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Home  »  Revistas  »  Edição 2142 / 9 de dezembro de 2009


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Memória

Os tons do mestre

Acervo de Tom Jobim está quase todo digitalizado, permitindo
o acesso on-line a versões de melodia e letra da maior parte
de suas mais de 200 composições


Marcelo Bortoloti

Otto Stupakoff /IMS

BAÚ DIGITAL
Tom reuniu ao longo da vida mais
de 30 000 documentos de texto,
vídeo, áudio e foto


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O maestro Antonio Carlos Jobim não era um homem organizado. Em sua casa, partituras e letras de música viviam espalhadas nas gavetas e, por vezes, desapareciam. Em 1980, sua segunda mulher, Ana Lontra Jobim, decidiu dar um basta nisso. Prevendo que esse material poderia ser precioso no futuro, ela convidou a museó-loga Vera Alencar – a quem o maestro, bem-humorado, passou a chamar de "minha taxidermista" (especialista em empalhar animais) – para organizá-lo. Foi o embrião do Instituto Antonio Carlos Jobim, criado em 2001, sete anos após a morte do maestro. Dirigida pelo primeiro filho de Tom, Paulo Jobim, a instituição se tornou um exemplo raro no país. Em geral, o acervo pessoal de um autor, quando está disponível para consulta, fica restrito a pesquisadores dispostos a se embrenhar em pilhas de papéis velhos, empoeirados e mal organizados. O instituto disponibiliza pela internet (no site www.jobim.org), para qualquer interessado, quase todo o arquivo privado do maestro. O site recebe 400 visitantes por dia. Agora, o instituto vai finalizar a organização dos últimos documentos que ainda ficaram em poder da família. "A ideia é que todo o acervo, a não ser coisas muito sensíveis, que podem afetar terceiros, esteja disponível on-line", diz Paulo Jobim.

São mais de 30 000 documentos de texto, foto, vídeo e áudio. Entre eles, peças deliciosas como as que mostram os rascunhos de músicas ou gravações caseiras no seu velho piano Welmar. O esboço de Wave é um desses tesouros. A canção foi feita em 1967, num hotel de Los Angeles, quando o maestro esperava impaciente a ligação de Frank Sinatra, com quem gravaria um disco naquele ano. Wave nasceu com uma letra em inglês, que começa com o verso "So close your eyes". De volta ao Brasil, Tom pediu ajuda a Chico Buarque para fazer uma letra em português. Mas a parceria não foi adiante. Chico fez apenas o primeiro verso, "Vou te contar", e desapareceu. Tom levou meses para escrevê-la sozinho. Todo esse esforço aparece transcrito no caderno de rascunhos. O maestro começa rabiscando versos duros: "Vou te contar / Das coisas que me trouxe o mar / Da correnteza que era forte / Longe das docas onde o mar vai descansar". Nas páginas seguintes, arrisca novas frases que vão se aproximando do formato final: "Melhor é não ter medo de amar / Melhor sofrer do que ficar sozinha".

Outro rascunho interessante é de Desafinado, escrito no fim da década de 50 em parceria com Newton Mendonça. A versão preliminar é tosca: "Se você insiste em padronizar / Me classificando antimusical / Sou moderno e posso até provar: / Com fita durex / Enrolei meu coração". Mais adiante, Tom anotou a ideia que resultaria em um de seus versos mais famosos ("Fotografei você na minha Rolleiflex"). Algumas canções do acervo permanecem inéditas. Uma delas chama-se João Barandi e foi escrita em dupla com o "bruxo" Lourival de Freitas, amigo e conselheiro de Tom Jobim. A insólita parceria mostra um lado pouco conhecido do maestro. Lourival, que era médium, dizia encarnar o espírito de Nero, o imperador romano, para fazer operações espirituais. Tom chegou a participar de algumas delas tocando músicas que serviam como "anestesia" para os pacientes. Numa fita caseira, com quase uma hora de duração, o maestro canta e dedilha em seu piano a canção, que nunca foi concluída.

Há dois anos, o instituto começou a organizar e digitalizar também o acervo de terceiros. Todos eles amigos do maestro. Em julho, foi finalizada a catalogação dos documentos pessoais de Dorival Caymmi. Antes dele, a instituição já havia digitalizado os do urbanista Lúcio Costa. Ambos estão disponíveis na internet. Agora, o instituto trabalha no acervo de Chico Buarque. Seus arquivos também são recheados de rascunhos, como o de Retrato em Branco e Preto, uma das primeiras parcerias com Tom Jobim, de 1968. Nele, por detrás das rasuras, aparece uma estrofe só reconhecível pela primeira frase: "Pra lhe dizer que isso é pecado / E meu amor tão descuidado / Volta pro seu lado / Pra morrer na escuridão". Na mesma folha, Chico se emenda com os versos que ficaram clássicos: "Eu trago o peito tão marcado / De lembranças do passado / E você sabe a razão".


Desafinado
(Tom Jobim e Newton Mendonça)

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de antimusical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é bossa nova, isto é muito natural



Trecho manuscrito
"Se você insiste em padronizar
Me classificando antimusical
Sou moderno e posso até provar:
Com fita durex
Enrolei meu coração"

 

 

Vou Te Contar

Os olhos já não podem ver
Coisas que só o coração pode entender
Fundamental é mesmo o amor
É impossível ser feliz sozinho...


Trecho manuscrito
"Vou te contar
Das coisas que me trouxe o mar
Da correnteza que era forte
Longe das docas onde o mar vai descansar"

 

 


Trecho manuscrito
"Fundamental é se viver juntinho
É impossível ser feliz sozinho
Melhor sofrer do que viver sozinho"

 


Trecho manuscrito
"As coisas lindas que os olhos não podem ver
Melhor é não ter medo de amar
Melhor sofrer do que ficar sozinha"

 


Trecho manuscrito
"Vou te contar
Os olhos já não podem ver
Coisas que só teu coração pode entender
Melhor é não ter medo de amar
É impossível ser feliz sozinho"

 
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