Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Demografia
O país dos solteirões

Devido à campanha do filho único,
um em cada seis chineses nunca
encontrará uma noiva


José Eduardo Barella

 

Claro Cortes/Reuters
Casal de namorados em Xangai: a China tem 23 milhões de jovens encalhados

Em uma população de 1,3 bilhão de habitantes, o mais difícil para um jovem chinês é encontrar uma noiva. A razão é um excesso de 23 milhões de rapazes em relação à população feminina numa idade em que, normalmente, as pessoas se casam pela primeira vez. Os solteirões chineses concentram-se na faixa dos 20 aos 30 anos. Para cada 100 moças, há 120 rapazes nesse grupo populacional. Até 2020, um em cada seis chineses jamais encontrará uma esposa. Em circunstâncias biológicas normais – sem interferências de epidemias, guerras ou políticas de controle de natalidade –, uma sociedade costuma ter uma proporção de 105 homens para cada 100 mulheres. Na China, o desequilíbrio deve-se, em primeiro lugar, à política de filho único que o governo adotou em 1979 para conter o crescimento populacional. Em segundo, à preferência cultural por herdeiros homens. Os incentivos dados aos pais que limitassem a família a apenas um filho fizeram a taxa de fertilidade, que era de seis crianças por mulher, cair para 1,7 nos últimos 25 anos. Um efeito não desejado foi o aumento brutal do infanticídio de meninas.

Na China, como em outras sociedades patriarcais, as famílias preferem filhos homens. Não existe orgulho maior para um pai chinês do que o nascimento de um bebê do sexo masculino. As filhas, em contrapartida, são consideradas um estorvo. Elas não têm a mesma força física para o trabalho braçal no campo e ainda dão prejuízo à família ao se casar – a tradição manda que os pais paguem um dote ao noivo. A prática de matar meninas recém-nascidas, tradicionalmente elevada na China, disparou a partir da década de 80. Atualmente, a taxa de mortalidade infantil de bebês femininos é o dobro da registrada entre os do sexo masculino. Nos últimos anos, com a popularização de exames de ultra-som, os pais também passaram a recorrer ao aborto quando descobrem que o feto é de uma menina. Não é, no entanto, a primeira vez que há falta de mulheres na China. Na história do país, o aumento exagerado da população masculina em certas regiões costumava estar ligado a períodos prolongados de fome. Algumas famílias, para assegurar que os demais integrantes não morressem por falta de comida, matavam as meninas logo que nasciam.

Para evitar que a próxima geração de jovens enfrente a mesma falta de mulheres verificada hoje, o governo chinês precisaria rever imediatamente a regra do filho único – mas, por enquanto, o governo de Pequim prefere deixar as coisas como estão. As conseqüências dessa superpopulação de solteirões não são nada animadoras. Demógrafos prevêem um aumento na migração de jovens do campo para as cidades em busca de uma parceira. Outra tendência é a do crescimento da prostituição e, por tabela, da disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, como a aids. Para completar, sociedades em que faltam mulheres costumam ver um crescimento das taxas de violência. Isso já vem ocorrendo em algumas áreas rurais da China. O seqüestro de mulheres é a modalidade de crime que mais cresce nessas regiões. Elas são obrigadas a se casar ou acabam sendo vendidas para a prostituição. No mercado negro, uma jovem em idade certa para ser esposa pode custar 2.000 dólares, uma pequena fortuna para os padrões chineses.

 

Goh Chai Hin/AFP
Jovens numa festa em Pequim: sem noivas

Recentemente, as autoridades chinesas decidiram oferecer uma pensão extra às famílias com filhas. A medida é insuficiente, segundo especialistas. "Se a política do filho único não for alterada, o que dificilmente deve ocorrer antes de 2010, a China será obrigada a incentivar a imigração de mulheres de outros países", disse a VEJA a cientista política americana Valerie Hudson, autora de um estudo sobre o crescimento da população masculina na China. As mulheres estão aproveitando o excesso de oferta para escolher a dedo o pretendente. Até se criou uma espécie de mercado casamenteiro informal num parque de Pequim, ao lado da Cidade Proibida. Pais e mães se reúnem semanalmente levando cartazes com fotos e dados do rebento com a esperança de arrumar uma noiva para o filho. É uma medida desesperada em um país onde, por serem pouco valorizadas, as mulheres jovens começam a se transformar em uma raridade.

 

Terror em Linyi

Funcionários públicos obrigam mulheres
a fazer abortos e esterilizações

 

Goh Chai Hin/AFP
Cartaz da campanha do filho único: multa para as famílias que têm mais de uma criança

A cidade de Linyi, na província de Shandong, no leste da China, está mergulhada no terror. Desde março passado, funcionários públicos já forçaram pelo menos 7 000 mulheres a fazer aborto ou a se submeter a cirurgias de esterilização. Os relatos impressionam pela violência. Um deles narra a história de uma mulher que, no nono mês de gestação, foi rendida dentro de sua própria casa. Agentes do governo aplicaram-lhe uma injeção no ventre e dez horas depois ela deu à luz uma menina – morta. Nas famílias com mais de um filho, muitas mulheres simplesmente foram arrastadas às clínicas de esterilização. Parentes que resistiram à medida foram ameaçados, presos ou torturados. Essas atrocidades são reflexo da rígida política de controle de natalidade que vigora no país há mais de vinte anos. Os funcionários das províncias que registram as menores taxas de nascimento ao longo de um ano são promovidos e recebem benefícios extras. Em 2004, como Linyi foi a recordista de nascimentos em toda Shandong, os servidores partiram para a solução da força, a fim de cumprir suas "metas".

O porta-voz da Comissão Nacional de Planejamento Populacional e Familiar da China, Yu Xuejon, reconhece os crimes cometidos pelos funcionários de Linyi e promete punição. "Como, no entanto, o objetivo primordial dessas ações é conter o crescimento populacional, duvido que alguém seja realmente punido", disse a VEJA Teng Biao, professor de ciência política e direito da Universidade da China, que acompanha o caso de perto. Até agora, a única condenação é a de Chen Guangcheng. Aos 34 anos, cego, ele foi o primeiro a denunciar, em agosto último, as perseguições ocorridas em Linyi. Em represália, foi colocado atrás das grades. Hoje, Guangcheng está em prisão domiciliar – sem telefone e sem computador.

Na China, o aborto é legal e, em algumas regiões, até incentivado, como forma de conter o avanço demográfico. Em 1949, ano da criação da República Popular da China, o país contava com 540 milhões de habitantes. Vinte anos mais tarde, chegava a 800 milhões de pessoas. Entre o fim da década de 70 e o início dos anos 80, a população do país chegou a 1 bilhão. Como forma de conter esse aumento, o governo implementou um rígido programa de controle de natalidade. Sob pena de multas pesadas e outras sanções, os chineses foram proibidos de ter mais de um filho. Exceção feita aos pais de meninas, moradores de áreas rurais, e àqueles casais que geraram crianças com deficiências físicas. Ainda assim, a China conta hoje com 1,3 bilhão de habitantes.

Giuliana Bergamo

 
 
 
 
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