|
|
Turismo O
nordeste dos europeus Estrangeiros que
vêm para fazer negócios, turismo e, cada vez mais, para morar
estão injetando uma nova energia no litoral nordestino
 Texto:
Ruth Costas, de Fortaleza Fotos: Lailson Santos  | VIDA
NOVA A italiana Cristiana Penner, 33 anos, largou
a advocacia e se mudou com a família para o Rio Grande do Norte, onde planeja
abrir um hotel e um quiosque de praia |
O Nordeste brasileiro encontrou sua
vocação: a de ser o paraíso tropical onde europeus gastam
e investem seus euros. Portugueses, espanhóis, franceses, italianos, alemães
e escandinavos estão invadindo a região para fazer negócios,
passar as férias ou para desfrutar a aposentadoria num clima agradável
e preços mais em conta do que os europeus. O movimento possui duas vertentes.
A primeira é o avanço do turismo residencial. Alguns milhares de
estrangeiros estão comprando apartamentos e casas do lado de cá
do Atlântico para veraneio ou mesmo para morar em definitivo. No
Ceará, três de cada dez imóveis novos com valor acima de 50.000
reais são adquiridos por estrangeiros. No Rio Grande do Norte, os europeus
compraram 40% das casas e apartamentos novos vendidos no último ano.  | APOSENTADOS
O casal português Antônio Reinaldo Naldinho, de 69 anos, e Maria Helena, de 59,
na casa comprada no Ceará: tempo dividido entre o Brasil e Portugal |
A outra vertente da invasão é a explosão de investimentos
de empresas européias nos setores hoteleiro, turístico e imobiliário
do Nordeste. No litoral baiano, sete complexos turísticos erguidos com
capital europeu estarão concluídos nos próximos dois anos.
Outros 28 empreendimentos de médio e grande portes devem ser inaugurados
por grupos estrangeiros até 2010 no litoral potiguar. Os investimentos
europeus em novos hotéis, resorts e condomínios previstos para os
próximos cinco anos no Nordeste ultrapassam 4 bilhões de reais,
o equivalente a 8% do que o Brasil recebeu em investimento estrangeiro em todos
os setores da economia no ano passado. Ambas as
levas de recém-chegados a empresarial e a de novos moradores
são o resultado do mesmo fenômeno, o aumento no fluxo de turistas
europeus na região. Desde a década de 90, na Bahia, no Ceará
e no Rio Grande do Norte, por exemplo, quadruplicou o número de visitantes
estrangeiros no Nordeste. A movimentação chamou a atenção
de empreiteiras e grupos hoteleiros europeus, que vieram construir a infra-estrutura
necessária para atender os próprios conterrâneos em território
brasileiro. "A Europa é um mercado imenso, e o interesse pelo Brasil está
crescendo cada vez mais", diz José Antonio Correia, do grupo português
DDC, que está construindo um complexo residencial com treze torres de apartamentos
e 192 lotes de casas no município de Eusébio, no Ceará.  | HOTEL
NOS TRÓPICOS O francês Xavier Huvelin, de 68
anos, abriu uma pousada em Porto de Galinhas. Sua filha Carine e seu neto Yannis
passam as férias lá |
No Nordeste, os turistas de hoje são os imigrantes de amanhã. Grande
parte dos estrangeiros que adquirem casas no litoral nordestino é de visitantes
que vieram para passear e acabaram se encantando com o estilo de vida, a paisagem
e o clima local. "Eles compram residências porque querem passar mais tempo
no Brasil", comenta o secretário de Turismo do Ceará, Allan Aguiar.
"Muitos deles fazem isso por ter se aposentado ou porque querem abrir um pequeno
negócio por aqui." Recém-aposentado em seu país, o suíço
Marc Dizerens construiu com um sócio francês o condomínio
Baía Dourada, no sul da Bahia. Metade dos lotes já foi vendida,
todos para estrangeiros.  | PARA
EUROPEUS O sueco Jan von Bahr, diretor do hotel
Serhs, em Natal, inaugurado na semana passada: 60% dos hóspedes serão estrangeiros
|
Sempre se acreditou
que o turismo é uma vocação natural não só
do Nordeste, como de todo o Brasil. O país tem paisagens variadas, 2.000
praias e clima ameno. O problema é que, apesar disso tudo, recebemos por
ano um número de visitantes menor que o do Museu do Louvre, em Paris, ou
o da minúscula Cingapura, na Ásia. Se o Nordeste está finalmente
fazendo jus a sua vocação, é porque nos últimos dez
anos começou a resolver alguns problemas de infra-estrutura que atrapalham
o turismo. Nesse período, estradas novas ou reformadas e obras de saneamento
básico permitiram a construção de condomínios e resorts
em praias distantes das capitais. Também houve um esforço na formação
de mão-de-obra qualificada. Todos os alunos do curso de culinária
do Hotel-Escola do Senac em Natal já saem com emprego garantido. A providência
de impacto mais imediato no turismo foi a ampliação de sete aeroportos
da região. As melhorias possibilitaram o aumento do número de vôos
internacionais regulares e fretados. Os aeroportos de Salvador, Natal e Fortaleza
recebem, juntos, 105 vôos internacionais por semana provenientes da Europa,
o dobro do que recebiam em 2003. Como muitos deles são vôos diretos,
um europeu que na década passada gastava mais de doze horas para chegar
ao Nordeste, fazendo conexões em São Paulo e no Rio de Janeiro,
pode hoje decolar de Lisboa e pousar no Nordeste seis horas depois.  | SÓ
DE PASSAGEM Os turistas noruegueses Thomas e
Cathrine com a filha na Praia da Pipa |
Junte
a maior facilidade para cruzar o Atlântico aos preços baixos, para
os padrões europeus, das diárias de hotel no Brasil e tem-se os
elementos básicos para inundar a região com turistas do Velho Mundo.
"Um europeu que passa férias no Nordeste gasta menos do que gastaria por
um período igual em Mallorca, na Espanha, ou no Algarve, ao sul de Portugal",
diz Marília Cecília Bodas, diretora da Lugares no Brasil, uma imobiliária
com sede em Lisboa que vende imóveis brasileiros a europeus. Ao chegar
ao Brasil, a simples conversão de euros para reais quase triplica o poder
aquisitivo dos estrangeiros. O valor do dinheiro é um forte argumento na
hora em que um europeu decide comprar uma casa de veraneio ou recomeçar
a vida no Brasil, em geral abrindo uma pousada ou restaurante. "Aqui, posso sair
para comer todo dia em um restaurante diferente, um luxo para os padrões
da França", comenta o aposentado Xavier Huvelin, francês de 68 anos
que abriu uma pousada em Porto de Galinhas, em Pernambuco.  |
PERTO DO MAR
Condomínio de portugueses na Praia de Tibau, no Rio Grande do Norte |
Pelo
valor que pagaria por um apartamento de 100 metros quadrados em Madri, um aposentado
espanhol pode comprar duas coberturas com quatro suítes de frente para
o mar em João Pessoa, na Paraíba. "Europeus de classe média
baixa que vivem espremidos em minúsculos imóveis na periferia em
seu país ficam encantados em poder comprar casas amplas, a poucos metros
da praia, em um lugar onde há sol na maior parte do ano e onde todas as
semanas passa um pescador oferecendo lagosta a 17 reais o quilo", diz o corretor
de imóveis cearense Arnaldo Jorge Vidal, que nos últimos quatro
anos se especializou em vender casas a portugueses em Fortaleza.
 | PIONEIROS
Os portugueses Nelson e Otilia em sua casa no Ceará: aposentadoria no Brasil |
Foi a combinação de qualidade e baixo custo de vida que motivou
os portugueses Nelson Baldaia, de 64 anos, e sua mulher, Otilia, de 61, a comprar
uma casa na Praia de Águas Belas, na cidade de Cascavel, a 60 quilômetros
de Fortaleza, quatro anos atrás. Como já estavam aposentados, no
início passavam metade do ano no Brasil e metade em Portugal. "Agora que
obtivemos o visto de residência permanente, decidimos nos mudar de vez para
cá", conta Nelson. Aos poucos, os amigos que vinham visitá-los ou
que ouviam suas histórias sobre o mar limpo e quente, a areia branquinha
da praia, também começaram a adquirir casas no lugar. "Hoje estamos
rodeados de dezenas de conterrâneos amigos. Até meu médico
comprou uma residência perto da nossa", diz Nelson. Os portugueses que adquirem
imóveis no Ceará recebem em média 1.500 euros de aposentadoria
por mês. Isso equivale a perto de 8.000 reais por casal, um bom dinheiro
para os padrões do Ceará. Nos últimos três anos, o
número de portugueses morando no estado aumentou 60%.  | QUALIFICAÇÃO
Aulas de culinária no Hotel-Escola do Senac em Natal: emprego garantido para todos
os alunos |
De acordo
com a Embratur, 5,4% dos turistas estrangeiros que vêm para o Brasil ficam
em casa própria. Há cinco anos, esse número era tão
inexpressivo que nem aparecia nas estatísticas oficiais. Outros 24% vêm
para ficar hospedados com amigos ou parentes. O casal norueguês Thomas Lindgard,
de 31 anos, e Cathrine Rystad, de 28, veio pela primeira vez ao Brasil para ficar
com a filha Marianne, de 15 meses, na casa que um colega de Thomas mantém
na Praia da Pipa, no Rio Grande do Norte. "A beleza da região e a cordialidade
das pessoas foram uma boa surpresa para nós. Pretendemos voltar ao Brasil
outras vezes", diz Cathrine. A compra de imóveis por estrangeiros tem pelo
menos três efeitos benéficos no Nordeste. O primeiro é a criação
de novos empregos. Estima-se que cada estrangeiro que estabelece vínculos
na região gere, no mínimo, um novo posto de trabalho fixo. O segundo
efeito é a fidelização dos turistas. Com uma casa no Brasil,
a freqüência das visitas aumenta. A terceira vantagem é a mudança
no perfil dos turistas. "Os estrangeiros que vêm para se hospedar em um
resort de luxo ou compram casas de praia têm bom poder aquisitivo e gastam
mais", diz Nelson Freire, secretário de Turismo do Rio Grande do Norte.
A nova leva de turistas inclui famílias, recém-casados e idosos,
grupos bem diferentes das hordas de homens que procuram o Brasil para fazer turismo
sexual e, por vários motivos, é muito mais bem-vinda.  |  |
|