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O eterno fascínio
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CIRO
E A IDEOLOGIA |
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Ciro Gomes conheceu o céu e o inferno nesta campanha. Chegou a ser o queridinho do eleitor, único candidato capaz de vencer Luís Inácio Lula da Silva no segundo turno. Na reta final, depois de murchar nas pesquisas, tentava desmentir os boatos de que estudava renunciar à candidatura para não protagonizar um vexame eleitoral. Aos 44 anos, Ciro construiu um currículo político vasto. Nenhum de seus oponentes tem uma biografia tão extensa. O que mais se aproxima é Anthony Garotinho. Ao se formar em direito pela Universidade Federal do Ceará, Ciro chegou a advogar por algum tempo, mas logo mergulhou na profissão que acabaria por torná-lo um homem conhecido nacionalmente. Foi deputado estadual duas vezes, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro da Fazenda na gestão de Itamar Franco. Ciro possui muitas qualidades: é corajoso, prático e realizador.Tem ainda a vantagem decorrente de não perder tempo com hesitações ou detalhes. Decide rápido e passa imediatamente à ação.
Toda essa capacidade de enfrentar os problemas que surgem diante do governante, no entanto, seria mais bem aproveitada se estivesse lastreada numa mente menos impulsiva e menos confrontativa. Diante de um desafio, Ciro reage frontalmente, como se sua competência estivesse sendo questionada. Durante o primeiro turno desta campanha, deu várias demonstrações desse estilo. Nos dois episódios mais famosos, chamou um ouvinte de rádio de "burro" e, perguntado sobre o papel de sua mulher, a atriz Patrícia Pillar, na campanha, respondeu: "A minha companheira tem um papel fundamental. Ela dorme comigo". Num certo aspecto, Ciro Gomes é um personagem único nesta eleição. Dos quatro principais presidenciáveis, é, de longe, o que mais gosta de conviver com o risco. Se o candidato fosse um banqueiro, se assemelharia a um investidor de Wall Street que em busca da alta rentabilidade vive perigosamente alavancado. Se fosse um personagem do cinema, lembraria aqueles pistoleiros que passam o tempo em busca de um adversário para o duelo. Quem diz isso não são seus adversários, mas amigos seus e pessoas que trabalharam com ele.
Claudio Rossi![]() |
Antonio Milena![]() |
Beto Barata/AE![]() |
EM
CAMPANHA Ciro Gomes ajeita o nó da gravata antes da gravação do programa eleitoral gratuito; no jatinho, ao lado de assessor; e com Patrícia Pillar, durante uma caminhada |
Em política, é muito arriscado agir sem pensar cuidadosamente nas conseqüências de cada palavra, de cada gesto. Ciro age por impulso, explode de surpresa. Se isso dá espontaneidade ao candidato, também tem cobrado dele altos juros. Todo mundo descobriu esse traço de Ciro Gomes durante esta campanha presidencial, menos ele próprio. Basta ver como explicou o episódio do "burro" da rádio. Ciro não assumiu a grosseria que tantos votos lhe custou. Em vez disso, associou a gafe a uma sucessão de virtudes. Diz ter sido "ingênuo" (virtude própria dos puros). E explica que foi flagrado num instante de "sinceridade" (outra virtude). Um político de suas relações faz esta generalização sobre o episódio: "Ele age muitas vezes como se suas falhas fossem decorrência de suas qualidades".
Em mais de uma oportunidade, Ciro apostou seu futuro político numa decisão do tipo "tudo ou nada". Em 1988, quando era deputado estadual, foi convocado pelo governador Tasso Jereissati para disputar a prefeitura de Fortaleza pelo PMDB. O projeto era ousado. Ciro não residia na capital do Ceará, mas em Sobral, no interior do Estado. No momento em que foi convidado, a lei em vigor o impedia de fazer a troca de seu domicílio eleitoral. Ou seja, era uma aventura aceitar o convite. Quando Ciro comprou a idéia, um aliado de Tasso apresentou uma emenda constitucional modificando os prazos legais. Ciro trocou de domicílio eleitoral e venceu a eleição. Deu certo. Poderia não ter dado, mas ele correu o risco.
Quando estava
na prefeitura de Fortaleza fazia apenas um ano e três meses, tomou
outra decisão intempestiva. Largou a cadeira de prefeito para disputar
o governo do Ceará pelo PSDB. Não apenas se elegeu como
ganhou algum destaque no meio político nacional ao se tornar o
único governador tucano do país. Mais uma vez, a aventura
acabou bem, mas o risco envolvido era grande. A quatro meses de encerrar
seu mandato à frente do Palácio do Cambeba, o governador
Ciro Gomes mais uma vez renunciou ao cargo. Aceitou tornar-se ministro
da Fazenda do presidente Itamar Franco. O momento era delicado, o Plano
Real atravessava uma fase difícil, e Ciro acabou ganhando mais
projeção. No cargo de ministro, chefiou o grupo de ouro
dos pais do Plano Real, como os economistas Edmar Bacha, Persio Arida,
Pedro Malan e Gustavo Franco. Se o plano naufragasse, quais teriam sido
os efeitos sobre sua carreira?
Claudio Rossi![]() |
Eduardo Queroga![]() |
| "OLIGARQUIA" A origem de Ciro é modesta. Basta ver acima a "sede" da fazenda da família, em Sobral. Tasso é o elo do candidato com a riqueza |
Como administrador, Ciro costuma tomar decisões sem perder muito tempo. Nesse aspecto, é diferente do presidente Fernando Henrique Cardoso, que gosta de encomendar estudos, consultar pessoas de opiniões contraditórias, e só então arbitrar. Para o bem ou para o mal, Ciro Gomes prefere ir direto ao ponto. Como governador do Ceará, segundo o relato de ex-assessores, ele nunca teve o hábito de convocar reuniões antes de uma resolução importante. Suas decisões, em geral, são solitárias.
Quando ele assumiu o Ministério da Fazenda, em 1994, a estabilização da moeda empurrou os consumidores para as compras, um ou outro produto começou a faltar nas prateleiras e o risco de inflação voltou a preocupar. Os assessores do ministro Ciro sugeriram a ele que derrubasse as tarifas de importação para permitir a entrada de produtos importados. Com a abertura, a concorrência aumentaria, e isso tenderia a combater a inflação. A equipe fez uma ressalva: os efeitos colaterais da medida seriam imprevisíveis. O mais temido deles era o arrasamento de pequenas e médias empresas, caso elas não conseguissem preparar-se para enfrentar a concorrência dos estrangeiros. A decisão era delicada. Envolvia o destino de milhares e milhares de empresas. O ministro pediu algumas horas para pensar. E baixou as tarifas. A inflação foi contida, mas, como se temia, com o desembarque dos importados centenas de empresas fecharam as portas, principalmente nos setores têxtil e de calçados.
Para avaliar
e cobrar o desempenho de sua equipe, Ciro prefere reuniões periódicas
e breves. Quando era governador, pedia a cada secretário
que apresentasse o problema do momento e as possíveis alternativas.
Entre as oferecidas, ele escolhia uma e passava a palavra ao próximo
secretário. Tudo muito rápido. Os amigos só se lembram
de uma ocasião em que ele exigiu um tempo relativamente longo para
refletir antes de tomar uma decisão. Foi quando recebeu o convite
para ocupar o Ministério da Fazenda. Antes de aceitar o cargo,
Ciro se afastou do governo do Ceará e passou três dias isolado
numa praia. Ele ouve os assessores e os técnicos e leva em conta
suas opiniões, mas é no seu íntimo que processa os
dados obtidos e opta pela solução. Ao contrário de
muitos políticos, raramente consulta alguém de fora do seu
governo para saber se as sugestões que lhe foram dadas por assessores
são certas ou erradas. Por fim, costuma deixar claro que foi ele
quem tomou a decisão final e que não depende de ninguém
para resolver os problemas.
Claudio Rossi![]() |
| ADORADO
EM SOBRAL É fácil achar referências a Ciro em Sobral. Neste bar, ele aparece em duas fotografias |
O presidenciável costuma se apresentar como um conciliador, mas a prática mostra que seu figurino é outro. Em vez de um Tancredo Neves reencarnado, Ciro Gomes lembra mais o presidente João Figueiredo. Quando foi candidato a prefeito de Fortaleza, em 1988, a corregedoria eleitoral o acusou de abuso do poder econômico. Ciro, o conci bar, ele aparece em duas fotografias
O presidenciável costuma se apresentar como um conciliador, mas a prática mostra que seu figurino é outro. Em vez de um Tancredo Neves reencarnado, Ciro Gomes lembra mais o presidente João Figueiredo. Quando foi candidato a prefeito de Fortaleza, em 1988, a corregedoria eleitoral o acusou de abuso do poder econômico. Ciro, o conciliador, rebateu dizendo que o relatório do procurador era uma "picaretagem geral". Quando se tornou governador, a procuradoria intimou o governo a suspender a venda de água da empresa pública de saneamento em carros-pipa. Ciro rebateu dizendo que o procurador era "um exibicionista, um gaiato" e afirmou em entrevista à imprensa que havia mandado "rasgar a intimação e jogar no lixo". Durante seu governo, a Justiça do Trabalho concedeu uma série de aumentos salariais a servidores de empresas estatais. Em muitos casos, os aumentos concedidos faziam com que a folha de pagamento das empresas superasse suas receitas. Ciro enfrentou os juízes no campo legal e, também, na base da força. Numa ocasião, a Justiça determinou o arresto de bens do governo para garantir o cumprimento das decisões legais. O governador mandou carros da Polícia Militar impedir o acesso dos oficiais de Justiça. Em uma entrevista concedida naquela época, declarou que a Justiça "tratava com o Estado como se fosse a casa-da-mãe-joana".
No governo do Ceará, o tom agressivo foi marca de sua gestão, e a força, uma estratégia de negociação. Em 1992, os médicos da rede pública estadual entraram em greve reivindicando melhores salários. Ciro Gomes avisou que não estava disposto a negociar e sustentou uma guerra de nervos com os funcionários. Acusou os servidores de "egoístas e mercenários" e, sem prova alguma, declarou que o movimento era fomentado por um plano de saúde privado, que semeava o caos na saúde pública para angariar novos clientes. Do presidente do sindicato dos médicos chegou a dizer que não servia nem mesmo para ser do sindicato dos "carniceiros". A certa altura das discussões, comparou a categoria dos médicos ao sal: "branco, barato e tem em todo lugar". A paralisação durou mais de sessenta dias até que o governo liberou um reajuste e os médicos voltaram a trabalhar.
Existem administradores que delegam a assessores a tarefa de decidir e apenas monitoram o desempenho. Esse é o estilo dos quatro últimos presidentes que o Brasil teve, José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Com maior ou menor grau de interferência, cada um deles praticamente transferia aos ministros a responsabilidade de tocar o governo. Ciro Gomes forma no time dos administradores que centralizam as ações. Mandar fazer, para ele, não é tão gratificante quanto fazer com as próprias mãos. Em 1993, o Ceará enfrentava a maior seca das últimas cinco décadas. Os habitantes de Fortaleza corriam o risco de ficar com as torneiras secas. O problema colocou o então governador do Estado diante de um dos maiores desafios de sua carreira. Depois de ouvir os técnicos, decidiu construir um canal com mais de 100 quilômetros para trazer água de um rio distante até a represa que abastece Fortaleza.
Como não havia um levantamento topográfico da região por onde passaria o canal, Ciro mandou o helicóptero do governo percorrer o traçado previsto fazendo pousos a cada quilômetro. Foram realizados 98 pousos e decolagens em dois dias, e a operação serviu para improvisar um levantamento topográfico tomando-se a altura do terreno pelo altímetro do aparelho. Detalhe: o governador ia junto em boa parte dos vôos e dava "incertas" no canteiro para checar o andamento dos trabalhos. Três meses depois de iniciada, a obra do canal foi concluída e o risco de colapso foi afastado de Fortaleza. Ciro foi apontado como "o homem que fez um rio" uma imagem que produziu um impacto fortíssimo entre os cearenses.
Ideologicamente, Ciro Gomes possui um comportamento bastante comum no meio político, que é não levar os partidos muito a sério. Nos últimos vinte anos, já pertenceu a quatro legendas: PDS, PMDB, PSDB e PPS. Sua iniciação na política deu-se em 1982, quando foi candidato a deputado estadual pela primeira vez, pelo PDS, partido que apoiava o governo militar. Ao se eleger, no entanto, fez diversos discursos pregando pela cartilha da oposição. Em um deles, chamou os homens do FMI de "guardiães e procuradores da agiotagem internacional". Foi além: pregou "rompimento imediato com o FMI para restaurar a soberania nacional" e disse que "a moratória (da dívida brasileira) é fatal, virá e precisa ser feita quanto antes". Quando saiu do Ministério da Fazenda, aproximou-se do prefeito Cesar Maia, do PFL, e pensou em disputar a prefeitura do Rio de Janeiro. Em seguida, abandonou o projeto e foi se juntar a um grupo de líderes do PT, com quem tentou formar um bloco de oposição.
A chapa pela qual disputa a Presidência é mais um exemplo dessa confusão ideológica. No campo político, atraiu Roberto Freire, ex-líder do Partido Comunista Brasileiro e fundador do PPS, mas depois precisou abrigar o PFL e o PTB. No campo econômico, alinhou-se ao professor Mangabeira Unger, que leciona nos Estados Unidos e costuma vir ao Brasil em tempo de eleição para munir oposicionistas de argumentos bombásticos contra o governo. Mas a necessidade prática de acalmar os mercados às vésperas da eleição fez com que convidasse a ajudá-lo o professor carioca José Alexandre Scheinkman, que leciona economia na Universidade Princeton, nos EUA, e se identifica com as teses econômicas liberais, o oposto de Mangabeira Unger. O expediente de Ciro para ordenar essas incoerências pode ser captado numa frase que ele repete com alguma insistência: "Não tenho compromisso com ninguém", diz.
Outro traço do candidato está em sua exacerbada auto-referência. Não importa em que partido esteja, não importa quem esteja a seu lado, Ciro parece só enxergar Ciro. Em razão desse comportamento, que gera um relacionamento distante com os partidos e com os políticos, Ciro acaba se cercando de pessoas das quais se aproximou por laços familiares e pessoais. Os principais assessores de sua campanha são seus irmãos, o cunhado e velhos amigos, além da atual mulher, a atriz Patrícia Pillar. O único político que pode dizer que influencia Ciro é Tasso Jereissati. Os dois formam, para muitos, uma aliança improvável, a começar pela origem. Tasso nasceu em berço de ouro. As empresas que controla valem 500 milhões de reais, e sua mulher, Renata, é herdeira de um dos maiores grupos empresariais do Ceará. Já Ciro pertence a uma família de classe média do interior, descrita de forma equivocada como oligarquia. Os Gomes ingressaram na política por intermédio de um tio-avô de Ciro, José Ferreira Gomes, que foi prefeito da cidade de Sobral. Depois dele, o pai de Ciro ocupou o mesmo cargo. E o atual prefeito da cidade é um irmão seu, Cid. Ainda assim, é errado afirmar que formam uma oligarquia. Sociologicamente, as oligarquias rurais se manifestam por meio do coronelismo, uma combinação de poder econômico com poder político. No passado, mantinham-se firmes com a ajuda do voto de cabresto, explorando a velha indústria da seca. Atualmente, as oligarquias dominam a política com o apoio dos meios de comunicação sob seu controle. No caso dos Gomes, nada disso ocorre. Eles não têm dinheiro, e nenhum deles se tornou empresário. Em nada se parecem com a família de José Sarney, no Maranhão, ou a de Antonio Carlos Magalhães, na Bahia.
Os Gomes são quase todos funcionários públicos. O pai de Ciro era defensor público em Sobral, emprego que lhe renderia um salário de 4.000 reais nos dias de hoje. Ciro e seus quatro irmãos moravam num sobrado sem nenhum luxo, e a família não tinha carro novo nem mesmo quando o pai se tornou prefeito. A maior propriedade da família é uma fazenda onde o hectare vale de 1 a 3 reais e a casa está caindo aos pedaços. Nem Ciro nem seus irmãos estudaram ou viveram no exterior, no Rio de Janeiro ou em Brasília, como acontece com os membros das oligarquias nordestinas. Quem apertar o número 23 e votar em Ciro Gomes neste domingo estará escolhendo não apenas um presidenciável, mas dois. Há um Ciro ousado, inteligente, orador de primeira linha, líder nato desde a juventude. E há o outro Ciro, destemperado, dono da verdade, que se acha infalível. Cabe ao eleitor avaliar até que ponto essa combinação é adequada ao exercício da Presidência da República.
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