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Homenagem a um
brasileiro lúcido
Recordemos
José Bonifácio, o patriarca que ousou
projetar o Brasil para muito além da independência
Pela integração
dos brasileiros, com justiça. Pela inclusão dos
excluídos. Pela reforma agrária. Pela afirmação do
Estado contra os interesses privados. Pela racionalidade
na produção. Parece plataforma de candidato na
eleição deste ano, mas, na verdade, é a plataforma de
alguém que foi candidato a colocar o Brasil nos eixos
há 176 anos, quando iniciávamos a vida independente
José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), o
chamado "Patriarca da Independência".
O pensamento de
José Bonifácio sobre a pátria que ajudou a fundar é
surpreendentemente atual. Os brasileiros, escreveu, são
"generosos, mas com bazófia; capazes de grandes
ações, contanto que não exijam atenção aturada e
não requeiram trabalho assíduo e monotônico".
José Bonifácio refletiu a vida inteira em como melhorar
o tacanho país onde lhe coube nascer. Às vezes
expressava otimismo "...conheço o que pode e
deve (o Brasil) vir a ser um dia, se tivermos
juízo". Outras, desalento: "Onde está uma
aristocracia (hoje se diria 'elite') rica e
instruída? Onde está um corpo de magistratura honrado e
independente? E que pode um clero imoral e ignorante?
(...) A catástrofe é inevitável".
Como estamos no 7
de Setembro, homenageamos este brasileiro lúcido. Uma
boa amostra de seu pensamento está num livro saído não
há muito, José Bonifácio de Andrada e Silva
Projetos para o Brasil, com organização e
introdução da pesquisadora Miriam Dolhnikoff (Companhia
das Letras). A pedra de toque do projeto Bonifácio para
o Brasil era um fator tão óbvio quanto pouco levado em
conta os brasileiros. Não se faz um país sem
gente vivendo com um mínimo de paz, prosperidade e
harmonia dentro dele. Ora, pensar em que sementeira se
criavam os brasileiros, na época, era pensar na
escravidão, tão determinante na vida dos escravos como
na dos escravizadores, tão humilhante para os primeiros
como geradora, nos segundos, de maus hábitos sociais e
econômicos.
Ao pensar na
escravidão, José Bonifácio foi escandaloso, de tão
avançado. Num projeto apresentado à Assembléia
Constituinte de 1823 propôs, em primeiro lugar, a
abolição do tráfico o comércio transoceânico
de pessoas no qual o Brasil era campeão. "É
preciso que não venham mais a nossos portos milhares e
milhares de negros, que morrem abafados nos porões dos
nossos navios (...); é preciso que cessem de uma vez
todas essas mortes e martírios sem conta, com que
flagelávamos e flagelamos ainda esses desgraçados em
nosso próprio território", escreveu. Abolido o
tráfico, se faria a abolição da própria escravidão,
de forma gradual, observado um período intermediário em
que se estabeleceriam normas para o regime de trabalho
dos escravos, como delimitação da jornada diária e
restrições à exploração das mulheres e crianças.
Sobretudo, as infrações dos escravos passariam a ser
julgadas e punidas pelo poder público, não mais pelos
senhores. Muito antes da campanha abolicionista, ele
procurava conferir urgência a questões que
atravancariam a agenda do país até quase o fim do
século.
Bonifácio não
deve ser confundido com um simples pregador humanitário.
Era um homem de Estado, acima de tudo, e ao propor
medidas como tirar do fazendeiro o direito de julgar e
punir o escravo estava preocupado, como escreve Miriam
Dolhnikoff, no livro citado, com "a extrema
dificuldade do poder público em transpor as porteiras
das fazendas e impor-se ao poder privado". O mesmo
propósito o movia quando atacava o latifúndio,
prevendo, entre outras medidas, o confisco de terras
ociosas e sua distribuição a colonos e ex-escravos.
Não fazia isso apenas em nome da melhor distribuição
das riquezas, ou do engajamento de um maior número de
pessoas na sorte do novo país. Também o inspirava a
convicção de que só acuando o latifúndio faria
avançar a primazia do Estado.
José Bonifácio
perdeu. Sua carreira política, entre ministro e
deputado, durou só dois anos, de 1821 a 1823. No fim de
1823, ao ser dissolvida a Constituinte, foi preso e
deportado para a França. Em 1831 retornou como tutor do
herdeiro do trono, dom Pedro II, mas dois anos depois, de
novo em desgraça, foi destituído desse cargo, e passou
o resto da vida confinado na Ilha de Paquetá. Os
contemporâneos o consideravam arrogante e prepotente.
Mas seu maior pecado terá sido o de ler o Brasil ao
reverso do que se julgava conveniente.
Não era um
carbonário, muito menos um socialista. Sugeria mudanças
que, a seu ver, resultariam em benefício também dos
mais privilegiados, que ganhariam em civilização e
estabilidade de seus empreendimentos. Mas o que, para
ele, era investimento, outros interpretavam como
confisco. Como diz Miriam Dolhnikoff, oferecia "um
futuro mais glorioso a uma elite que desejava apenas um
presente mais lucrativo". O latifúndio e a
escravidão se prolongaram e perderam o século XIX para
o Brasil. Se os pontos de vista de José Bonifácio
tivessem prevalecido talvez hoje habitássemos um país
diferente.

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