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Home  »  Revistas  »  Edição 2142 / 9 de dezembro de 2009


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Religião

A queda do minarete

Receosos da crescente presença muçulmana no país,
suíços votam pela proibição das torres das mesquitas


Thomaz Favaro

Fotos AP e Alessandro Della Bella/AP

MAL RESOLVIDOS
Cartaz da campanha pela proibição e protesto pelo resultado: problemas


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Se existe um país em que todas as grandes questões parecem resolvidas, ainda que ao preço de uma certa rigidez social e do tédio existencial, é a Suíça. Até as piadas são sempre as mesmas e giram sobre cucos, dinheiro, ordem, normalidade e conflitos evitados a todo custo. As fotos acima, e o que representam, são de assustar o mais distraído crente da tese das civilizações resolvidas. A primeira mostra minaretes em formato de mísseis sobre a bandeira suíça, com uma mulher trajando a roupa exigida pelos muçulmanos mais fundamentalistas. Era a campanha do Partido do Povo Suíço pelo sim no plebiscito sobre a proibição da construção de minaretes em futuras mesquitas – na democracia plebiscitária da Suíça, tudo passa pelo voto popular. A campanha parecia furada, mas no segredo das cabines 58% votaram a favor da proibição.

Nem todas as mesquitas têm minaretes, e sua função original – dizer aos muçulmanos que está na hora de parar para as cinco preces diárias – hoje é preenchida pelos sistemas de som. Em vários países europeus, inclusive a Suíça, os minaretes são mudos: não emitem som nenhum, para respeitar as leis de silêncio. Mas sua importância simbólica é evidente. Toda construção que se ergue em direção ao céu proclama um desejo, uma crença e um impulso de autoafirmação. O alvo mais importante dos atentados de 11 de setembro foram os minaretes da América, as torres gêmeas do World Trade Center. Vetar uma construção de natureza religiosa, simbólica ou não, parece um acinte aos valores mais importantes da civilização ocidental: a liberdade de cada indivíduo de pensar, falar, acreditar e cultuar o que quiser. Por causa disso, desde o Vaticano até a Anistia Internacional, passando pelo próprio governo suíço, que era contra a proibição, choveram condenações. É possível que o caso vá para a Corte Europeia de Direitos Humanos, que no mês passado proibiu crucifixos nas escolas públicas da Itália, invocando justamente os direitos dos crentes de outras religiões e dos não crentes.

Os partidários da proibição aos minaretes, no entanto, exploraram sentimentos complexos, que vão do condenável, como a xenofobia, ao indesejável, mas compreensível, como a associação entre a religião muçulmana e a ideologia do islamismo, que prega a guerra a todas as instituições ocidentais. "Eles fizeram uma associação sistemática entre Islã e violência, submissão feminina e discriminação", queixou-se a ministra das Relações Exteriores, Micheline Calmy-Rey. O eleitorado feminino mostrou-se especialmente sensível à imagem da mulher inteiramente coberta de negro. A Suíça, que é uma confederação de regiões de língua alemã, francesa, italiana e romanche, tem muitos séculos de administração de conflitos, mas convive com dificuldades com as ondas migratórias recentes, especialmente as mais refratárias à assimilação. No total, a população da Suíça hoje é composta de 22% de imigrantes. Os muçulmanos são cerca de 400 000, na maioria provenientes dos lugares complicados da antiga Iugoslávia (Kosovo e Bósnia) e da Turquia.

A convivência em graus variados de dificuldade afeta boa parte dos 15 milhões de muçulmanos em países europeus. Atos de rejeição explícita como a proibição dos minaretes alimentam a sensação de estranheza e, nos casos mais extremos, o sentimento de vitimização, um dos sustentáculos da ideologia islâmica. "Muitos muçulmanos querem viver na Europa, mas sem fazer parte da Europa", disse a VEJA o imã Taj Hargey, sul-africano radicado em Oxford, na Inglaterra, uma exceção raríssima de líder religioso que prega a integração plena. "Não é possível defender no continente o apedrejamento de adúlteras e a mutilação genital das mulheres, práticas que são toleradas em determinados países por receberem uma justificativa religiosa, mas que nada têm a ver com o Corão." Sobre o caso dos minaretes, ele escreveu que "a proibição é desnecessariamente xenofóbica, mas não infringe a liberdade religiosa dos muçulmanos suíços".

A discórdia na Suíça começou em 2005, quando um centro cultural turco na cidade de Wangen bei Olten, no norte do país, pediu uma licença ao governo para erguer o seu minarete. Moradores tentaram impedir sua construção através de abaixo-assinados e queixas na Justiça, mas não conseguiram. A modesta torre de 6 metros foi erguida em julho passado. Foi a quarta e última.

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