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Gustavo
Franco
Saudades de
Fernando Henrique
"As
reformas feitas
por FHC beneficiaram
maiorias desorganizadas e dispersas em
todo o território nacional em detrimento
de minorias privilegiadas"
Ilustração Ale Setti
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Não sei quem vai ganhar as eleições, tampouco a quem
vou confiar meu voto. Tinha uma inclinação para um candidato,
mas de tanto ele dizer que "o Brasil está de joelhos diante da
agiotagem internacional" desisti e regredi para a contagiosa companhia
dos indecisos e insatisfeitos com as alternativas. Com efeito, a julgar
pelo que dizem os candidatos sobre a economia, e pelos movimentos de nosso
presidente, o único sentimento que me assalta é o que dá
título a este artigo.
Não
creio que a história do governo FHC esteja sendo bem contada nesta
campanha em que nenhum dos candidatos o representa, e todos falam em mudança
como se o governo que se encerra tivesse sido o de "não-mudança".
É verdade que o segundo mandato foi árido em reformas e
muito diferente do primeiro, este concentrando um volume possivelmente
inigualável em matéria de transformações no
país: estabilização, abertura, desregulamentação,
privatização, saneamento do sistema bancário, a volta
do investimento direto, o crescimento da produtividade, a reforma na Previdência
e o conceito de responsabilidade fiscal.
Cada um
desses processos ensejou uma revolução em nossa economia,
e todos foram conduzidos na plenitude democrática, com os consensos
devidos e com as broncas inevitáveis, que atestam a profundidade
das mudanças. Mas o sucesso de público é indiscutível,
a julgar pelas vitórias eleitorais consagradoras de FHC, eleito
e reeleito no primeiro turno, como nenhum outro presidente brasileiro.
Antes mesmo
de se iniciar o segundo mandato, porém, FHC já se declarava
cansado do que chamava de "ditadura dos 2/3". O "mercado" nunca estava
satisfeito, ele dizia, e com razão, pois o entendimento desta entidade
era o de que o processo estava pela metade. As queixas vinham, portanto,
de quem queria mais reformas, e também dos inconformados com as
reformas já feitas.
O presidente
sabe que o progresso produz vítimas inocentes das quais é
preciso cuidar, e vítimas que são culpadas mesmo. As reformas
feitas por FHC tinham em comum o fato de beneficiar maiorias desorganizadas
e dispersas em todo o território nacional em detrimento de minorias
privilegiadas e militantes, sempre próximas de Brasília
e incansáveis em seu ânimo de espernear. Ainda que minoritários,
os descontentes com a transformação do Brasil em uma economia
de mercado moderna formam uma incômoda legião de detratores
do presidente. Do jornalista que perde sua "boquinha" num banco estadual
privatizado aos potentados industriais dependentes de "política
industrial", passando pelo trabalhador paulista que viu seu emprego migrar
para Sobral, todos se unem em um mal-estar com as mudanças, normal
em qualquer episódio de rápida transformação,
mas que desgasta a liderança.
No Brasil,
em particular, esse desgaste é mais forte que em outras partes,
pois aqui sempre fomos uma sociedade fundada sobre o privilégio,
onde nunca existem derrotados na arena econômica, apenas vítimas
da ação do Estado, injustiçados pelo soberano, que
tudo pode, de modo que não há fracasso privado, só
o provocado pelo governo e merecedor de indenização. A sociedade
do privilégio é também uma sociedade de pensionistas,
ou de funcionários públicos, como me sugeriu um leitor.
Passada
a eleição, afastados os publicitários e o véu
que colocaram sobre a realidade do país, o novo presidente terá
diante de si desafios monumentais, pois não existem fórmulas
fáceis para melhorar o Brasil. O novo presidente terá a
seu favor o fato de que a parte mais difícil do trabalho necessário
para construir uma economia de mercado forte já está bem
avançada.
O primeiro
e mais duro teste para o novo presidente, no qual se não obtiver
sucesso todo o resto ficará viciado, talvez seja enfrentar uma
tradição brasileira, quem sabe uma maldição,
que consiste em negar qualquer mérito a seus antecessores. Começará
muito bem o novo presidente se esquecer a retórica de campanha
e reconhecer que começa a trabalhar, usando a imagem de Isaac Newton,
sobre os ombros de um gigante.
Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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