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permitindo
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Otto
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BAÚ
DIGITAL |
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| • Música inédita do maestro |
O maestro Antonio
Carlos Jobim não era um homem organizado. Em sua casa, partituras e letras
de música viviam espalhadas nas gavetas e, por vezes, desapareciam. Em
1980, sua segunda mulher, Ana Lontra Jobim, decidiu dar um basta nisso. Prevendo
que esse material poderia ser precioso no futuro, ela convidou a museó-loga
Vera Alencar a quem o maestro, bem-humorado, passou a chamar de "minha
taxidermista" (especialista em empalhar animais) para organizá-lo.
Foi o embrião do Instituto Antonio Carlos Jobim, criado em 2001, sete anos
após a morte do maestro. Dirigida pelo primeiro filho de Tom, Paulo Jobim,
a instituição se tornou um exemplo raro no país. Em geral,
o acervo pessoal de um autor, quando está disponível para consulta,
fica restrito a pesquisadores dispostos a se embrenhar em pilhas de papéis
velhos, empoeirados e mal organizados. O instituto disponibiliza pela internet
(no site www.jobim.org), para qualquer interessado, quase todo o arquivo privado
do maestro. O site recebe 400 visitantes por dia. Agora, o instituto vai finalizar
a organização dos últimos documentos que ainda ficaram em
poder da família. "A ideia é que todo o acervo, a não
ser coisas muito sensíveis, que podem afetar terceiros, esteja disponível
on-line", diz Paulo Jobim.
São mais de 30 000
documentos de texto, foto, vídeo e áudio. Entre eles, peças
deliciosas como as que mostram os rascunhos de músicas ou gravações
caseiras no seu velho piano Welmar. O esboço de Wave é um
desses tesouros. A canção foi feita em 1967, num hotel de Los Angeles,
quando o maestro esperava impaciente a ligação de Frank Sinatra,
com quem gravaria um disco naquele ano. Wave nasceu com uma letra em inglês,
que começa com o verso "So close your eyes". De volta
ao Brasil, Tom pediu ajuda a Chico Buarque para fazer uma letra em português.
Mas a parceria não foi adiante. Chico fez apenas o primeiro verso, "Vou
te contar", e desapareceu. Tom levou meses para escrevê-la sozinho.
Todo esse esforço aparece transcrito no caderno de rascunhos. O maestro
começa rabiscando versos duros: "Vou te contar / Das coisas que me
trouxe o mar / Da correnteza que era forte / Longe das docas onde o mar vai descansar".
Nas páginas seguintes, arrisca novas frases que vão se aproximando
do formato final: "Melhor é não ter medo de amar / Melhor sofrer
do que ficar sozinha".
Outro rascunho interessante é de Desafinado, escrito no fim da década de 50 em parceria com Newton Mendonça. A versão preliminar é tosca: "Se você insiste em padronizar / Me classificando antimusical / Sou moderno e posso até provar: / Com fita durex / Enrolei meu coração". Mais adiante, Tom anotou a ideia que resultaria em um de seus versos mais famosos ("Fotografei você na minha Rolleiflex"). Algumas canções do acervo permanecem inéditas. Uma delas chama-se João Barandi e foi escrita em dupla com o "bruxo" Lourival de Freitas, amigo e conselheiro de Tom Jobim. A insólita parceria mostra um lado pouco conhecido do maestro. Lourival, que era médium, dizia encarnar o espírito de Nero, o imperador romano, para fazer operações espirituais. Tom chegou a participar de algumas delas tocando músicas que serviam como "anestesia" para os pacientes. Numa fita caseira, com quase uma hora de duração, o maestro canta e dedilha em seu piano a canção, que nunca foi concluída.
Há dois anos, o instituto começou a organizar e digitalizar também o acervo de terceiros. Todos eles amigos do maestro. Em julho, foi finalizada a catalogação dos documentos pessoais de Dorival Caymmi. Antes dele, a instituição já havia digitalizado os do urbanista Lúcio Costa. Ambos estão disponíveis na internet. Agora, o instituto trabalha no acervo de Chico Buarque. Seus arquivos também são recheados de rascunhos, como o de Retrato em Branco e Preto, uma das primeiras parcerias com Tom Jobim, de 1968. Nele, por detrás das rasuras, aparece uma estrofe só reconhecível pela primeira frase: "Pra lhe dizer que isso é pecado / E meu amor tão descuidado / Volta pro seu lado / Pra morrer na escuridão". Na mesma folha, Chico se emenda com os versos que ficaram clássicos: "Eu trago o peito tão marcado / De lembranças do passado / E você sabe a razão".
Desafinado
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