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Sérgio Abranches

Salvando a pátria

"A Argentina ainda corre o risco de uma crise
de governabilidade se não conseguir vencer a
ameaça de
estagnação representada por investidores desconfiados e consumidores inseguros"



Ilustração Ale Setti


A blindagem financeira acertada entre a Argentina e o FMI é condição essencial para um ambiente de maior estabilidade política e confiança, mas não é suficiente para tirar o país do córner. Ela foi anunciada em um quadro de forte insatisfação popular, economia deflacionada, governabilidade penosa e poder politicamente dividido. A Argentina ainda corre, neste ano, risco de uma crise de governabilidade se não conseguir vencer a ameaça de estagnação representada por investidores desconfiados e consumidores inseguros.

Está certo o presidente Fernando de la Rúa, ao dizer que a desconfiança maior é interna. E há outros obstáculos a vencer: as incertezas da economia mundial, os desequilíbrios estruturais da própria economia argentina, a qualidade da governança. A blindagem ajuda, mas não resolve. Ela reduz a dependência argentina do mercado financeiro e ganha tempo para a tentativa de relançar a economia, com equilíbrio fiscal. O crescimento aumentaria a receita, melhorando a situação das contas públicas. O acordo é preventivo, diferentemente do que ocorreu na Indonésia, na Coréia do Sul, na Rússia e no Brasil, em que ele foi tardio e não chegou a evitar o colapso cambial.

Mas a Argentina vive situação política incomum em sua história. O seu presidencialismo sempre foi bipartidário. Os presidentes governavam com maioria de seu partido – Menem exerceu dois mandatos tendo maioria peronista no Congresso – ou enfrentavam crises de governabilidade por estarem em minoria. Com a eleição de De la Rúa, o país experimenta pela primeira vez um governo de coalizão. O país não tem a cultura do presidencialismo de coalizão, como nós temos. De la Rúa é o primeiro a governar apoiado em uma aliança formal entre partidos. A Alianza reúne em delicado equilíbrio um partido histórico e tradicional, a União Cívica Radical (UCR), e uma federação partidária emergente, a Frepaso. Os radicais têm base nas classes médias urbanas e uma cultura econômica com fortes traços populistas. A Frepaso é formada por dissidentes do peronismo e tem inclinação para o centro-esquerda. Os peronistas têm uma grande bancada, majoritária no Senado. Há, ainda, outros partidos com representação significativa no Congresso, como a Acción por la República, de Domingo Cavallo.

O presidente De la Rúa tem-se mostrado um hábil negociador e sabido elidir os principais confrontos inerentes a esse arranjo político. Obteve concessões importantes, como o pacto fiscal com os governadores. Porém, o ambiente social negativo reduziu sua popularidade a índices muito baixos e deixa sempre inquieto seu condomínio governamental. A blindagem financeira não garante a volta da confiança de investidores e consumidores, não restaura a credibilidade e a popularidade do presidente, nem fecha as fissuras já ocorridas no tecido da coalizão de sustentação do governo. Ela renovou, entretanto, as esperanças de retomada do crescimento, reduzindo temporariamente a pressão no sistema político. Formou-se consenso na Alianza de que esta pode ser a última oportunidade para relançar a economia argentina e sair do atoleiro.

A chave mestra é o crescimento econômico. Se a economia não se reanimar em breve, a maior parte das boas intenções se dissipará. A estabilidade política e a confiança dependem da elevação da renda e da queda do desemprego.

Nada há no pacote de blindagem que garanta a retomada do crescimento, além do impacto positivo nas expectativas, as mais pessimistas desde o fim da hiperinflação. Não há mágica possível: o crescimento da Argentina depende de um conjunto de fatores internos e externos, na sua maioria fora do controle de qualquer governo ou autoridade. O caminho é o da construção da confiança e da credibilidade, por meio de atitudes sempre firmes e coerentes. A eficácia da blindagem depende desse movimento que vai da confiança ao crescimento e do crescimento a mais confiança. Só resta ao governo mobilizar a gana argentina, apesar das aperturas, bem no espírito do tango que diz "no tengo un mango, pero confío en que la Patria se salvará..."


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 

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