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Edição 1 772 - 9 de outubro de 2002
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Gustavo Franco

Saudades de
Fernando Henrique

"As reformas feitas por FHC beneficiaram
maiorias desorganizadas e dispersas em
todo o território nacional em detrimento
de minorias privilegiadas"


Ilustração Ale Setti


Não sei quem vai ganhar as eleições, tampouco a quem vou confiar meu voto. Tinha uma inclinação para um candidato, mas de tanto ele dizer que "o Brasil está de joelhos diante da agiotagem internacional" desisti e regredi para a contagiosa companhia dos indecisos e insatisfeitos com as alternativas. Com efeito, a julgar pelo que dizem os candidatos sobre a economia, e pelos movimentos de nosso presidente, o único sentimento que me assalta é o que dá título a este artigo.

Não creio que a história do governo FHC esteja sendo bem contada nesta campanha em que nenhum dos candidatos o representa, e todos falam em mudança como se o governo que se encerra tivesse sido o de "não-mudança". É verdade que o segundo mandato foi árido em reformas e muito diferente do primeiro, este concentrando um volume possivelmente inigualável em matéria de transformações no país: estabilização, abertura, desregulamentação, privatização, saneamento do sistema bancário, a volta do investimento direto, o crescimento da produtividade, a reforma na Previdência e o conceito de responsabilidade fiscal.

Cada um desses processos ensejou uma revolução em nossa economia, e todos foram conduzidos na plenitude democrática, com os consensos devidos e com as broncas inevitáveis, que atestam a profundidade das mudanças. Mas o sucesso de público é indiscutível, a julgar pelas vitórias eleitorais consagradoras de FHC, eleito e reeleito no primeiro turno, como nenhum outro presidente brasileiro.

Antes mesmo de se iniciar o segundo mandato, porém, FHC já se declarava cansado do que chamava de "ditadura dos 2/3". O "mercado" nunca estava satisfeito, ele dizia, e com razão, pois o entendimento desta entidade era o de que o processo estava pela metade. As queixas vinham, portanto, de quem queria mais reformas, e também dos inconformados com as reformas já feitas.

O presidente sabe que o progresso produz vítimas inocentes das quais é preciso cuidar, e vítimas que são culpadas mesmo. As reformas feitas por FHC tinham em comum o fato de beneficiar maiorias desorganizadas e dispersas em todo o território nacional em detrimento de minorias privilegiadas e militantes, sempre próximas de Brasília e incansáveis em seu ânimo de espernear. Ainda que minoritários, os descontentes com a transformação do Brasil em uma economia de mercado moderna formam uma incômoda legião de detratores do presidente. Do jornalista que perde sua "boquinha" num banco estadual privatizado aos potentados industriais dependentes de "política industrial", passando pelo trabalhador paulista que viu seu emprego migrar para Sobral, todos se unem em um mal-estar com as mudanças, normal em qualquer episódio de rápida transformação, mas que desgasta a liderança.

No Brasil, em particular, esse desgaste é mais forte que em outras partes, pois aqui sempre fomos uma sociedade fundada sobre o privilégio, onde nunca existem derrotados na arena econômica, apenas vítimas da ação do Estado, injustiçados pelo soberano, que tudo pode, de modo que não há fracasso privado, só o provocado pelo governo e merecedor de indenização. A sociedade do privilégio é também uma sociedade de pensionistas, ou de funcionários públicos, como me sugeriu um leitor.

Passada a eleição, afastados os publicitários e o véu que colocaram sobre a realidade do país, o novo presidente terá diante de si desafios monumentais, pois não existem fórmulas fáceis para melhorar o Brasil. O novo presidente terá a seu favor o fato de que a parte mais difícil do trabalho necessário para construir uma economia de mercado forte já está bem avançada.

O primeiro e mais duro teste para o novo presidente, no qual se não obtiver sucesso todo o resto ficará viciado, talvez seja enfrentar uma tradição brasileira, quem sabe uma maldição, que consiste em negar qualquer mérito a seus antecessores. Começará muito bem o novo presidente se esquecer a retórica de campanha e reconhecer que começa a trabalhar, usando a imagem de Isaac Newton, sobre os ombros de um gigante.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com; www.gfranco.com.br)


 
 
   
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