Oriente Médio

Jogo duro

Israel anuncia suspensão de retirada da Cisjordânia

A visita do presidente Bill Clinton a Israel, prevista para o final desta semana, deveria marcar uma nova fase do processo de paz. Segundo o acordo de Wye, assinado em outubro, os israelenses precisam se retirar neste mês de mais 5% da Cisjordânia e libertar 250 palestinos. Ao contrário, sem dar importância ao visitante ilustre, na quinta-feira passada o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, anunciou que a retirada está suspensa e apresentou nova batelada de exigências. O pivô do novo recuo foi um episódio violento, registrado com fartura de detalhes pelas câmaras de televisão: um grupo de manifestantes palestinos atacou a pedradas um carro israelense, espancou seu passageiro — um soldado fardado —, roubou seu fuzil M-16 e pôs fogo no veículo. O incidente foi apenas um numa semana de choques e tensão, mas serviu bem aos propósitos de melar o compromisso.

A decisão foi unânime entre os membros do governo, depois de assistir juntos às imagens em vídeo do espancamento do soldado. Para voltar a cumprir sua parte do acordo, Israel quer primeiro que Iasser Arafat abandone publicamente o plano de declarar um Estado palestino em maio e aceite os critérios israelenses para a libertação de prisioneiros. A maioria dos que foram soltos no primeiro estágio eram criminosos comuns. Com tais manobras, o primeiro-ministro israelense conseguiu mais uma vez recobrar o equilíbrio na corda bamba doméstica. Os pequenos partidos religiosos e de extrema direita, base de sustentação de seu governo, comemoraram o retorno à linha dura e adiaram indefinidamente o projeto de convocação de novas eleições, que encurtariam o mandato do primeiro-ministro. Em compensação, ele perdeu ainda mais pontos perante os Estados Unidos, onde é visto com impaciência cada vez maior pelo governo Clinton.

"O acordo de paz precisa ser implementado como foi assinado", reagiu, duro, o porta-voz do Departamento de Estado, James Rubin. O governo de Israel nunca escondeu sua má vontade em cumprir o acordo de Wye, arrancado a fórceps por Clinton em pessoa. O texto previa um cronograma minucioso pelo qual, durante três meses, Israel deveria devolver 13% dos territórios palestinos ocupados, em troca de garantias de segurança. A primeira retirada deu-se no último dia 20, já sob cerrada troca de acusações de parte a parte. Outro passo garantido pelo acordo foi a inauguração de um aeroporto palestino em Gaza. O governo de Israel pediu para que o presidente americano mude de planos, temendo que transmita a impressão de um reconhecimento da soberania palestina. Se persistir, Clinton pode contar com uma recepção estrondosa. Mesmo que ceda, não mudará substancialmente o novo rumo que vem imprimindo à política americana na questão palestino-israelense. Na segunda-feira passada, por exemplo, ele patrocinou a conferência que amealhou ajuda internacional de mais de 3 bilhões de dólares para a Autoridade Nacional Palestina nos próximos cinco anos. A nova realidade tem uma imagem forte: Estados Unidos e palestinos de braços dados contra a intransigência de Netanyahu.




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