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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A democracia americana
ensaia sua volta
As instituições enfim despertam
e Bush, que
já tinha um Vietnã, ganha um Watergate
Os americanos gostam de dizer que suas instituições
funcionam. São educados, desde cedo, no culto da Constituição
e dos Pais Fundadores (os Founding Fathers, o grupo de homens,
George Washington à frente, que serviram de parteiros da
nação) e se deleitam com a idéia de que, entra
crise e sai crise, o país consegue encontrar saídas
justas e pacíficas com o simples recurso aos mecanismos legais.
"As instituições mais uma vez funcionaram", dizem
uns para os outros, inchados de orgulho autocongratulatório,
quando superam episódios como a destituição
de um presidente prevaricador como Richard Nixon, nos anos 70. Ou
quando se desata o nó que, em 2000, deixou pendente, por
semanas a fio, o resultado das eleições para a sucessão
do presidente Bill Clinton, em razão dos vícios na
apuração dos votos.
Por um lado, eles têm toda a razão.
Mais de 200 anos atrás, a Constituição fixou
uma rotina eleitoral que, desde então, tem sido rigorosamente
cumprida. Um paralelo entre a história da América
Latina, com seus golpes, "revoluções" e pronunciamientos,
e a dos Estados Unidos, com sua ritual promoção de
eleições a cada quatro anos, chova ou faça
sol, esteja o país em paz ou em guerra, nos enche de vergonha.
Mas, por outro lado, os americanos incorrem em pura mistificação.
A eleição de 2000, em que George W. Bush foi declarado
vencedor, consistiu, de ponta a ponta, num engodo, com início
numa apuração de votos fraudulenta, na Flórida,
e final na conivência do Judiciário. Dizer, como muitos
disseram na ocasião, que as instituições funcionaram,
já que se chegou a um desfecho sem mortos nem feridos, é
passar por um Babbitt, o hoje esquecido personagem de Sinclair Lewis,
símbolo do americanão ingênuo e pateta. Se funcionaram,
foi para escamotear o fundamento da democracia, que é a vontade
expressa nas urnas.
Entre as ocasiões em que as instituições
realmente funcionam e aquelas em que entram em colapso existe uma
terceira modalidade: as situações em que durante longo
tempo as instituições ficam adormecidas, deixando-se
ignorar e manipular, mas subitamente despertam. É o que experimentam
os Estados Unidos neste momento.
Os anos Bush, desde a fraude nas eleições,
foram de apagão institucional. A instituição
da Presidência foi usada para mentir e enganar. A fim de desencadear
a guerra ao Iraque, recorreu-se à mentira das armas de destruição
em massa. Outras mentiras se seguiram, para sustentar a primeira,
como a de que Saddam Hussein teria comprado urânio enriquecido
no Níger, no afã de ter sua bomba nuclear. Se não
eram mentiras, eram mistificações, como a de que o
objetivo seria levar a democracia ao Iraque. Ou então a de
que se combatia o terrorismo, quando na verdade se aumentava ao
infinito o número de terroristas no conflagrado território
iraquiano. Outra sagrada instituição, a imprensa,
foi tragada na roda-viva das mentiras e mistificações.
Depois dos atentados de 11 de setembro, impôs-se às
consciências, para grande alegria dos detentores do poder,
a regra não escrita de que se opor ao governo era antipatriótico.
A imprensa acovardou-se. Cobriu a guerra como cobriria os ataques
contra os índios montada na garupa do cavalo de John Wayne.
Mas eis que...
Eis que um episódio secundário
começa a tirar o chão debaixo de Bush. Um promotor,
Patrick Fitzgerald, põe-se a investigar como é que
uma certa senhora, mulher de um diplomata, teve revelada na imprensa
sua condição de agente secreta da CIA. Expor a qualidade
de espião de alguém não é apenas danoso
para as operações secretas é crime.
A espiã em questão, Valerie Plame, é mulher
de Joseph Wilson, um diplomata que foi conferir no Níger
se era verdade que Saddam Hussein tinha comprado urânio lá
e concluiu que não. Wilson publicou na imprensa um artigo
em que, ao expor sua conclusão, desmontava a argumentação
do governo para invadir o Iraque. Não podia ser coincidência
que, logo depois, aparecesse a notícia de que sua mulher
era agente da CIA. Investiga daqui e dali, e o promotor Fitzgerald
chega à conclusão de que o vazamento à imprensa,
arquitetado como vingança contra Wilson, saíra dos
altos escalões do governo. Lewis Libby, o principal assessor
do vice-presidente Dick Cheney, já foi indiciado. Outros
poderão segui-lo, inclusive o próprio Cheney e Karl
Rove, o principal assessor de Bush.
Configura-se um quadro em que, antes tarde
do que nunca, as instituições se põem em marcha.
Um promotor, um simples e até então anônimo
membro do Ministério Público, como se diria no Brasil,
movido por nenhuma outra razão senão a observância
da lei, faz tremer um governo. O governo Bush já tinha a
lamentar ter encontrado no Iraque uma repetição da
tragédia do Vietnã. Ao Vietnã, somou-se agora
um Watergate: um escândalo que ameaça fazê-lo
em estilhaços. Enquanto o governo se debate entre um problemão
e outro, salvam-se as instituições. "Quatro anos depois
do 11 de Setembro, começamos a ter nossa democracia de volta",
escreveu o colunista Jonathan Alter, da revista Newsweek.
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