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Ponto
de vista: Stephen Kanitz
Empresas onde
todos se divertem
"Nelas, o presidente não
destrata nem
desrespeita os subordinados, jamais berra
em público, não é
o dono da verdade e as
idéias de todos são desejadas e levadas
a sério"
Por 25 anos analisei as 1.000
maiores empresas do Brasil, e muitos professores de administração
me perguntam como eu classificaria as companhias brasileiras com
base nessa experiência. Daria um livro, mas, resumindo em
uma única página, diria que existem cinco tipos de
empresa no país.
A empresa Tipo A é aquela
na qual somente o dono se diverte. Tudo gira em torno dele, tudo
é feito do jeito dele. Ele é o verdadeiro deus de
sua companhia e assim consegue implantar rapidamente sua visão
do negócio. É o "empresário bem-sucedido" que
aparece em capa de revistas, invariavelmente sozinho. É o
dono da verdade, de tudo e de todos. Não preciso dizer que
os demais integrantes dessas empresas não se divertem nem
um pouco, não é esse seu objetivo.
Ilustração Ale Setti
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A empresa Tipo B é aquela em que somente os filhos do dono
se divertem. O pai, com 95 anos, ainda a controla com mão-de-ferro,
mas isso já não é tão fácil como
antigamente. Ele está ficando gagá, só que
não percebe e já não se diverte como antes.
Ele nunca quis fazer a transição de uma empresa familiar
para uma profissional, muito menos entregar a companhia aos filhos.
Para manter-se no poder, comprou-lhes iates e BMWs e deu-lhes cargos
no conselho para fazer absolutamente nada. Não conseguindo
salário compatível em nenhum outro lugar, os filhos
resignados se deleitam fazendo cruzeiros mundo afora. No fundo,
são os únicos que se divertem.
A empresa Tipo C é aquela
onde ninguém mais se diverte. O pai de 95 anos finalmente
morreu sem deixar uma equipe de administradores profissionais que
pudesse salvar a companhia. Os filhos chamados às pressas
do Caribe começam a brigar entre si, porque também
só entendem de iates e BMWs. A empresa vai de mal a pior,
e os filhos se safam vendendo-a a uma multinacional.
E aí essa elite empresarial
não entende por que todos os empregados, trabalhadores e
sindicalistas de empresas A, B e C são de esquerda e por
que temos tantos intelectuais e professores de administração
querendo acabar com tudo isso que está aí.
A empresa Tipo D é aquela
na qual todo mundo se diverte. Ela não tem um único
dono, é uma associação coletiva de pequenos
acionistas, a maioria formada de trabalhadores da própria
empresa, fundos de pensão de trabalhadores, da classe média,
de médicos e engenheiros, poupando para a aposentadoria,
para não depender do salário dos filhos. São
as empresas de capital democrático, em que não há
ações sem direito a voto, onde todos votam, como essas
companhias listadas no novo mercado transacionadas todo dia na Bovespa.
Elas são a concretização do sonho de Karl Marx,
nas quais trabalhadores e consumidores são acionistas diretos
das empresas em que trabalham ou compram, detendo assim os meios
de produção.
Normalmente, o presidente dessas
empresas é um administrador profissional, funcionário
demissível a qualquer momento, como todos os outros. Nada
de cargo vitalício como nas dos tipos A, B e C nem indicações
por apadrinhamento político como nas empresas Tipo G, G de
governo. O presidente dessas companhias é escolhido pela
competência administrativa, e não pelo parentesco familiar
ou loteamento político. Como esse administrador depende da
cooperação de todos para manter-se no poder, a opinião
geral é ouvida, todo mundo faz parte da solução,
ele acredita no trabalho de equipe. As idéias de todos são
desejadas e levadas a sério. Nessas empresas, o presidente
não destrata nem desrespeita os subordinados, jamais berra
em público, não é o dono da verdade, caso contrário
não sobreviveria. São empresas preocupadas com o social,
e não somente com o bolso do acionista controlador, que nessas
empresas nem existe. O D é de Divertido, Diversificado e
Democrático. Essas são as melhores companhias para
trabalhar no Brasil, infelizmente muito raras devido à proliferação
de empresas dos tipos A, B, C e G.
Mas empresas Tipo D estão
sendo criadas todo dia. Um outro mundo é possível,
mais democrático, mais bem administrado, mais includente,
mais socialmente responsável e muito mais divertido.
Stephen Kanitz é
administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
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