História sem graça

Eduardo Bueno fala do passado brasileiro
sem defender teses ou correr riscos

Cabral: disputa
com Pinzón para
saber quem
chegou primeiro

A precariedade das nossas escolas cria fenômenos curiosos. A Viagem do Descobrimento (editora Objetiva; 137 páginas; 16 reais), do jornalista Eduardo Bueno, entrou para a lista dos mais vendidos. O segundo volume da mesma série, Náufragos, Traficantes e Degredados (200 páginas; 17,50 reais), segue a trilha do precedente. Qual a chave do sucesso? Uma só: ensinam o que todos deveríamos ter aprendido no ginásio. O livro é uma espécie de supletivo sobre História do Brasil.

Nada de errado nisso, claro. É saudável que os brasileiros, ainda que tarde, se interessem em saber como se formou o país. E Bueno, com seu tom simples e despretensioso, descreve os fatos com clareza. Mas História é outra coisa. História exige pesquisa, intuição, interpretação. Em vez disso, Bueno limita-se a fazer uma relação cronológica de eventos, compilando material de outros livros. De análise, nem se fala. Não há o anticolonialismo dos marxistas. Não há a atenção ao cotidiano da micro-História. Não há a indignação moral de um Caio Prado. Não há a fixação sexual de um Gilberto Freyre, tanto que até Caramuru é apresentado como monógamo. Ou seja, é uma História asséptica, de múltipla escolha, sem riscos, em que o passado não tem influência sobre o presente. Nas raras ocasiões em que Bueno ousa afirmar alguma coisa, logo se arrepende. Por exemplo: ele avança a teoria "irrefutável" de que Pinzón teria sido o primeiro navegador europeu a atingir o Brasil. Três páginas adiante, a teoria já lhe parece apenas "a mais provável". Desse jeito, História não tem graça.

Algumas conclusões, porém, é possível tirar. A principal é que desde o começo tentamos atrair os estrangeiros a investir no país, mas sempre apareceu algum negócio mais lucrativo que desviou seu interesse, fossem as especiarias ou o ouro dos incas. Até hoje tentamos convencer os ricos de que vale a pena investir aqui. Quem sabe desta vez eles caem na nossa conversa.

Diogo Mainardi

 



 





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