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Entrevista: Eduardo
Giannetti Miopia coletiva O
economista diz que a impaciência torna
a sociedade brasileira incapaz de enxergar os desafios do futuro  Marcio
Aith
Fabiano Accorsi
 | "O
Brasil é um país com a vocação do crescimento, mas
sem a vocação da espera" | |
Qual é a relação entre contrair um empréstimo e o
dilema de devorar uma sobremesa calórica? O que têm em comum as atividades
do Banco Central e a decisão de consumir drogas? O economista Eduardo Giannetti
da Fonseca enxerga em todos esses dilemas a lógica dos juros. Segundo ele,
ao comer a sobremesa, desfruta-se o momento e pagam-se os juros depois, na forma
de exercícios físicos. Para desfrutar alguns momentos de prazer
extático, o drogado muitas vezes sacrifica seu patrimônio cerebral
futuro. Torna-se agiota de si mesmo. Professor do Ibmec São Paulo, Giannetti
acaba de lançar O Valor do Amanhã, uma das mais valiosas
e legíveis obras já escritas sobre um assunto tão complexo
e aparentemente árido como os juros. Sua tese central, exposta na entrevista
que se segue, é a de que o mecanismo dos juros encontra similar na vida
cotidiana das pessoas, na crença religiosa e até no metabolismo
humano. A mesma lógica define o comportamento dos indivíduos e das
sociedades. As que atribuem valor exagerado ao presente sujeitam-se a juros elevados.
As que se preocupam demais com o futuro deixam passar boas oportunidades de investir
e desfrutar o presente. Integrante do primeiro grupo de países, o Brasil
padeceria do que Giannetti apelidou de miopia temporal uma anomalia, alimentada
pela impaciência, que leva o país a subestimar os desafios ambientais
e sociais e a tentar resolver tudo a carimbadas e canetadas.
Veja Como o senhor concluiu que o pagamento
de juros não se restringe ao mundo das finanças? Giannetti
As leis da economia descrevem muito bem o que ocorre na natureza. Não
foi à toa que Charles Darwin, como ele próprio relata, vislumbrou
a teoria da evolução lendo o economista Thomas Malthus. A luta para
manter-se vivo e se reproduzir é uma forma de economia, e todos os seres
vivos, inclusive os vegetais, precisam de algum modo decidir entre usar recursos
agora e poupá-los para o futuro. As folhas das árvores captam renda
solar para formar um estoque de energia que produzirá frutos e sementes
na estação propícia. Toda vez que se abre mão de algo
no presente em prol de um benefício futuro (ou vice-versa) está
implícita a ocorrência de juros. Veja
Como se dão o acúmulo de poupança e o pagamento
de juros no mundo biológico? Giannetti Em várias
situações. Toda vez que comemos em demasia, nosso organismo cria
uma poupança automática na forma de gordura. Pode não parecer
correto para quem quer emagrecer, mas, evolucionariamente, faz muito sentido.
A existência dessa poupança na forma de gordura permite a um animal
fazer um consumo pontual concentrado de energia sem precisar parar a fim de alimentar-se.
Daí que o exercício físico "queima" gordura. Mas essa poupança
tem custos. Você perde agilidade, perde mobilidade e precisa mantê-la
apta para consumo. Mas traz benefícios. Serve de reserva para situações
de atividade intensa e permite que um animal mantenha o nível calórico
por algum tempo, mesmo que esteja atravessando um período de "vacas magras".
É o que, em economia, chamamos de poupança precaucionária.
Veja E os juros? Giannetti
Os juros são a relação entre os custos e os benefícios
no tempo. Se os benefícios compensam os custos, então os juros valem
a pena. Quando acaba a gordura e a fome se torna desesperada, o organismo não
tem outro recurso senão recorrer a um emprestador em última instância
na prática, um "agiota". Na falta de comida, o corpo passa então
a consumir os próprios músculos, pagando na prática juros
exorbitantes pelo benefício de manter-se vivo. Por que o preço é
exorbitante? Porque uma parte desses músculos consumidos não vai
mais se reconstituir no futuro. É como queimar a mobília da casa
para não morrer de frio. Consome-se patrimônio para sobreviver mais
um dia. O imperativo de manter-se vivo impõe um custo exorbitante no futuro.
Veja Mas nesses casos, ao contrário
do que ocorre no mundo das finanças, não há escolha. O mecanismo
é automático. Giannetti O comportamento humano
se diferencia pela liberdade de escolha. Quando lhe é oferecido um doce
de sobremesa, o ser humano adulto pondera: será que o prazer de desfrutá-lo
agora compensa as calorias adicionais que vou ingerir e, eventualmente, o exercício
físico que vou ter de fazer para queimá-las e evitar a obesidade?
Se o prazer do momento, ou seja, a decisão de comer o doce prevalece, a
conta de juros da escolha vem depois é a gordura indesejada. Mas,
se eu opto pelo regime, então fico na posição credora, ou
seja, o meu sacrifício de abrir mão do doce renderá juros
mais à frente, na forma de um corpo esbelto e mais saúde.
Veja Às vezes é
mais racional privilegiar o momento, desfrutar o aqui e agora e esquecer a posteridade,
não? Giannetti Depende das circunstâncias. Para
alguém que esteja em situação de muita carência, por
exemplo, não há prêmio futuro que justifique um sacrifício
agora. Se você está passando fome, não há promessa
de banquete regado a vinho mas disponível só daqui a um mês
que justifique abrir mão de um prato de arroz já. Algum grau de
impaciência faz parte da lógica da vida. Há situações
na vida em que, se você perder a chance de agir, não haverá
outra vez. Outra questão é a oportunidade. Se você tiver segurança
de que receberá um prêmio alto no futuro, e se você puder de
fato esperar até lá, então vale a pena fazer um sacrifício
agora para alcançar esse benefício. Mas, se os juros não
pagam o sacrifício, então o melhor a fazer é desfrutar o
momento. Carpe diem ("aproveite o dia"), como propõe o poeta latino
Horácio. Veja
Ou seja, essas decisões estão sujeitas a variáveis?
Giannetti São muitas as variáveis. O ciclo de vida,
por exemplo, afeta muito a psicologia temporal. Experimentos mostram que uma criança
de 4 anos não consegue esperar vinte minutos para ganhar o dobro do confeito
de que ela mais gosta. Aos 12 anos, logo antes da puberdade, 60% das crianças
já agüentam esperar os vinte minutos para ganhar o dobro do confeito,
ou seja, 100% de juro real. Isso mostra que é dos 4 aos 12 anos que se
forma, no ser humano, o equipamento cerebral e mental necessário para exercitar
a arte da escolha no tempo. O modo de vida da sociedade também conta muito.
Numa aldeia indígena pré-agrícola tudo conspira para que
se viva intensamente o presente quase absoluto. Veja
Como explicar que algumas culturas, como a egípcia, a asteca
e a inca, tenham erguido custosas e complexas estruturas pensando no futuro?
Giannetti As magníficas ruínas das antigas civilizações
do México, dos Andes e do Egito realmente mostram que elas eram capazes
de transferir vastas quantidades de trabalho e recursos do presente para o futuro.
Só que o objetivo em nome do qual isso era feito não era a geração
de excedentes econômicos cada vez maiores, mas a obtenção
dos juros infinitos da bem-aventurança eterna, após a morte, por
meio de dádivas e súplicas de pedra dirigidas aos seus deuses.
Veja Os índios brasileiros
não fizeram o mesmo. Por quê? Giannetti A natureza
era tão generosa que eles talvez não tenham sido estimulados a desenvolver
o hábito mental da espera. Nem precisavam, pois viviam basicamente da caça
e da coleta. Ao relatar a viagem que fez com índios guaranis a Paris no
século XIX, o naturalista francês Saint-Hilaire informou ter explicado
a eles que era desejável guardar coisas para o amanhã. E eles perguntavam
"O que é o amanhã?", como se não entendessem o significado
da palavra. Algo similar ocorreu com os jesuítas que queriam acostumar
os índios à disciplina do trabalho agrícola, para o qual
jamais haviam sido treinados. Uma das maiores dificuldades era precisamente impedir
que eles consumissem, às vezes até mesmo antes da colheita, as espigas
e sementes que deveriam ser guardadas para o plantio da safra seguinte.
Veja Quais são as distorções
mais comuns no raciocínio dos seres humanos com relação a
esse dilema? Giannetti Usando o sentido da visão como
analogia, creio que existem duas anomalias básicas. Na miopia temporal,
a pessoa vê com muita intensidade aquilo que está próximo,
mas não consegue ter a mesma clareza em relação aos seus
interesses futuros. A outra é a hipermetropia, quando se divisa com muita
intensidade aquilo que está longe, no futuro, mas acaba-se sacrificando
em demasia o presente. Suspeito que, no Brasil, a anomalia predominante seja a
miopia temporal. Já nos países asiáticos, como o Japão,
haveria o caso oposto. É só lembrar como foi difícil para
o governo japonês, por muito tempo, convencer as pessoas a gastar. Elas
só queriam poupar. Com isso, atrapalhavam a recuperação econômica.
Veja Onde se manifesta essa miopia
dos brasileiros? Giannetti Os exemplos são muitos.
Veja o caso da nossa incapacidade secular em construir um ensino fundamental de
qualidade na verdade, uma incapacidade de cuidar do amanhã. Os políticos
no Brasil repetidamente tomam iniciativas vistosas no campo da educação:
o Leonel Brizola fez o Ciep, o Fernando Collor fez o Ciac e a Marta Suplicy fez
o CEU. Parece algo maravilhoso, mas e a consistência no tempo? Não
há projeto pedagógico, não há recursos para financiar
qualidade de ensino, não há cobrança de resultados nem o
empenho em tornar isso uma realidade efetiva ao longo do tempo. Na Previdência,
temos um sistema completamente desestruturado. Na relação com a
natureza, estamos consumindo nosso patrimônio ambiental num ritmo absolutamente
desastroso. Veja Os brasileiros
também são míopes quando tratam deles próprios? Giannetti
Em muitos casos, sim. Um ex-presidente da empresa alemã Bosch
faz uma observação curiosa. O Brasil, ele diz, é o único
lugar do mundo onde a pessoa pensa no som do carro antes de pensar no seguro.
A classe média também se comporta de forma curiosa. Existe um contingente
grande de brasileiros com dinheiro aplicado em algum instrumento de poupança
ou de renda fixa e que, ao mesmo tempo, têm dívidas no crédito
pessoal ou no cheque especial. Os juros que recebem pelo dinheiro aplicado são
muito menores do que os juros que pagam nas dívidas que têm. Se rasgassem
dinheiro estariam fazendo exatamente a mesma coisa. Veja
Cite um exemplo de sociedade que conseguiu amadurecer sua capacidade
de tomar decisões racionais com relação ao futuro. Giannetti
Em 1905, a economia da Coréia tinha algumas semelhanças
com a do Brasil de hoje. Taxas de juros mensais de 2% a 5% em empréstimos,
leis que impediam a cobrança de dívidas, corrupção
generalizada e um sistema educacional falho. Dando o exemplo histórico,
conseguiu mudar radicalmente esse quadro. Hoje, consegue transferir recursos para
o futuro de uma maneira notável, em alguns casos talvez até pecando
pelo excesso. Veja O Brasil tem
os juros mais altos do mundo. Há quem acredite que a economia não
teria problemas e floresceria se os juros fossem reduzidos a canetadas. Giannetti
Machado de Assis tem um conto chamado O Empréstimo, em
que ele descreve um personagem com a vocação da riqueza mas sem
a vocação do trabalho. A resultante são dívidas. Eu
adapto isso para o Brasil: um país com a vocação do crescimento
mas sem a vocação da espera. Quando tenta fazer as duas coisas ao
mesmo tempo, ou seja, crescer sem poupar, a resultante é inflação
ou crise de balanço de pagamentos. Para manter o sistema em razoável
equilíbrio, evitando inflação ou abuso da poupança
externa, tem de praticar juros primários muito elevados. É como
um carro que precisa andar com o freio de mão puxado. Se soltar, desembesta.
Veja Como baixar esse freio
de mão? Giannetti Há duas opiniões básicas
nessa controvérsia: ou os juros altos são a causa dos nossos problemas,
ou os juros altos são sintoma de desequilíbrios que nós precisamos
resolver. Eu me incluo no segundo grupo. Imagine que o Banco Central passe a praticar
juros primários muito mais baixos do que esses dos últimos quinze
anos. O que vai acontecer? A demanda vai começar a aumentar no Brasil.
Só que a capacidade de nossa economia para atender esse crescimento de
consumo e investimento é limitada. Chegará um momento em que, se
a demanda continuar crescendo, não vai ter produção, não
vai ter oferta agregada no Brasil para atendê-la. Aí podem acontecer
duas coisas: ou começa a inflação, ou então passamos
a usar a poupança externa, do resto do mundo, para financiar nossos gastos
de consumo e investimento. Veja
Qual é o impacto que a atual crise política terá
na capacidade futura de julgamento eleitoral dos brasileiros? Giannetti
Acho que diminuiu o maniqueísmo, diminuiu a arrogância.
A crise política pode ajudar o país a enfrentar os verdadeiros problemas,
na medida em que põe por terra muitas ilusões herdadas do passado
quanto à facilidade de mudança. As três grandes forças
de oposição gestadas no Brasil durante o regime militar foram testadas
na seqüência natural: primeiro o PMDB do Ulysses e do Sarney; depois
nós tivemos uma carta fora do baralho, que foi o Collor, rapidamente expelida;
depois tivemos o PSDB do Fernando Henrique Cardoso, com dois mandatos; por fim,
a última grande força de oposição da época
do regime militar, que eram o Lula e o PT, teve a sua chance. Significa que não
sobrou nenhuma força de oposição relevante, daquela época,
que não tenha sido experimentada pelo eleitor. Fechamos um ciclo.
Veja Qual foi o saldo desse
ciclo? Giannetti Cada um desses grupos se apresentou à
sociedade dizendo: basta nós estarmos lá, porque somos bons e somos
justos, que as coisas se resolverão. O padrão de desigualdade social
no Brasil não mudou e o crescimento sustentado não foi alcançado.
O governo Lula não foi diferente. |