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Com
fé em Deus
e em si mesmo
Marcelo Carneiro
Oscar Cabral
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DESCANSO
O candidato, em um dos poucos momentos de folga durante a
campanha: afagos na cadela "Laila" |

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Centralizador,
impulsivo, voluntarioso, obcecado por resultados. Para Anthony Garotinho,
o governo é um permanente exercício do poder, que não
deve ser repartido. Prefeito duas vezes da cidade de Campos, no interior
do Rio de Janeiro, e ex-governador do Estado, o candidato do PSB à
Presidência é descrito tanto por colaboradores quanto
por ex-aliados, hoje desafetos como um político habituado
a decidir quase solitariamente, apesar de aparentar o gosto por ouvir
opiniões alheias. No governo do Rio, uma cena tornou-se freqüente.
Diante de algum problema mais grave, convocava uma reunião com
todo o secretariado e os principais colaboradores. Não se importava
em discutir publicamente situações delicadas, como uma crise
na área de segurança pública ou denúncias
contra um integrante de seu governo. Pedia a opinião de cada um
e, após um breve discurso, anunciava sua decisão. Não
raro, adotando uma atitude radicalmente diferente de tudo o que lhe tinha
sido sugerido pelos interlocutores.
Em momentos de maior incerteza política, Garotinho prefere ouvir
a voz da opinião pública a seguir os conselhos de assessores,
mesmo os mais próximos. Seu termômetro preferencial são
os jornais, lidos sempre às 6 horas da manhã, e os programas
diários de rádio, especialmente os voltados para as classes
C, D e E. Não se trata de um traço incomum num político
todo governante gosta de aferir o acerto de suas decisões.
Mas em Garotinho essa característica, mais que um estilo de governo,
é parte de sua biografia e de sua personalidade. Um dos quatro
filhos de uma família de classe média baixa formada por
imigrantes portugueses, italianos e libaneses, cresceu em Campos, ouvindo
jogos de futebol e corridas de cavalo transmitidos pelo rádio.
Sem formação superior, tornou-se radialista aos 15 anos,
criando fama com programas de cunho assistencialista. Vem daí o
viés populista, que resistiu incólume à passagem
pelo Partido Comunista Brasileiro e pelo PT. Ele não abre mão
de balizar suas decisões pelo impacto que elas poderão ter
na população, especialmente entre os mais pobres.
Tem sido assim desde 1988, quando venceu sua primeira eleição
para a prefeitura de Campos, a principal cidade do norte fluminense. Nessa
época, já encomendava a assessores pesquisas de opinião,
para saber como direcionar sua campanha. Conseguiu uma vitória
histórica no município, derrotando uma oligarquia de usineiros
que comandava a cidade havia décadas. No governo, usou a experiência
como comunicador seu slogan no rádio era "Garotinho, o amigo
da dona-de-casa" para transformar a administração
em um plebiscito permanente, ao mesmo tempo que reforçava uma imagem
de autoridade. Aproveitava o pequeno espaço que lhe era oferecido
nos programas das principais emissoras locais de rádio e TV, controladas
pelos usineiros derrotados nas urnas, e anunciava, no ar, demissões
de funcionários públicos relapsos ou faltosos, denunciados
por reclamações dos ouvintes. Dez anos depois, quando anunciou
que pretendia renunciar a parte do segundo mandato como prefeito para
concorrer ao governo do Estado, promoveu uma votação para
saber se os moradores aprovavam sua saída e teve o apoio de 96%
da população.
Antonio Scorza/AFP
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CENAS
DE UM GOVERNO
A refém sob a mira de um bandido, na tragédia do ônibus
174 (foto) e o Piscinão de Ramos:
na gestão de Garotinho no Rio, obras de apelo popular e problemas
na segurança
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No governo do Rio, a partir de 1999, Garotinho levou essa característica
às últimas conseqüências. Nas manhãs de
sábado, comandava um programa de rádio em uma das emissoras
de maior audiência no horário e promovia uma sabatina com
todos os seus principais auxiliares sobre saúde, educação,
segurança e outros temas de grande apelo popular. Também
promoveu demissões espetaculares. Seu primeiro secretário
de Segurança, o general do Exército José Siqueira,
um militar linha-dura que ostentava a fama de ter combatido com rigor
a violência em Alagoas, passou pela humilhação de
saber de sua demissão pelo rádio e pela internet, antes
de ser comunicado pelo próprio governador. Outro importante colaborador
na área, o então subsecretário de Pesquisa e Cidadania,
Luiz Eduardo Soares, com quem chegou a escrever um livro, teve destino
ainda pior. Foi exonerado, em março de 2000, durante uma entrevista
do governador a um telejornal da Rede Globo. Em seguida, Garotinho ainda
liberou para a imprensa a gravação de uma conversa telefônica
entre ele e Luiz Eduardo, realizada por ordem sua. O pretexto para o grampo
foi mostrar que o próprio assessor entendia e acatava os motivos
de sua saída. Nos dois episódios, Garotinho enfrentava críticas
da opinião pública, que exigia mudanças no rumo do
combate à criminalidade no Rio.
Luiz Eduardo lembra que tinha um método eficaz para aprovar os
projetos de sua secretaria que dependiam de liberação de
recursos por parte do governador e também para precaver-se
contra mudanças de idéia após a aprovação.
Costumava reunir-se com Garotinho até de madrugada, quando enfim
dobrava sua resistência e conseguia sinal verde. Horas depois, ainda
pela manhã, telefonava para o Palácio Laranjeiras, residência
oficial do governador, e comunicava que já havia dado os primeiros
passos para a realização do projeto. "Eu fazia isso antes
que ele lesse os jornais, tomasse conhecimento de alguma crítica
à idéia e decidisse mudar sua posição", conta
Luiz Eduardo, hoje rompido com Garotinho e candidato a vice-governador
na chapa da governadora Benedita da Silva.
No
dia-a-dia, o ex-governador é centralizador, ainda que tente demonstrar
o contrário. Costuma comandar distribuindo tarefas e estabelecendo
prazos para cada uma delas. Mas não resiste à tentação
de fiscalizar pessoalmente o andamento de cada obra, da construção
de um hospital ao asfaltamento de uma pequena estrada. Três meses
após sua posse, em janeiro de 1999, já havia visitado 42
dos 91 municípios do Estado, vistoriando os principais projetos.
Um de seus ex-colaboradores no governo, atualmente ocupando importante
posição no comando da campanha à Presidência,
lembra que Garotinho costumava, repentinamente, requisitar o helicóptero
oficial para conferir o andamento de uma obra financiada pelo Estado.
"Ele aterrissava no canteiro, mandava chamar o capataz e perguntava em
quanto tempo a construção estaria concluída. Depois,
ligava para o secretário, sem comentar nada, e fazia a mesma pergunta.
Se as respostas fossem diferentes, certamente o secretário teria
problemas", conta o colaborador. Também era capaz de encerrar uma
reunião por volta das 11 da noite e, de madrugada, ligar para a
casa de seu interlocutor a fim de continuar a discussão. Um perfil
bem diferente do de Brizola, outra liderança populista, que deixava
o barco correr solto e só usava mão-de-ferro sobre seus
secretários quando graves problemas administrativos vinham a público.
Garotinho é um chefe de Executivo frio. Em reuniões de secretariado,
não tem inibição para fazer cobranças que
expõem seus colaboradores a situações constrangedoras.
Costuma agir como um bedel, exigindo dados, prazos e resultados concretos.
Também pune com o ostracismo eventuais aliados que lhe tragam problemas.
Quando chegou ao governo do Rio, cercou-se de um grupo de homens de confiança,
na maior parte vindos de Campos, que ficou conhecido como a Turma do Chuvisco,
um tradicional doce produzido na cidade. Pouco mais de um ano depois,
alguns desses assessores foram envolvidos em denúncias de corrupção.
A maioria foi forçada pelo próprio Garotinho a pedir demissão,
para não permitir que o escândalo atingisse o coração
do governo. Hoje, praticamente todos estão afastados do ex-governador,
e nenhum deles faz parte do comando de sua campanha à Presidência.
Quando necessário, porém, sabe recompensar a fidelidade.
O advogado Jonas Lopes de Carvalho, principal integrante da Turma do Chuvisco,
teve de abandonar o cargo de chefe do Gabinete Civil de Garotinho, mas
ganhou do amigo a indicação para uma vaga no Tribunal de
Contas do Estado.
Arquivo pessoal
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Oscar Cabral
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| O e
Contas do Estado.
Arquivo pessoal
 |
Oscar Cabral
 |
O
CLÃ GAROTINHO
A família, em dois tempos: com Rosinha, grávida, e ao lado
de sete dos nove filhos |
Na
vida política, age com a mesma frieza e cálculo. Quando
percebeu que precisava descolar-se do ex-governador do Rio Leonel Brizola
com quem, aliás, guarda várias semelhanças
de estilo , não hesitou em deixar o PDT, partido ao qual
foi filiado por dezoito anos. Até um de seus irmãos, o vereador
campista Nelson Nahin, que partiu com Garotinho para o PSB, já
sentiu a crueza desse estilo, imune inclusive a laços de sangue.
Presidente da Câmara de Vereadores da cidade e herdeiro de parte
do patrimônio político do irmão, Nahin não
conseguiu uma vaga na legenda do PSB para disputar um mandato de deputado
estadual. A justificativa era que o partido já tinha compromissos
anteriores com lideranças regionais, importantes aliados de Garotinho.
"Tentei conversar com ele, mas não adiantou", diz Nahin.
Essa prática faz com que o ex-governador do Rio tenha, ao longo
de sua carreira política, preferido cercar-se de um pequeno grupo
de colaboradores. Mesmo na campanha presidencial, vem sendo acompanhado
por uma equipe enxuta, na qual poucos têm direito a voz e ninguém
além dele próprio possui poder de deliberação.
Dentro do PSB, conta com apenas dois interlocutores, o presidente, Miguel
Arraes, avalista de sua candidatura, e Roberto Amaral, responsável
pelo programa de governo. Nem o coordenador-geral da campanha, Márcio
França, uma liderança do partido, priva de sua intimidade.
Mesmo sem formação acadêmica, Garotinho prefere dedicar-se
a estudar com razoável profundidade determinado tema a ter de delegar
a um técnico as responsabilidades de uma decisão importante.
É a antítese de um líder político como Lula,
que exibe seus principais colaboradores no programa eleitoral, uma espécie
de salvo-conduto para acusações de inexperiência administrativa.
Na área econômica, por exemplo, Garotinho tem praticamente
um só homem de confiança, o economista Tito Ryff, um de
seus ex-secretários. E, não por acaso, a pessoa com quem
mais divide as decisões solitárias do poder é sua
mulher, Rosinha Garotinho, candidata ao governo do Estado pelo PSB. Em
1998, Rosinha comandou a campanha do marido na Baixada Fluminense, que
concentra boa parte dos votos da periferia do Rio. Já no governo,
tornou-se secretária de Ação Social e, freqüentemente,
participava de reuniões com outros assessores. Hoje, isolada na
liderança da corrida ao Palácio Guanabara, tem cacife político
suficiente para exercer considerável ascendência sobre o
ex-governador do Rio. {c
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