade de responsabilidade penal. Você
acha que uma criança de 11 anos que comete um crime deve
ir para a cadeia?
Pelé
Não
acho que ela deva ir para a cadeia onde estão os adultos,
mas acredito que deve haver algum tipo de controle do Estado.
Uma criança que comete um crime normalmente já perdeu
o apoio ou os cuidados da família. Deixá-la solta
vai agravar o problema. O Estado teria de assumir a formação
dessa criança ou monitorá-la. Mas também
existem casos de jovens que já são chefes de quadrilha
e têm noção do crime que cometem. Para esses
acho que deve haver punição.
Veja E se chegasse um dia em que Pelé não
fosse mais reconhecido nas ruas?
Pelé
Meu
maior orgulho é ter as portas abertas no mundo inteiro.
É muito grande a alegria que sinto pelo carinho que recebo
das pessoas, gente humilde, simples. Elas se emocionam quando
falam com o Pelé e eu me emociono também. Você
vê que às vezes aquela pessoa teria todos os motivos
do mundo para estar triste pelos sofrimentos que a vida lhe impôs,
mas está alegre. Outras vezes você encontra milionários
que ganharam tudo da vida e eles só reclamam, falam da
alta do dólar, da CPMF, do governo, tudo está ruim
para eles. O Pelé é mais conhecido hoje do que em
qualquer outro período. Para ser sincero, nunca me aconteceu
ser ignorado. Mas, se um dia acontecer, acho que estranharia muito.
Penso muito naquela idéia religiosa de que os filhos de
Deus jamais serão esquecidos.