| Fale conosco |
| Ajuda |
| Mapa do site |
![]() |
|
|
Crie seu grupo |
A volta que o mundo deu
André
Petry
Desde que os gregos antigos começaram a experimentar o que viria a se chamar "democracia", qualquer candidato, em qualquer eleição do mundo, promete mais saúde e educação, mais emprego e salário, mais liberdade e direitos. Na eleição presidencial deste ano, porém, o Brasil vive uma simetria mais aguda nunca antes, desde que o país voltou ao regime democrático em 1985, os presidenciáveis apresentaram programas e propostas tão semelhantes. Entre os quatro principais candidatos, ninguém sataniza as privatizações, como as agremiações de esquerda fizeram em 1991, tratando a pontapés os executivos que chegavam para assistir à privatização da Usiminas, no Rio de Janeiro. Nenhum dos candidatos se refere ao Fundo Monetário Internacional como eixo do mal, ao contrário do que ocorreu em pleitos anteriores. Todos defendem a estabilidade monetária, o câmbio flutuante, a redução das taxas de juro, as reformas tributária e trabalhista, a disciplina fiscal, o aumento exponencial das exportações. Até as fórmulas para chegar lá são parecidas. Conclui-se que uma semelhança como essa só pode ser produzida ou por lance de marketing ou por adaptação a exigências incontornáveis do mundo atual. As duas coisas influenciaram esta eleição presidencial. A força externa que leva os principais candidatos a ter programas semelhantes decorre de uma confluência histórica. No fim da década de 80, a queda do Muro de Berlim e, mais tarde, o desmonte da velha União Soviética deixaram os partidos de esquerda na condição de órfãos de bússola e de identidade. De lá para cá, a maioria dos partidos comunistas fechou as portas e arriou suas bandeiras clássicas, enquanto partidos de orientação socialista ficaram cada vez mais parecidos com a social-democracia, para ter a chance de chegar ao poder. Simultaneamente, sob a liderança dos Estados Unidos, começou a agigantar-se a supremacia liberal, devido à própria ausência do adversário histórico que sucumbira. Isso, por si só, aproximou os extremos e neutralizou parte das diferenças do ideário de esquerda e de direita. No Brasil, o antigo Partido Comunista Brasileiro transformou-se no PPS de Ciro Gomes. No PT de Luís Inácio Lula da Silva, as correntes menos radicais começaram a trocar o viés socialista por um tom social-democrata. O vocabulário semelhante dos presidenciáveis brasileiros, porém, não decorre apenas do desmanche da esquerda e da hegemonia liberal. No Brasil, outro fator ajudou a limar as diferenças de ideologia a herança do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Tanto na coluna do crédito quanto na do débito, seu governo produziu transformações tão impactantes que nenhum candidato, mesmo de oposição, dispõe de margem de manobra para virar o leme em busca de outros ventos. No campo econômico, o Brasil depende desesperadamente de algo em torno de 30 bilhões de dólares todos os anos para fazer frente a seus compromissos e não há como fugir disso, pelo menos a curto prazo. Diante de amarra tão forte, é inescapável que a receita dos candidatos para tirar o país do sufoco seja semelhante: o Brasil precisa poupar, aumentar as exportações e, só depois disso, poderá pensar em reduzir os juros. Também precisa reconquistar a confiança do investidor externo e qualquer receita muito diferente da clássica tende a espantá-lo. É mais uma razão para o discurso homogêneo. Não se espera que o próximo governo repita no mesmo teor a receita liberal da gestão do presidente Fernando Henrique e do ministro Pedro Malan. A começar pelo candidato tucano José Serra, todos os concorrentes avisam que, se eleitos, reforçarão a intervenção do Estado na economia. Lula, que em eleições anteriores sempre relembrava o inferno representado pela ditadura militar, desta vez está elogiando o planejamento estratégico e o crescimento econômico obtido pelos generais presidentes. Eis aí uma mensagem clara: Lula quer mais Estado na gerência da vida nacional. Mas até certo ponto. Como os outros presidenciáveis, ele tem deixado claro que não pretende inventar nada capaz de colocar em risco a estabilidade econômica, que já vem sendo mantida de forma precária em crises sucessivas do governo FHC. O medo aqui tem um efeito positivo. Para chegar à convergência de idéias, cada candidato teve de desafiar contradições internas. Lula é o caso mais notável. Sua formação política deu-se no ambiente sindical sob a ditadura militar, ele fundou um partido de cunho socialista, bradou por anos uma cartilha na qual se pregava a revolução socialista e hoje está aí, na forma "Lulinha paz e amor", como ele próprio se autodefiniu, aplaudindo platéias formadas de industriais, banqueiros, empresários e latifundiários e sendo aplaudido por elas. Numa eleição, todo candidato faz isso, às vezes sacrificando algumas convicções. Embora em menor grau, José Serra, que começou sua carreira política como militante de uma organização de esquerda, também aplicou um polimento em seu discurso para lixar as arestas com a administração liberal implantada nos últimos oito anos no Brasil. Serra é candidato de um governo cujas ações, em muitos aspectos, provocaram sua oposição. Fala com insistência em criar uma política industrial proposta que o governo Fernando Henrique jamais levou em conta. Durante a campanha, evitou fazer a defesa do governo FHC. Preferiu transferir o debate para a área da saúde, da qual foi ministro, e para aquilo que chamou de "o futuro" ou "o meu governo". Serra acredita que o Estado deve exercer o papel de um indutor do desenvolvimento, visão que não foi cortejada nos dois mandatos de FHC. Ciro Gomes atravessa o mesmo processo. Candidato do PPS, legenda de origem esquerdista, calibra a agressividade de seu discurso conforme o traço das pesquisas e, embora se apresente como antiliberal, convocou o ultraliberal José Alexandre Scheinkman para ajudá-lo na campanha. Essa aparente ambigüidade acompanha toda a carreira política de Ciro. Em seu primeiro mandato como deputado estadual no Ceará, em 1982, concorreu pelo antigo PDS, sucessor do partido que dava sustentação política à ditadura militar, e no entanto se elegeu fazendo um discurso virulento contra "as elites cearenses". Hoje, ele mantém sua artilharia verbal contra as elites, contra o capital especulativo e contra as imposições do mercado mas permanece com Scheinkman numa tentativa de tranqüilizar as elites, o capital e o mercado. São recados que os candidatos procuram passar a setores da sociedade. Podem ser confundidos com demagogia e gerar desconfiança. Em relação ao PT, o sentimento de desconfiança ainda é forte em alguns setores, para os quais sua moderação não seria autêntica, mas decorrência de circunstâncias eleitorais. Parte dessa desconfiança se explica pela gênese da mudança do PT. Os partidos socialistas na França e na Espanha, até mesmo o trabalhismo inglês, fizeram claras revisões de seus fundamentos doutrinários, perderam lideranças importantes e firmaram, assim, compromisso explícito com mudanças. O PT, não. Seu programa se ameniza com o tempo, mas nunca houve ruptura clara com o passado, e seus líderes são hoje praticamente os mesmos de dez ou quinze anos atrás. O depuramento do PT, que incluiu a exclusão de algumas correntes radicais de esquerda, não provocou perda de figuras exponenciais. Talvez por isso ninguém se espante com o fato de Ciro concorrer pelo PPS, sucessor do Partido Comunista Brasileiro. É que a mudança do PCB para o atual PPS incluiu uma revisão doutrinária claríssima, a começar pela troca do nome da legenda o mesmo processo que sepultou o Partido Comunista Italiano. A afinidade entre os candidatos chegou a um grau inédito, mas está longe de ser perfeita. Os programas de governo de cada presidenciável fazem diagnósticos semelhantes, apontam soluções parecidas, mas ainda assim revelam visões distintas de mundo e de Estado. Lula, em sua proposta, deixa transparecer que pensa no Estado como uma entidade forte, pedagógica e, sobretudo, provedora do bem-estar social. Nas entrelinhas, percebe-se que seu programa faz uma distinção entre "democracia burguesa" e "democracia popular", dando a entender que em seu governo o país tentaria transitar da primeira para a segunda, mas toma o cuidado de jamais empregar essas expressões carregadas de ideologia. Serra é a promessa da continuidade do governo atual. Em seu programa de governo, fala bastante em "aprimorar", "consolidar", "avançar", "ampliar" ou "agilizar" programas e raramente em "criar". Mas acha que o Estado deve agir como mola propulsora do desenvolvimento econômico, dando liberdade de ação à iniciativa privada e mantendo os olhos postos sobre tudo o que se passa no campo econômico. Os programas de Ciro Gomes e Anthony Garotinho, candidato do PSB, promovem certa mistura entre essas duas visões, o que até empresta alguma riqueza de enfoque às propostas, mas retira-lhes clareza e coerência. Até um pouco da personalidade dos candidatos aparece nos programas. Lula faz um longo diagnóstico, mas sempre panorâmico, sem dar números nem porcentuais, sem fixar metas nem prazos. É um documento político, não uma plataforma de trabalho. Serra assenta todas as propostas no binômio "crescimento econômico e redução dos juros" e é detalhista. Diz que vai ampliar o metrô de sete capitais não seis ou oito. Que investirá em três ferrovias, mas só poderá concluir duas. Que o prazo de liberação de benefícios da Previdência Social vai ser reduzido "de dezesseis para cinco dias". O programa de Ciro oscila entre o detalhismo de Serra e as generalidades de Lula e dá a impressão de que foi redigido às pressas ao apresentar propostas de forma abrupta, como estatização das fábricas de armas, fim do vestibular, revogação de mandatos por recall do eleitor tudo sem maiores explicações. As idéias e os programas dos candidatos também ajudam a entender uma parte de suas alianças. Empenhado em ganhar as eleições, Lula fez todos os acordos eleitorais possíveis, para desconforto de correntes mais à esquerda, sob a batuta pragmática do presidente do partido, deputado José Dirceu. Está com o Partido Liberal (PL), tem um vice saído do empresariado, fez aliança branca com o ex-inimigo Orestes Quércia e recebe o apoio festivo do ex-presidente José Sarney. Preocupado com a governabilidade, Lula pensa até, caso eleito, em formar um conselho de ex-presidentes, reunindo Sarney, Itamar Franco, que também o apóia, e Fernando Henrique, que, caso não tenha seu candidato no segundo turno, pode vir a votar em Lula. À primeira vista, o petista parece respaldar-se numa base tão heterogênea quanto a de Ciro, mas é uma impressão falsa. Lula tem feito alianças eleitorais, não contratos de governo destinados a entregar sua administração à influência de um Sarney ou um Quércia, e, sobretudo, é candidato de um partido com história, força e estrutura avesso a entregar a rapadura se chegar lá. É um caso semelhante ao de Serra, que também se apóia num partido com eixo, isolou o PFL de sua aliança, e só não agregou os apoios que não conseguiu. Chegou até a sondar Orestes Quércia, figura cujo comportamento ético levou os tucanos a abandonar o PMDB e fundar o PSDB. Ciro Gomes, ao contrário, tem apoios avulsos, aliados movidos pelos mais diversos interesses. Além disso, não dispõe de um partido forte, capaz de lhe entregar a bússola na mão se chegar ao Palácio do Planalto. Nem Ciro demonstra grande afinidade com a doutrina do seu PPS, tendo protagonizado divergências políticas em público com o presidente do partido, deputado Roberto Freire. Com isso, acabou por formar uma coligação, batizada de Frente Trabalhista, que foi definida pelo jornalista Luiz Weis, em artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, como sendo a reunião de "caudilhos frustrados, oligarcas vingativos, teóricos do 'experimentalismo construtivo', colloridos velhos de guerra e ex-comunistas que se esqueceram do ditado espanhol 'cria corvos e eles te arrancarão os olhos'". Ainda que acompanhado por aliados tão diferentes como Leonel Brizola e Antonio Carlos Magalhães, ex-comunistas e os colloridos do PTB, além do ex-governador cearense Tasso Jereissati, Ciro teria dificuldade de arregimentar uma base de sustentação estável no Congresso. Lula e Serra também enfrentariam esse desafio, mas em menor grau, até mesmo porque uma união de forças entre os dois a partir do ano que vem não deve ser descartada. Nenhum dos presidenciáveis teria a mesma facilidade de FHC nesse terreno. Deslocada do campo ideológico e semelhante no plano das propostas, a campanha presidencial tomou um rumo quase inevitável: centrou as atenções nos atributos pessoais de cada candidato. A abrupta queda de Ciro nas pesquisas, quando ainda faltava um mês para a eleição, é resultado disso. A artilharia tucana não criticou as propostas de Ciro, mas tentou apresentá-lo como um político destemperado, grosseiro e dado a mentirolas. Ciro rebateu apontando que Serra é o homem da intriga, da destruição, da plantação de notinhas em jornais, mesquinho a ponto de grampear adversários. "É o dragão da maldade", diz. Não se trata de uma discussão tola. Como o debate ideológico esmaeceu, a sociedade cobra dos candidatos a capacidade pessoal de segurar o leme do país, mesmo porque sabe, intuitivamente, que um país não é governado por programas, mas por pessoas. Nessa disputa, Serra tenta mostrar que tem preparo intelectual e é portador de uma grande vontade política de fazer. Ciro, que é corajoso e não se acovarda diante de desafios. Lula, que está maduro e cercado de gente experiente. Pelas frestas da propaganda eleitoral, e conhecendo-se a trajetória de cada candidato, percebe-se que a imagem que projetam ao eleitorado tem os exageros típicos da publicidade, mas também tem conexões com a realidade. Serra, por exemplo, encarna a racionalidade política, trabalha com rigor de engenheiro nos seus cálculos políticos e nas suas propostas de governo, como quem pretende chegar à mente dos eleitores. Ciro dá a impressão de que transita com mais facilidade no terreno da emoção, atuando para ir ao coração do eleitor. Talvez não seja por acaso que seu principal ideólogo até ontem, o professor Mangabeira Unger, teorize sobre a política como quem fala sobre a paixão, e que dois aliados da primeira hora, ACM e Brizola, sejam particularmente hábeis no campo do fascínio emocional. Garotinho é o grande comunicador. Fez carreira no rádio e tem talento para falar a linguagem do povo. Trata daquilo que interessa ao eleitor. É impossível flagrá-lo num discurso cheio de palavras eruditas, como acontece com Ciro Gomes, ou numa exposição tediosamente técnica, gênero em que José Serra é campeão. A personalidade
de um presidente, em especial nestes tempos de discursos parecidos, é
relevante nos destinos de um país. A criação de um
clima de civilidade política no qual o Brasil vive hoje se deve,
em boa parte, à bonomia e à tolerância do presidente
Fernando Henrique, atributos que nem o mais cego dos adversários
lhe nega. Com isso, FHC criou uma base de apoio político altamente
heterogênea em 1994 e ainda conseguiu ampliá-la em 1998.
Com sua personalidade cordata e avessa a conflitos, FHC fez da reflexão
e da paciência uma característica de sua gestão, mais
ou menos como agiram, cada um em seu tempo, os ex-presidentes Getúlio
Vargas e Juscelino Kubitschek. O modo de ser e agir também lhe
deu o perfeito entendimento de que sua autoridade perante o Congresso,
sua capacidade de seduzir seus pares, não adveio apenas do fato
de ter-se consagrado vencedor nas urnas por duas vezes mas foi,
sobretudo, resultante do seu estilo democrático e negociador. Portanto,
quando a campanha trata de revelar virtudes e defeitos pessoais da cada
candidato, está prestando um valioso serviço ao eleitor.
{chapeu} |
|
|