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A taça do teclado
Concursos
de piano são como a Copa do Mundo:
firmam reputações, mas às vezes o juiz rouba
Arnaldo
Cohen

Todos os anos,
3.000 jovens pianistas do mundo inteiro lutam por um
lugar ao sol. Num mercado em que a oferta é maior do que
a procura, a seleção torna-se inevitável, fazendo
crescer a indústria de concursos de piano. Entre os mais
prestigiados figura o Busoni, que está em andamento na
Itália. No total, são 400 certames internacionais que
envolvem a participação de mais de 700 jurados e criam
o cobiçadíssimo campo do "judiciário
musical". O primeiro concurso internacional de piano
nasceu em São Petersburgo em 1890. Foi dedicado ao
lendário russo Anton Rubinstein e era aberto somente a
concorrentes do sexo masculino. A história mostra que
nem sempre vence o melhor. O pianista Ferruccio Busoni,
por exemplo, que dá nome ao evento que ora se realiza,
foi eliminado dessa primeira competição. Vinte anos
depois, foi a vez de o polonês Arthur Rubinstein voltar
para casa de mãos vazias. Em 1938, o fenomenal Arturo
Benedetti Michelangeli foi agraciado com um modesto
sétimo lugar no Concurso Ysaÿe, em Bruxelas. Fez-se
justiça no ano seguinte, quando ele venceu de maneira
espetacular o Concurso de Genebra, uma competição que,
em sua fase eliminatória, obriga os pianistas a tocar
atrás de uma cortina, para que não possam ser
identificados. Após a prova de Michelangeli e
contrariando o regulamento, o jurado Alfred Cortot abriu
a cortina e declarou: "Senhores, eis o novo Franz
Liszt!"
Esses certames
musicais também foram afetados pela Guerra Fria. O
Concurso Tchaikovsky, realizado em Moscou, foi
"desenhado" em 1958 para demonstrar a
supremacia cultural da União Soviética. Com o
favoritismo do americano Van Cliburn, os soviéticos
entraram em pânico e Nikita Kruschev teve de ser
consultado. O premiê acabou dando o seu aval à vitória
de Van Cliburn, e o "americano que venceu os
russos" ganhou o direito de desfilar em carro aberto
na Quinta Avenida, em Nova York. No dia seguinte, o sonho
de qualquer estudante de piano era vencer em Moscou, mas
a "superioridade" soviética já tinha sido
restabelecida. O professor inglês James Gibb conta que,
quando foi jurado, em 1990, recebeu o pedido de uma
autoridade para que ouvisse um aluno do conservatório
local. Por uma hora de aula, recebeu 1.000 dólares em
envelope lacrado. "Devolvi e denunciei o caso",
comentou Gibb ao descobrir que o rapaz era candidato. Com
o desabamento da Cortina de Ferro, a política cedeu
lugar à corrupção sem idealismo. Em julho deste ano,
"Concerto para máfia e orquestra" foi a
manchete do jornal moscovita Cosmopolitan ao
revelar "um nível de corrupção jamais atingido
nos quarenta anos de história da competição". O
acusado pela maracutaia musical é o professor e
mandachuva do evento, Sergei Dorensky. "A máfia
sabe o que faz", continua o jornal, referindo-se ao
resultado claramente manipulado por juízes e amigos de
Dorensky. Dois de seus alunos receberam os primeiros
lugares e, ao favorito da crítica e do público, o
inglês Freddy Kempf, de 21 anos, restou a ovação da
platéia e um minguado terceiro lugar.
Cinco
décimos Julgar pode ser compensador. A
remuneração de um juiz chega a 8.000 dólares, além de
ter todas as despesas pagas. Neste ano, o professor
italiano Marcello Abbado, um dos protagonistas da
epopéia russa, deverá entrar para o Guinness Book
com o recorde absoluto de 101 júris. Ser "jurado
profissional" significa também viajar, capitalizar
prestígio e economizar em contas de luz e supermercado.
"Se você me convidar para o seu concurso, eu
convido você para o meu" ou "vote no meu
aluno, que eu voto no seu" são frases habitualmente
ouvidas nos bastidores. Por isso, a importância de um
primeiro prêmio é sempre proporcional à qualidade e à
integridade daqueles que o outorgam. É graças a jurados
competentes que o mundo pode ouvir pianistas do calibre
de Martha Argerich e Kristian Zimmerman.
Os eventos duram de
duas a três semanas, consistem normalmente em quatro
provas e recebem centenas de inscrições. Os
participantes, com idade entre 16 e 32 anos, tocam obras
de um ou vários compositores e os finalistas podem
receber, além de concertos, até 20.000 dólares. O
russo Igor Kamenz detém a marca mundial de 32 prêmios
em 83 competições. Na realidade, um concurso é somente
uma vitrine. Como disse a pianista Guiomar Novaes,
"o mais difícil não é conquistar o cetro e a
coroa, e sim carregá-los". Talento, preparo
acadêmico e técnica são pré-requisitos fundamentais
para o sucesso. Além de "sorte, sorte e
sorte", dizia o pianista Arthur Rubinstein. Foi o
que faltou ao brasileiro Arthur Moreira Lima em 1965. O
talentoso pianista era o grande favorito do Concurso
Chopin, em Varsóvia, mas teve a infelicidade de ter como
concorrente a genial Martha Argerich. Não ganhou por uma
diferença de somente cinco décimos. Num concerto, o
artista tem de dar o seu melhor e, num certame, tocar
melhor do que os outros. Como no esporte, o sucesso
depende da saúde física e mental. Sem falar na
inspiração com hora marcada. Ronaldinho que o diga.
Ainda bem que a temperatura emocional de um povo não
depende da performance de um pianista.

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