Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A democracia americana
ensaia sua volta

As instituições enfim despertam e Bush, que
já tinha
um Vietnã, ganha um Watergate

Os americanos gostam de dizer que suas instituições funcionam. São educados, desde cedo, no culto da Constituição e dos Pais Fundadores (os Founding Fathers, o grupo de homens, George Washington à frente, que serviram de parteiros da nação) e se deleitam com a idéia de que, entra crise e sai crise, o país consegue encontrar saídas justas e pacíficas com o simples recurso aos mecanismos legais. "As instituições mais uma vez funcionaram", dizem uns para os outros, inchados de orgulho autocongratulatório, quando superam episódios como a destituição de um presidente prevaricador como Richard Nixon, nos anos 70. Ou quando se desata o nó que, em 2000, deixou pendente, por semanas a fio, o resultado das eleições para a sucessão do presidente Bill Clinton, em razão dos vícios na apuração dos votos.

Por um lado, eles têm toda a razão. Mais de 200 anos atrás, a Constituição fixou uma rotina eleitoral que, desde então, tem sido rigorosamente cumprida. Um paralelo entre a história da América Latina, com seus golpes, "revoluções" e pronunciamientos, e a dos Estados Unidos, com sua ritual promoção de eleições a cada quatro anos, chova ou faça sol, esteja o país em paz ou em guerra, nos enche de vergonha. Mas, por outro lado, os americanos incorrem em pura mistificação. A eleição de 2000, em que George W. Bush foi declarado vencedor, consistiu, de ponta a ponta, num engodo, com início numa apuração de votos fraudulenta, na Flórida, e final na conivência do Judiciário. Dizer, como muitos disseram na ocasião, que as instituições funcionaram, já que se chegou a um desfecho sem mortos nem feridos, é passar por um Babbitt, o hoje esquecido personagem de Sinclair Lewis, símbolo do americanão ingênuo e pateta. Se funcionaram, foi para escamotear o fundamento da democracia, que é a vontade expressa nas urnas.

Entre as ocasiões em que as instituições realmente funcionam e aquelas em que entram em colapso existe uma terceira modalidade: as situações em que durante longo tempo as instituições ficam adormecidas, deixando-se ignorar e manipular, mas subitamente despertam. É o que experimentam os Estados Unidos neste momento.

Os anos Bush, desde a fraude nas eleições, foram de apagão institucional. A instituição da Presidência foi usada para mentir e enganar. A fim de desencadear a guerra ao Iraque, recorreu-se à mentira das armas de destruição em massa. Outras mentiras se seguiram, para sustentar a primeira, como a de que Saddam Hussein teria comprado urânio enriquecido no Níger, no afã de ter sua bomba nuclear. Se não eram mentiras, eram mistificações, como a de que o objetivo seria levar a democracia ao Iraque. Ou então a de que se combatia o terrorismo, quando na verdade se aumentava ao infinito o número de terroristas no conflagrado território iraquiano. Outra sagrada instituição, a imprensa, foi tragada na roda-viva das mentiras e mistificações. Depois dos atentados de 11 de setembro, impôs-se às consciências, para grande alegria dos detentores do poder, a regra não escrita de que se opor ao governo era antipatriótico. A imprensa acovardou-se. Cobriu a guerra como cobriria os ataques contra os índios montada na garupa do cavalo de John Wayne. Mas eis que...

Eis que um episódio secundário começa a tirar o chão debaixo de Bush. Um promotor, Patrick Fitzgerald, põe-se a investigar como é que uma certa senhora, mulher de um diplomata, teve revelada na imprensa sua condição de agente secreta da CIA. Expor a qualidade de espião de alguém não é apenas danoso para as operações secretas – é crime. A espiã em questão, Valerie Plame, é mulher de Joseph Wilson, um diplomata que foi conferir no Níger se era verdade que Saddam Hussein tinha comprado urânio lá e concluiu que não. Wilson publicou na imprensa um artigo em que, ao expor sua conclusão, desmontava a argumentação do governo para invadir o Iraque. Não podia ser coincidência que, logo depois, aparecesse a notícia de que sua mulher era agente da CIA. Investiga daqui e dali, e o promotor Fitzgerald chega à conclusão de que o vazamento à imprensa, arquitetado como vingança contra Wilson, saíra dos altos escalões do governo. Lewis Libby, o principal assessor do vice-presidente Dick Cheney, já foi indiciado. Outros poderão segui-lo, inclusive o próprio Cheney e Karl Rove, o principal assessor de Bush.

Configura-se um quadro em que, antes tarde do que nunca, as instituições se põem em marcha. Um promotor, um simples e até então anônimo membro do Ministério Público, como se diria no Brasil, movido por nenhuma outra razão senão a observância da lei, faz tremer um governo. O governo Bush já tinha a lamentar ter encontrado no Iraque uma repetição da tragédia do Vietnã. Ao Vietnã, somou-se agora um Watergate: um escândalo que ameaça fazê-lo em estilhaços. Enquanto o governo se debate entre um problemão e outro, salvam-se as instituições. "Quatro anos depois do 11 de Setembro, começamos a ter nossa democracia de volta", escreveu o colunista Jonathan Alter, da revista Newsweek.

 
 
 
 
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