Artesão moderno

A inconfundível mobília criada por Joaquim
Tenreiro ganha um livro definitivo

Joaquim Tenreiro,
em sua cadeira de
balanço: curvas à
prova de imitação
Fotos: Divulgação  

Mesmo de olhos fechados, só por meio do tato, o moveleiro Joaquim Tenreiro (1906-1992) era capaz de detectar a diferença entre uma peça feita por ele e uma cópia barata de suas criações. "Essa curva é muita rígida, não saiu da minha goiva", costumava zangar-se, com seu forte sotaque português. Ele tinha razão: tanto a doçura de suas curvas como o conforto de seus móveis são únicos, à prova de imitação. Dono de um domínio invulgar da madeira, Joaquim Tenreiro inventou a moderna mobília brasileira. Seu pulo-do-gato foi juntar o talento manual, aperfeiçoado desde criança na marcenaria de seu pai, no norte de Portugal, com o despojamento curvilíneo do entalhe em madeira feito pelos índios brasileiros. Desse cruzamento nasceram algumas obras-primas, como a Cadeira de Três Pés, a Poltrona Leve e a Poltrona Sonâmbula, que, bem-humorada, imita com seus braços estendidos o estereótipo da pessoa que sofre do distúrbio. O legado do artista está reunido no livro Tenreiro (Bolsa de Arte do Rio de Janeiro; 223 páginas; 45 reais), à venda nas livrarias dos principais museus e centros culturais do país. Amplamente ilustrada com fotos e croquis de suas criações, a obra é um documento definitivo sobre a produção do moveleiro. "Tenreiro reacendeu o fascínio pelo objeto artesanal com suas criações límpidas e sóbrias", observa a historiadora Maria Cecilia Loschiavo dos Santos num ensaio sobre o artista.

Da esquerda para a direita, as poltronas Leve, Sonâmbula e Cadeira de Tiras: despojamento e elegância

Nos anos 60, quando Tenreiro chegou a ter sua própria griffe, seus móveis eram o complemento perfeito para as construções modernistas de Oscar Niemeyer e Lúcio Costa. Requisitado por eles, fez móveis exclusivos, com esquadrias de alumínio, para o salão de banquetes do Palácio do Itamaraty, em Brasília. Mas, ao contrário do que possa parecer, o despojamento de sua mobília não permitia a fabricação em série. "Tenreiro fazia questão de supervisionar pessoalmente cada curva ou encaixe. Seus móveis jamais poderiam ser feitos em massa", diz Ascânio MMM, escultor e ex-discípulo do moveleiro.

Gaiolas — De fato, o toque de Tenreiro é inconfundível, como se vê na Cadeira de Três Pés: o encosto e o assento são feitos de um bloco de ripas de madeira de lei de cores contrastantes, como a imbuia, o mogno e o pau-marfim. Sem usar pregos, ele era um prodígio no tabique, uma técnica de encaixar ripas que demanda uma paciência infinita do artesão. Hoje só restam cerca de dez unidades da Cadeira de Três Pés, cujo exemplar está avaliado em 40.000 reais. Apesar do prestígio que angariou, Tenreiro acabou na miséria, morrendo praticamente sozinho, vítima de câncer, em 1992. Dono de um temperamento explosivo, depois da morte de sua mulher, Lucinda, Tenreiro rompeu com seus três filhos. Já bastante debilitado, ajudado pelos amigos, passou seus últimos meses fazendo primorosas gaiolas de passarinho em Irajá, um subúrbio do Rio de Janeiro.

Angela Pimenta




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