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"Pane! Pane! Pane!"
Queda de
avião da Swissair, com 229 mortos,
desafia os manuais sobre segurança aérea
Ricardo
Villela
Para quem tem medo de
avião, o desastre que matou 229 pessoas no vôo 111 da
Swissair, na quarta-feira passada, na costa leste do
Canadá, dá motivos mais do que suficientes para ficar
em casa. Entre as diversas crenças a respeito da
segurança aérea, a primeira é de que se deve escolher
uma companhia eficiente. A Swissair, fiel à tradição
de qualidade suíça, sempre foi uma das mais seguras,
com uma das menores taxas de acidentes do mundo (veja
quadro acima). Nunca havia passado por uma tragédia
dessas proporções: o último acidente fatal envolvendo
a empresa foi o deslizamento de um DC-8 ao pousar na
pista de Atenas, na Grécia, que provocou a morte de
catorze passageiros há quase duas décadas. Diz também
o manual que o passageiro deve dar preferência a aviões
modernos. O aparelho que mergulhou nas águas frias da
Baía de Santa Margarida, quando tentava rumar para um
pouso de emergência no aeroporto da cidade de Halifax,
era um MD-11, um dos aviões mais novos e seguros do
planeta. Lançado ao ar pela primeira vez em 1990, o
MD-11 tem três turbinas, uma em cada asa e outra na
cauda, e até a semana passada era considerado um
aparelho quase inabalável. Sucessor do DC-10, fabricado
pela McDonnell Douglas, comprada pela Boeing em 1996,
trata-se de um avião tão potente que um de seus
principais usos é o transporte de cargas. Até agora,
nenhum dos 178 MD-11 já vendidos (dezoito para empresas
brasileiras) havia caído. Por fim, o acidente com o
avião da Swissair desafia outra estatística: de que 95%
dos desastres aéreos ocorrem durante o pouso ou a
decolagem. Tudo indica que o problema, de acordo com as
conversas entre controladores de tráfego aéreo e o
piloto, o suíço Urs Zimmermann, de 50 anos, começou em
pleno vôo de cruzeiro, com uma pane elétrica na cabine.
"O tempo
estava bom, a Swissair é uma companhia de grande
tradição em treinamento e manutenção, o MD-11 é
moderníssimo, a costa canadense é excepcionalmente
coberta pelos radares e o avião já havia passado da
fase crítica do vôo", diz o comandante de MD-11 e
gerente-geral de operações da Vasp, Jorge Gabriel Isaac
Filho. "Fica difícil imaginar as causas de um
acidente como esse." Até a sexta-feira passada, uma
grande operação de busca, que incluía 1.500 pessoas,
entre policiais canadenses, marinheiros da patrulha
naval, pescadores voluntários e até um submarino, não
havia conseguido localizar pedaços grandes do avião.
Durante dois dias, prejudicados pelo mau tempo que chegou
depois do acidente, tudo o que os homens do resgate
haviam encontrado era um rastro de combustível sobre as
águas, grande quantidade de detritos, pequenos pedaços
da aeronave, pertences dos passageiros e seis dezenas de
corpos, muitos deles mutilados. "É chocante,
terrível", disse Rick Town, oficial da Marinha
canadense que participou das buscas. "As vítimas
estão de tal maneira mutiladas que não dá sequer para
falar em número de corpos."
Mistérios
Sobretudo, o que a operação de resgate buscava na
semana passada era localizar as caixas-pretas com as
informações de vôo. Trata-se de peças fundamentais
para entender as causas do acidente. Cerca de 30% dos
desastres com jatos nos últimos dez anos nunca foram
devidamente esclarecidos. Alguns deles se tornam
verdadeiros mistérios, como a explosão do Jumbo da
Trans World Airlines, a TWA, em 1996. Retirado pedaço
por pedaço do fundo do mar por mergulhadores, o avião
foi inteiramente reconstruído, numa investigação que
custou mais de 10 milhões de dólares. A causa do
acidente não foi determinada, embora exista a suspeita
de que tenha sido um curto-circuito na fiação elétrica
dentro do tanque de combustível. O caso da TWA tem
muitas semelhanças com o desastre da semana passada, e
até algumas estranhas coincidências. O MD-11 da
Swissair levantou vôo do mesmo aeroporto (John
Fitzgerald Kennedy, JFK, em Nova York). O dia da semana
também, quarta-feira, assim como a hora da decolagem
(20h17). O número de passageiros é quase igual: no vôo
da TWA, morreram 230 pessoas, uma a mais que no da
Swissair. Uma outra triste coincidência: foi nos mares
da costa norte canadense, a cerca de 700 quilômetros do
local onde o MD-11 caiu, que afundou o navio Titanic,
em 1912.
O que já se sabe
sobre o vôo 111 é que a tripulação foi surpreendida
pouco depois de atingir a altitude cruzeiro por sinais de
fumaça na cabine. Zimmermann avisou o serviço de
controle de vôo e pensou em fazer um pouso de
emergência em Boston, a 515 quilômetros de distância.
Chegou a manobrar em direção à cidade, mas foi
aconselhado pelos controladores a seguir para o aeroporto
de Halifax, na costa canadense, que estava a apenas um
quinto da distância de Boston. A caminho de Halifax, o
avião desceu gradualmente por onze minutos até 3.000
metros. Muitos dos corpos que foram encontrados na água
estavam vestidos com coletes salva-vidas, o que leva a
crer que durante esse período os passageiros foram
alertados a tomar precauções para o pouso de
emergência. O aeroporto de Halifax foi mobilizado de
forma a receber o MD-11 em dificuldades. Quando já
sobrevoava a província canadense da Nova Escócia, a
apenas 50 quilômetros da pista, Zimmermann mudou o curso
e fez uma longa curva para sobrevoar a costa. O motivo
seria a necessidade de descarregar os tanques de
combustível, para diminuir o risco de explosão no
pouso. Já sobre o mar, no entanto, algo subitamente
piorou. "Pane! Pane! Pane!", gritou o
comandante. Instantes depois, os habitantes de duas
pacatas cidades litorâneas, Blandford e Peggy's Cove,
ouviram um grande estrondo.
Hipótese
descartada O vôo 111, que se destinava a
Genebra, na Suíça, levava na sua maior parte
passageiros americanos, que ocupavam mais da metade dos
lugares. Como tudo indica que o avião não explodiu no
ar, desde o início os investigadores deixaram em segundo
plano a hipótese de um atentado terrorista. Essa
possibilidade era temida desde que os Estados Unidos
bombardearam supostas bases terroristas no Sudão e no
Afeganistão, três semanas atrás. Resta saber o que
seria a fumaça na cabine denunciada pela tripulação.
"Isso pode ser duas coisas", diz o comandante
da Transbrasil Breno Domingues. "Curto-circuito em
algum dos sistemas elétricos ou incêndio nos porões de
carga. Como o MD-11 tem um dispositivo que confina o fogo
nos porões, acho a primeira hipótese mais
provável." Em 1996, a Federal Aviation
Administration, órgão de fiscalização aérea
americano, já havia ordenado modificações no sistema
elétrico do painel em todos os MD-11. Um operador
detectara um cabo chamuscado no mecanismo de comando dos
flaps e do leme. O problema pode ter sido resolvido
ou não.
No
Terceiro Mundo é pior
No sábado,
dia 29, um avião da companhia Cubana de
Aviación fez no Aeroporto de Quito, no Equador,
uma corrida para a morte. Levando noventa pessoas
com destino a Havana, o velho Tupolev-154, de
fabricação soviética, não teve força para
ganhar altura, bateu em um muro e saiu em chamas
da área do aeroporto. Entre os 82 mortos,
estavam cinco crianças que jogavam futebol num
gramado vizinho. Como recomendado nas decolagens
em Quito, um lugar onde a altitude diminui a
sustentação das aeronaves, o avião da Cubana
estava mais leve saiu com apenas metade de
sua lotação. Em seu relato, contudo, os
sobreviventes contaram que a aeronave apresentava
falhas nos motores já ao entrar na pista. A
Cubana de Aviación não prima pela segurança.
Ela já era uma das duas empresas aéreas com o
maior índice de acidentes do mundo, ao lado da
AeroPeru (veja quadro abaixo), cuja taxa
de acidentes com morte é duas vezes superior à
da brasileira TAM e 35 vezes maior que a da
American Airlines.
Segundo Stuart Mathews,
presidente da Flight Safety Foundation, entidade
formada pelas companhias de aviação para vigiar
e melhorar a segurança de vôo, os países
industrializados têm 84% do tráfego aéreo
mundial e apenas 30% dos acidentes graves. Nas
nações subdesenvolvidas, onde estão 16% do
movimento aéreo civil, ocorrem 70% dos
desastres. As empresas originárias desses
países envolvem-se em acidentes com freqüência
alarmante. No ano passado, dois brasileiros
morreram em outro vôo da Cubana que ia de
Santiago de Cuba para Havana. O avião, um
Antonov-24, teve uma pane no motor esquerdo e
caiu no mar com 44 pessoas a bordo. Da frota de
33 aviões da Cubana, 22 são aparelhos russos
considerados parte da sucata que restou do antigo
bloco soviético. O Tupolev-154, um dos mais
novos da era comunista, foi lançado há trinta
anos. O Antonov saiu de linha em 1978. Mesmo
assim, todos os anos 10.000 brasileiros viajam
pela Cubana. O motivo é o preço da passagem,
que custa apenas 660 reais de São Paulo a
Havana. Um bilhete de um vôo da Varig para o
mesmo trecho sai por cerca de 1.000 reais.
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