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Amor em dois tempos

Em Possessão, os anos passam
e a repressão fica – ou piora

Isabela Boscov

 
Divulgação

Jennifer e Northam, como os poetas vitorianos: romantismo declarado



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O americano Neil LaBute é um tipo peculiar. Para começar, é o único cineasta mórmon de projeção. Ele é conhecido também pela crueldade e pelo cinismo de filmes como Na Companhia de Homens, sobre dois amigos que arruínam por prazer a vida de uma moça surda. De um tempo para cá, contudo, o diretor deu para revelar seu lado róseo – embora não menos crítico. O primeiro sintoma dessa mudança foi A Enfermeira Betty, sobre um assassino que se apaixona ternamente por uma vítima potencial. LaBute prossegue agora com Possessão (Possession, Estados Unidos, 2002), a adaptação do celebrado romance homônimo da inglesa A.S. Byatt, que estréia na sexta-feira 11 no país. O enredo é radicalmente literário: um estudioso encontra indícios de uma ligação amorosa entre dois poetas vitorianos que, para todos os efeitos, nem se conheciam. Leva suas suspeitas para outra pesquisadora e, juntos, eles embarcam numa complexa descoberta. A ironia é que, enquanto o resguardado casal do século XIX (no filme, Jeremy Northam e Jennifer Ehle) vai às vias de fato, a dupla contemporânea (Gwyneth Paltrow e Aaron Eckhart) se consome entre a atração e a repressão.

LaBute foi criticado por ter transformado o personagem do pesquisador, um inglês de classe baixa, num americano. Mas só louco um estrangeiro se proporia a entender e a reproduzir com alguma acuidade as infinitas nuances do sistema de classes britânico. LaBute, além disso, funciona melhor quando tem um alter ego na tela, função em que Eckhart cai muito bem. Possessão tem altos e baixos, mas sua vibração e seu romantismo declarado – bem menos ansioso que o do livro – superam seus defeitos. O "novo" LaBute pode ser estranho, mas é ainda mais interessante que em sua encarnação cínica.

   
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