Edição 1930 . 9 de novembro de 2005

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Carta ao leitor
O acaso, a estupidez
e os dólares cubanos

 

Páginas da reportagem e a capa de VEJA da semana passada

Na semana passada, a reportagem de VEJA sobre os dólares de Cuba na campanha de Lula provocou reações exaltadas dos petistas e de simpatizantes do regime ditatorial da ilha caribenha. A história publicada pela revista foi definida por alguns como "fantasiosa" e "inverossímil". O presidente do PT ameaçou processar VEJA por calúnia e difamação. Estranho que os dirigentes petistas indignados com a reportagem tenham se eximido de atacar as pessoas que narraram a história em detalhes, Rogério Buratti e Vladimir Poleto, ambos íntimos do núcleo de políticos que levou Lula ao Planalto. Mas, ao atacarem VEJA por dar-lhes voz, tentaram ferir o mensageiro quando a mensagem é que lhes foi ruinosa.

O acaso e a estupidez podem produzir eventos capazes de mudar a história do mundo, como mostrou o historiador Erik Durschmied no livro Fora de Controle. A idéia de transportar dólares cubanos em caixas de bebida pode ter sido um desses eventos grotescos, às vezes até cômicos, mas que acabam tomando os contornos de tragédia. A apuração de VEJA continua. Na semana passada, o repórter Marcelo Carneiro conversou com o piloto que transportou Vladimir Poleto e suas preciosas caixas de Brasília até Campinas. A combinação dos relatos de Buratti e Poleto com as apurações em campo leva a história da ajuda financeira estrangeira à campanha de Lula muito além do limite das "dúvidas razoáveis". Isso fez dela objeto jornalístico de óbvio interesse.

Ela vai avançar ainda mais? Os repórteres da revista vão continuar apurando o assunto. Esse é o papel de VEJA. A imprensa, porém, não tem função e muito menos poder de polícia ou de promotoria, muito menos de Justiça – a quem cabe produzir as provas aceitas em tribunais, julgar e, eventualmente, punir os culpados. Esse processo já está em curso nas CPIs e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Quando eles terminarem seu trabalho se saberá com certeza se mais uma vez a estupidez e o acaso mudaram o curso da história.

 
 
 
 
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