Na alça de mira

Com o aumento da violência, a sociedade
cria alternativas para se proteger

O assaltante de
banco Beto Xerém:
prisão graças à
recompensa
por denúncia
Foto: Reprodução  

Um estudo recente da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal ofereceu um diagnóstico desalentador sobre a violência no país. Nesta década, os índices de criminalidade vêm crescendo num ritmo contínuo no Rio de Janeiro, em São Paulo e no Recife, além de outras oito capitais. A boa nova é que o aumento da violência fez crescer na mesma proporção a participação da sociedade na busca de soluções. O cidadão comum, refém da inoperância do Estado nessa área, foi à luta. "Rico, antes, achava que só morria de infarto. Os seqüestros e os crimes nos sinais de trânsito fizeram com que a elite passasse a investir em projetos contra a violência", afirma o secretário Nacional de Direitos Humanos, José Gregori.

Uma parte desse investimento foi usada na criação do Disque-Denúncia, um serviço colocado há três anos no Rio de Janeiro por empresários e profissionais liberais aflitos com a violência cada vez mais próxima de suas famílias. Seu funcionamento é simples. Ao contrário do 190, o número de emergência da polícia, quem telefona para o Disque-Denúncia tem a proteção do anonimato garantido por regras leoninas. É coordenada pela Associação Rio contra o Crime, ONG formada para carrear os cerca de 800.000 reais anuais que os empresários investem no serviço. Em troca, obtêm resultados: as mais de 190.000 informações recebidas já ajudaram a resolver dezesseis casos de seqüestro e 7.000 delitos, entre furtos de carros, assaltos a bancos, cargas e mesmo pequenos roubos na saída dos bancos (veja os principais casos). A maior participação da população também é o segredo da Polícia Interativa, mantida pela Polícia Militar do Espírito Santo. Criado há quatro anos, o programa, que também conta com uma rede de telefones exclusiva e urnas para receber informações, reduziu em 33% os índices de violência da região central de Vitória. O mesmo projeto vem sendo testado com sucesso em bairros violentos da Grande Recife.

Guarda particular — Iniciativas assim são sempre mais consistentes. Há outras, inevitáveis, mas com riscos maiores. Com a credibilidade da polícia em baixa, aumentaram as contratações de segurança privada. Segundo estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, Ipea, o número de empregados nessa área mais do que dobrou nos últimos dez anos. Fosse apenas fruto da terceirização dos serviços das empresas, esse crescimento não chegaria à metade. Há hoje um exército de 422.000 guardas particulares nas ruas, contra apenas 200.000 policiais. Embora existam empresas sérias nesse ramo, nos últimos anos aumentaram exponencialmente as tragédias causadas pela falta de profissionalismo dos seguranças privados.

Essa quebra do monopólio estatal do uso da força é uma aposta arriscada. Foi justamente desarmando a população e recuperando a eficiência da polícia, com seu projeto de tolerância zero, que o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, baixou em 73,6% o número de homicídios nos últimos sete anos. Na fórmula nova-iorquina, usa-se mais inteligência do que munição. A comunidade participa no debate das prioridades e com alertas aos policiais. Seguir caminho semelhante significa o resgate da esperança para os brasileiros que transitam entre a violência de suas cidades.

O estudante Anderson Ribeiro passou oito dias seqüestrado em um hotel. Alguém desconfiou e avisou o Disque-Denúncia

Filha do empresário Antonio Dias Leite, a estudante Carolina Dias Leite foi salva em dois dias. Um vizinho do cativeiro notou a agitação

Em 1997, o empresário Moyses Leão Struchier foi seqüestrado e ficou preso dentro de uma geladeira. Um telefonema deu pistas à polícia

Ronaldo França




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