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A mente de Serra

Felipe Patury


Ana Araujo
O CANDIDATO
José Serra, em sua casa, em São Paulo: "Entendo melhor as coisas quando leio"


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Os grandes desafios

Os presidentes costumam ter dois estilos básicos para tomar decisões e agir. Um é recorrer ao seu poder de convencimento, sua capacidade de persuasão, como faz o presidente Fernando Henrique Cardoso e como fazia o ex-presidente americano Bill Clinton. Há, ainda, os que optam pelo mesmo método, mas adotam uma postura menos comunicativa e mais imperial, como era o caso de François Mitterrand, que governou a França por catorze anos. A segunda forma de agir é exercendo o poder presidencial tradicional – aquele de mandar, usar a caneta, demitir, nomear. É uma forma antiga, uma forma "sem hegemonia cultural", como diria Antonio Gramsci, pensador italiano que renovou o marxismo. Com a saída de Fernando Henrique Cardoso do Palácio do Planalto em janeiro do ano que vem, os brasileiros passarão a conviver com novos métodos de decisão e ação presidencial. No caso do tucano José Serra, como ele toma decisões? Como age? Em primeiro lugar, dê-se a palavra ao próprio candidato – e se ouvirá algo gramsciano. "A análise é racional, mas as decisões são tomadas também por impulso. Sou pessimista na análise e otimista na ação. E não inventei isso. Esse é o método de Gramsci", diz ele.

Examinando-se o passado do candidato, constata-se que a autodefinição é correta, mas seu processo decisório e sua maneira de agir parecem não se esgotar nisso. Quanto à análise racional, Serra tem mesmo o hábito de fazê-la à exaustão. Em 1996, quando foi convidado pelo presidente Fernando Henrique a candidatar-se a prefeito de São Paulo, o tucano levou dois meses para se decidir. Cercou-se de todos os cuidados. Examinou pesquisas, que lhe davam vitória fácil, colheu a opinião de aliados, sondou amigos. Chegou a encomendar a José Roberto Afonso, então superintendente do fundo de pensão do BNDES e hoje recrutado para a alta cúpula de sua campanha presidencial, uma radiografia completa das finanças da prefeitura paulistana. Uma vez, aceitou o convite, preparou-se para deixar o comando do Ministério do Planejamento, mas em seguida voltou atrás. Acabou saindo candidato de um modo atabalhoado. Numa madrugada, telefonou para Fernando Henrique, que estava em Paris, e disse que tudo indicava que seria candidato. O presidente, já exausto das idas e vindas, aproveitou um passeio por Paris no dia seguinte e anunciou a candidatura. Serra deu-se mal: ficou em terceiro lugar.

Ao ser convidado para assumir o Ministério da Saúde, Serra também levou dois meses para aceitar e, de novo, consumiu o tempo para fazer uma análise exaustiva das probabilidades de sucesso e fracasso. Conversou com Barjas Negri, então secretário executivo e hoje ministro da Saúde, para saber como funcionava a máquina e de onde vinha o dinheiro para a saúde. Pediu a Beatriz Azeredo, diretora de assuntos sociais do BNDES, estudos sobre sistemas de saúde em outros países. Encomendou livros estrangeiros sobre o assunto. Leu-os, resumiu os textos e mandou que seus assessores fizessem o mesmo, para fixar as idéias. Estudou os modelos de saúde dos Estados Unidos, Inglaterra e Canadá, para ver o que poderia copiar no Brasil. Debruçou-se sobre os projetos de saúde do deputado Eduardo Jorge, do PT paulista, idealizador do programa dos medicamentos genéricos. Examinou o atendimento médico em casa, implantado pelo então governador do Distrito Federal, Cristovam Buarque, uma idéia que acabaria adotando durante sua gestão no Ministério da Saúde. Foi só depois dessa maratona que Serra finalmente decidiu aceitar o convite presidencial.


Ana Araujo
DUPLA DE MARKETING
Nelson Biondi e Nizan Guanaes, os bruxos da propaganda de Serra

"Serra é um pessimista por norma, pesa com cuidado todas as possibilidades de fracasso de suas decisões", conta o senador Artur da Távola, um dos melhores amigos do presidenciável. As análises feitas com obsessão, porém, são comuns apenas quando Serra é defrontado com algo que não estava em seus planos – como ser prefeito de São Paulo ou ministro da Saúde. Se fosse convidado para ser ministro da Fazenda, por exemplo, talvez não levasse mais de meia hora para responder. É um cargo que o tucano perseguiu por muitos anos e para o qual sempre se julgou especialmente talhado. Esteve próximo de ser ministro da Fazenda de todos os governos desde a redemocratização, em 1985. Em 1992, no governo de Itamar Franco, teve sua grande chance. Logo depois de assumir o Ministério das Relações Exteriores, Fernando Henrique indicou-o para a pasta da Fazenda. Itamar convocou-o para uma conversa. Na audiência, Serra falou de tudo, de política, economia, de outras áreas do governo. Itamar desistiu e comunicou sua decisão a Fernando Henrique. "Seu amigo não quer ser ministro da Fazenda, quer ser presidente da República", disse.

Sim, Serra sempre quis ser presidente da República, tanto que lutou encarniçadamente para sagrar-se candidato presidencial pelo PSDB, mas a conversa com Itamar revela também outra faceta de seu modo de atuar. É sua incontrolável inclinação para opinar e influir em todas as áreas possíveis, e não apenas no terreno sob seu domínio direto. Quando ocupava o Ministério da Saúde, Serra acompanhava em detalhes a condução de outros ministérios. Costumava distribuir conselhos a diversas áreas, especialmente ao ministro do Desenvolvimento, Alcides Tapias, e depois a seu sucessor, Sérgio Amaral. Já no dia em que assumiu seu novo posto, Sérgio Amaral recebeu um longo telefonema de Serra. O colega da Saúde decidira lhe ministrar um curso intensivo sobre tudo o que deveria fazer com o objetivo de aumentar as exportações. Falou tanto tempo que Amaral, cansado de ouvir tantos conselhos, de vez em quando afastava o telefone do ouvido, punha a mão sobre o bocal para não ser ouvido do outro lado da linha e, em tom de blague, dizia aos assessores que estava numa aula.

No governo Fernando Henrique, talvez Serra só tenha nomeado menos gente que o próprio presidente. Emplacou a indicação de pelo menos sete ministros. Toda vez que sabe que uma vaga está se abrindo, ele tem um nome no bolso do colete. A rapidez com que espalha tentáculos a sua volta decorre do fato de que Serra é um eterno batalhador por influência e um contumaz defensor de suas posições. Se preciso, arregimenta até a oposição. No Ministério da Saúde, achou que o governo deveria estender as imposições da Lei de Responsabilidade Fiscal também ao Banco Central. Foi voto vencido dentro do governo, mas, quando o projeto chegou ao Congresso para ser analisado, Serra passou a municiar a oposição, incluindo até os deputados do PC do B. Em outro episódio, empenhado em fazer com que seu ministério recebesse mais verbas no Orçamento, pediu ao amigo Martus Tavares, então secretário executivo do Planejamento, que produzisse a prova da necessidade: um relatório sobre a evolução dos gastos com a saúde. O relatório acabou diligentemente nas mãos de jornalistas e dos membros do Conselho Nacional de Saúde, serviu para fundamentar críticas ao corte de gastos na área social e ajudou a fortalecer a tese de Serra. Naquela ocasião, Serra quase perdeu o emprego. Num momento raro de fúria, irritado com a manobra, Fernando Henrique censurou Martus Tavares e até cogitou demitir Serra.


Ana Araujo
NO ESTÚDIO
Serra, durante a gravação de um dos programas do horário eleitoral: suas decisões são precedidas de exaustivas análises sobre chances de sucesso e riscos de fracasso

Empenhado no predomínio de suas idéias, o tucano está sempre acompanhado de um batalhão de assessores. Tem habilidade para formar equipes, cerca-se de talentos, exige disciplina e cobra suprema lealdade. Na Constituinte, na qual exerceu seu primeiro mandato de deputado, dispunha de uma enorme infantaria de assessores, incluindo técnicos do calibre de Pedro Parente, que mais tarde viria a ser ministro-chefe da Casa Civil, e Andrea Calabi, que ocupou a presidência do BNDES. Com isso, foi o deputado mais produtivo, com 130 emendas aprovadas. Apesar das assessorias gigantes, Serra é um centralizador. Quando foi secretário do Planejamento de São Paulo, entre 1983 e 1986, nomeou os diretores financeiros de todas as estatais. Na Saúde, criou a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), só para tirar do Ministério da Fazenda a responsabilidade pelos reajustes em planos de saúde. Pela lei, a ANS é independente e toma decisões de forma colegiada. Com Serra, não. Ele monitorava as decisões relevantes e até convocava a diretoria inteira da agência para despachar em Brasília.

Serra não é um homem criativo, não funciona como uma usina de idéias novas. Seu forte é perceber que uma determinada idéia tem bom potencial e arregaçar as mangas de forma incansável para colocá-la em prática. Quando precisa tomar uma decisão técnica, seu método preferido é contrapor opiniões divergentes sobre um mesmo assunto e posicionar-se como juiz. Nessa simulação de tribunal, Serra interfere, não economiza intervenções até agressivas, desqualifica posições que julga irrelevantes e com freqüência usa frases prediletas, como "Isso não tem nada a ver". Recorre tanto ao contraditório que, quando ninguém defende uma posição diferente, ele mesmo exerce o papel de bombardear a unanimidade. Ao se preparar para os debates eleitorais na televisão, por exemplo, o próprio candidato sabatinava os assessores como se fosse um adversário – e os assessores respondiam como se fossem o candidato. Serra só parava com a simulação quando concluía que a resposta dos assessores não dava margem para ser rebatida. "Ele detesta puxa-saco. Fica inseguro com o assessor cordeirinho", define Andrea Calabi, o ex-presidente do BNDES.

Outra característica de seu modo de agir é fazer aterrissar sobre a mesa de colegas e assessores bilhetinhos manuscritos com orientações, pedidos, tarefas ou críticas – elogios, quase nunca. Não são raros os bilhetes com frases do tipo: "Este texto está um lixo", ou "Como alguém pode escrever isso?" ou, então, apenas "Francamente!!!!!", assim mesmo, com vários pontos de exclamação. As censuras são tão freqüentes que os assessores guardam e às vezes até pregam no mural, como se fossem comentários elogiosos, os papeluchos em que Serra escreve "o.k." ou "Assim pode fazer". A prática dos bilhetinhos não dispensa ninguém. Mandava-os para o ministro da Fazenda, Pedro Malan, mesmo nos momentos em que ambos viviam às turras, com divergências que acabavam tornando o diálogo quase insustentável. Até o presidente Fernando Henrique era destinatário de seus recados escritos. No período em que foi ministro do Planejamento, de 1995 a 1996, Serra escrevia bilhetes ou cartas ao presidente pelo menos uma vez por semana.

"Entendo melhor as coisas quando leio", explica ele. Além disso, o presidenciável acha que os bilhetes são mais efetivos para quem os recebe. "Numa conversa, as palavras ficam no vento", diz. A prática de distribuir manuscritos foi inspirada em Winston Churchill, primeiro-ministro da Inglaterra na II Guerra Mundial, por quem Serra devota uma grande admiração. O candidato detesta, porém, quando seu interlocutor lembra que o ex-presidente Jânio Quadros também gostava de bilhetinhos. Serra acha que Jânio procedia assim apenas para fazer gênero – no seu caso, é estilo e necessidade. É impossível compreender as decisões e ações de Serra sem saber que ele tem a si próprio em alta conta. Julga-se bom em tudo – bom político, bom economista e bom técnico de futebol, a ponto de polemizar em público, como fez recentemente, com Luiz Felipe Scolari. Acha até que é bom dançarino. Diz que samba melhor que sua mulher, a chilena Mônica Allende, que já pertenceu ao grupo de primeiras-bailarinas do Balé Nacional do Chile. Sua vantagem, diz ele, é que sabe dançar "saltadinho".


Fotos Ana Araujo
ssoal
Arquivo pessoal
CENAS DE FAMÍLIA
No alto, o Mercado Municipal de São Paulo, onde o pai de Serra vendia frutas. Acima, à esquerda, uma foto recente de sua mãe, dona Serafina, que até hoje mora no bairro da Mooca. À direita, foto de álbum de família em que Serra aparece com os pais

O presidenciável tucano guarda uma enorme ambição. Por isso mesmo, toma decisões de olho no ibope, na popularidade que tal ou qual caminho pode render-lhe. E, durante anos a fio, até finalmente ser candidato a presidente, não dava um passo sem antes ponderar se uma determinada decisão poderia vir um dia a prejudicar suas pretensões presidenciais. Já em 1994, Serra começou a viver às turras com Ciro Gomes, então filiado ao PSDB, ao perceber que o ex-tucano poderia transformar-se num rival na corrida pela Presidência da República. Em 1996, quando deixou o Ministério do Planejamento para disputar a prefeitura de São Paulo, também tinha uma preocupação presidencial. Supunha que seria arriscado trocar um cargo nacional, com visibilidade em todo o país, por um posto de âmbito municipal. A mudança poderia reduzir sua estatura política, temia.

A firmeza com que foi neutralizando possíveis competidores também se dá de forma racional e calculada. De origem modesta, filho de imigrantes italianos, seu pai só foi alfabetizado na juventude e achava que o filho não precisava cursar a universidade. Serra, porém, jamais abandonou os estudos e chegou a entrar na Escola Politécnica de São Paulo, onde começou o curso de engenharia, interrompido com o exílio depois do golpe militar de 1964. Dos tempos de professor de matemática e estudante de engenharia, Serra traz o hábito de ser frio e calculista nas decisões. Ou, tecnicamente, faz "aproximações sucessivas", método em que se experimentam várias equações para descobrir qual delas pode ser usada na solução do problema. No ano passado, as "equações" de Serra eram: concorrer ao Senado ia, interrompido com o exílio depois do golpe militar de 1964. Dos tempos de professor de matemática e estudante de engenharia, Serra traz o hábito de ser frio e calculista nas decisões. Ou, tecnicamente, faz "aproximações sucessivas", método em que se experimentam várias equações para descobrir qual delas pode ser usada na solução do problema. No ano passado, as "equações" de Serra eram: concorrer ao Senado novamente, ao governo de São Paulo ou ao Palácio do Planalto. Ouviu poucos amigos: Fernando Henrique, o senador Artur da Távola e dona Ruth Cardoso, com quem Serra julga ter mais afinidade política do que com o próprio presidente.

A "solução do problema", naturalmente, foi concorrer ao Palácio do Planalto, mesmo porque Serra se via como sucessor de Fernando Henrique desde que o presidente conquistou seu primeiro mandato, na eleição de 1994. No fim do ano passado, já decidido a tentar a Presidência, o tucano passou uma temporada com a família no sul da França e, ali, definiu todo o seu calendário: da data do anúncio da candidatura à da saída do ministério. Com determinação férrea, como faz sempre que toma uma decisão, passou a lutar para cumprir o calendário, removendo todos os obstáculos à frente. Agora, com sua candidatura presidencial, Serra sabe que tem um desafio e tanto. É um político que adora trabalhar no Executivo, mandar e formar equipes, mas jamais conseguiu arrancar um mandato nas urnas para administrar uma cidade ou um Estado. Foi o quarto deputado mais votado em São Paulo em 1986, o mais votado em 1990 e obteve uma votação consagradora em 1994 como candidato ao Senado: 6,5 milhões de votos. Mas, nas duas vezes em que disputou cargos executivos – a prefeitura de São Paulo, em 1988 e 1996 –, o resultado foi o contrário do que ele esperava.

 



   
 
   
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