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Edição 1 772 - 9 de outubro de 2002
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Com fé em Deus
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Marcelo Carneiro

 
Oscar Cabral
DESCANSO
O candidato, em um dos poucos momentos de folga durante a campanha: afagos na cadela "Laila"


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Em torno de Garotinho
Os grandes desafios

Centralizador, impulsivo, voluntarioso, obcecado por resultados. Para Anthony Garotinho, o governo é um permanente exercício do poder, que não deve ser repartido. Prefeito duas vezes da cidade de Campos, no interior do Rio de Janeiro, e ex-governador do Estado, o candidato do PSB à Presidência é descrito – tanto por colaboradores quanto por ex-aliados, hoje desafetos – como um político habituado a decidir quase solitariamente, apesar de aparentar o gosto por ouvir opiniões alheias. No governo do Rio, uma cena tornou-se freqüente. Diante de algum problema mais grave, convocava uma reunião com todo o secretariado e os principais colaboradores. Não se importava em discutir publicamente situações delicadas, como uma crise na área de segurança pública ou denúncias contra um integrante de seu governo. Pedia a opinião de cada um e, após um breve discurso, anunciava sua decisão. Não raro, adotando uma atitude radicalmente diferente de tudo o que lhe tinha sido sugerido pelos interlocutores.

Em momentos de maior incerteza política, Garotinho prefere ouvir a voz da opinião pública a seguir os conselhos de assessores, mesmo os mais próximos. Seu termômetro preferencial são os jornais, lidos sempre às 6 horas da manhã, e os programas diários de rádio, especialmente os voltados para as classes C, D e E. Não se trata de um traço incomum num político – todo governante gosta de aferir o acerto de suas decisões. Mas em Garotinho essa característica, mais que um estilo de governo, é parte de sua biografia e de sua personalidade. Um dos quatro filhos de uma família de classe média baixa formada por imigrantes portugueses, italianos e libaneses, cresceu em Campos, ouvindo jogos de futebol e corridas de cavalo transmitidos pelo rádio. Sem formação superior, tornou-se radialista aos 15 anos, criando fama com programas de cunho assistencialista. Vem daí o viés populista, que resistiu incólume à passagem pelo Partido Comunista Brasileiro e pelo PT. Ele não abre mão de balizar suas decisões pelo impacto que elas poderão ter na população, especialmente entre os mais pobres.

Tem sido assim desde 1988, quando venceu sua primeira eleição para a prefeitura de Campos, a principal cidade do norte fluminense. Nessa época, já encomendava a assessores pesquisas de opinião, para saber como direcionar sua campanha. Conseguiu uma vitória histórica no município, derrotando uma oligarquia de usineiros que comandava a cidade havia décadas. No governo, usou a experiência como comunicador – seu slogan no rádio era "Garotinho, o amigo da dona-de-casa" – para transformar a administração em um plebiscito permanente, ao mesmo tempo que reforçava uma imagem de autoridade. Aproveitava o pequeno espaço que lhe era oferecido nos programas das principais emissoras locais de rádio e TV, controladas pelos usineiros derrotados nas urnas, e anunciava, no ar, demissões de funcionários públicos relapsos ou faltosos, denunciados por reclamações dos ouvintes. Dez anos depois, quando anunciou que pretendia renunciar a parte do segundo mandato como prefeito para concorrer ao governo do Estado, promoveu uma votação para saber se os moradores aprovavam sua saída e teve o apoio de 96% da população.

Antonio Scorza/AFP

CENAS DE UM GOVERNO
A refém sob a mira de um bandido, na tragédia do ônibus 174 (foto) e o Piscinão de Ramos
: na gestão de Garotinho no Rio, obras de apelo popular e problemas na segurança


No governo do Rio, a partir de 1999, Garotinho levou essa característica às últimas conseqüências. Nas manhãs de sábado, comandava um programa de rádio em uma das emissoras de maior audiência no horário e promovia uma sabatina com todos os seus principais auxiliares sobre saúde, educação, segurança e outros temas de grande apelo popular. Também promoveu demissões espetaculares. Seu primeiro secretário de Segurança, o general do Exército José Siqueira, um militar linha-dura que ostentava a fama de ter combatido com rigor a violência em Alagoas, passou pela humilhação de saber de sua demissão pelo rádio e pela internet, antes de ser comunicado pelo próprio governador. Outro importante colaborador na área, o então subsecretário de Pesquisa e Cidadania, Luiz Eduardo Soares, com quem chegou a escrever um livro, teve destino ainda pior. Foi exonerado, em março de 2000, durante uma entrevista do governador a um telejornal da Rede Globo. Em seguida, Garotinho ainda liberou para a imprensa a gravação de uma conversa telefônica entre ele e Luiz Eduardo, realizada por ordem sua. O pretexto para o grampo foi mostrar que o próprio assessor entendia e acatava os motivos de sua saída. Nos dois episódios, Garotinho enfrentava críticas da opinião pública, que exigia mudanças no rumo do combate à criminalidade no Rio.

Luiz Eduardo lembra que tinha um método eficaz para aprovar os projetos de sua secretaria que dependiam de liberação de recursos por parte do governador – e também para precaver-se contra mudanças de idéia após a aprovação. Costumava reunir-se com Garotinho até de madrugada, quando enfim dobrava sua resistência e conseguia sinal verde. Horas depois, ainda pela manhã, telefonava para o Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador, e comunicava que já havia dado os primeiros passos para a realização do projeto. "Eu fazia isso antes que ele lesse os jornais, tomasse conhecimento de alguma crítica à idéia e decidisse mudar sua posição", conta Luiz Eduardo, hoje rompido com Garotinho e candidato a vice-governador na chapa da governadora Benedita da Silva.

No dia-a-dia, o ex-governador é centralizador, ainda que tente demonstrar o contrário. Costuma comandar distribuindo tarefas e estabelecendo prazos para cada uma delas. Mas não resiste à tentação de fiscalizar pessoalmente o andamento de cada obra, da construção de um hospital ao asfaltamento de uma pequena estrada. Três meses após sua posse, em janeiro de 1999, já havia visitado 42 dos 91 municípios do Estado, vistoriando os principais projetos. Um de seus ex-colaboradores no governo, atualmente ocupando importante posição no comando da campanha à Presidência, lembra que Garotinho costumava, repentinamente, requisitar o helicóptero oficial para conferir o andamento de uma obra financiada pelo Estado. "Ele aterrissava no canteiro, mandava chamar o capataz e perguntava em quanto tempo a construção estaria concluída. Depois, ligava para o secretário, sem comentar nada, e fazia a mesma pergunta. Se as respostas fossem diferentes, certamente o secretário teria problemas", conta o colaborador. Também era capaz de encerrar uma reunião por volta das 11 da noite e, de madrugada, ligar para a casa de seu interlocutor a fim de continuar a discussão. Um perfil bem diferente do de Brizola, outra liderança populista, que deixava o barco correr solto e só usava mão-de-ferro sobre seus secretários quando graves problemas administrativos vinham a público.

Garotinho é um chefe de Executivo frio. Em reuniões de secretariado, não tem inibição para fazer cobranças que expõem seus colaboradores a situações constrangedoras. Costuma agir como um bedel, exigindo dados, prazos e resultados concretos. Também pune com o ostracismo eventuais aliados que lhe tragam problemas. Quando chegou ao governo do Rio, cercou-se de um grupo de homens de confiança, na maior parte vindos de Campos, que ficou conhecido como a Turma do Chuvisco, um tradicional doce produzido na cidade. Pouco mais de um ano depois, alguns desses assessores foram envolvidos em denúncias de corrupção. A maioria foi forçada pelo próprio Garotinho a pedir demissão, para não permitir que o escândalo atingisse o coração do governo. Hoje, praticamente todos estão afastados do ex-governador, e nenhum deles faz parte do comando de sua campanha à Presidência. Quando necessário, porém, sabe recompensar a fidelidade. O advogado Jonas Lopes de Carvalho, principal integrante da Turma do Chuvisco, teve de abandonar o cargo de chefe do Gabinete Civil de Garotinho, mas ganhou do amigo a indicação para uma vaga no Tribunal de Contas do Estado.

 
Arquivo pessoal
Oscar Cabral
O e Contas do Estado.

 
Arquivo pessoal
Oscar Cabral
O CLÃ GAROTINHO
A família, em dois tempos: com Rosinha, grávida, e ao lado de sete dos nove filhos

Na vida política, age com a mesma frieza e cálculo. Quando percebeu que precisava descolar-se do ex-governador do Rio Leonel Brizola – com quem, aliás, guarda várias semelhanças de estilo –, não hesitou em deixar o PDT, partido ao qual foi filiado por dezoito anos. Até um de seus irmãos, o vereador campista Nelson Nahin, que partiu com Garotinho para o PSB, já sentiu a crueza desse estilo, imune inclusive a laços de sangue. Presidente da Câmara de Vereadores da cidade e herdeiro de parte do patrimônio político do irmão, Nahin não conseguiu uma vaga na legenda do PSB para disputar um mandato de deputado estadual. A justificativa era que o partido já tinha compromissos anteriores com lideranças regionais, importantes aliados de Garotinho. "Tentei conversar com ele, mas não adiantou", diz Nahin.

Essa prática faz com que o ex-governador do Rio tenha, ao longo de sua carreira política, preferido cercar-se de um pequeno grupo de colaboradores. Mesmo na campanha presidencial, vem sendo acompanhado por uma equipe enxuta, na qual poucos têm direito a voz e ninguém além dele próprio possui poder de deliberação. Dentro do PSB, conta com apenas dois interlocutores, o presidente, Miguel Arraes, avalista de sua candidatura, e Roberto Amaral, responsável pelo programa de governo. Nem o coordenador-geral da campanha, Márcio França, uma liderança do partido, priva de sua intimidade. Mesmo sem formação acadêmica, Garotinho prefere dedicar-se a estudar com razoável profundidade determinado tema a ter de delegar a um técnico as responsabilidades de uma decisão importante. É a antítese de um líder político como Lula, que exibe seus principais colaboradores no programa eleitoral, uma espécie de salvo-conduto para acusações de inexperiência administrativa. Na área econômica, por exemplo, Garotinho tem praticamente um só homem de confiança, o economista Tito Ryff, um de seus ex-secretários. E, não por acaso, a pessoa com quem mais divide as decisões solitárias do poder é sua mulher, Rosinha Garotinho, candidata ao governo do Estado pelo PSB. Em 1998, Rosinha comandou a campanha do marido na Baixada Fluminense, que concentra boa parte dos votos da periferia do Rio. Já no governo, tornou-se secretária de Ação Social e, freqüentemente, participava de reuniões com outros assessores. Hoje, isolada na liderança da corrida ao Palácio Guanabara, tem cacife político suficiente para exercer considerável ascendência sobre o ex-governador do Rio. {c

 



   
 
   
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