Roberto Pompeu de Toledo
Uma virada, uma doença
e uma solução
"Tomem tento, Américas do Sul, Central e Caribe.
Para
certos males insolúveis, endêmicos à região,
acaba
de ser aberto o precedente da recolonização"
Raramente se veem reviravoltas de tal magnitude. De campeão
do biocombustível, o Brasil tornou-se o maior torcedor mundial pela sobrevivência
do petróleo. Para a universalização do uso do álcool
como fonte de energia, mobilizamos boa parte de nossas forças, dos produtores
de cana-de-açúcar ao Itamaraty, até dois anos atrás.
Era o tempo em que reinava a palavra "etanol". O auge desse período
foi a visita do então presidente George W. Bush ao Brasil, em março
de 2007, ocasião em que o presidente Lula recorreu ao melhor de sua lírica
para cantar as maravilhas do álcool combustível, e ouviu respostas
simpáticas do americano. Um pouco mais tarde naquele mesmo ano, no entanto,
uma outra palavrinha faria seu triunfal ingresso em cena "pré-sal".
Uma fabulosa quantidade de petróleo havia sido descoberta nos mares brasileiros.
Então a mensagem brasileira ficou assim: o.k., mr. Bush,
o.k., mr. Obama e todos os poderosos do mundo, o etanol é ótimo,
mas vamos com calma; segurem as pontas, deem um tempo, e pelo amor de Deus continuem
a consumir petróleo. Não sejamos tão crentes nessa conversa
alarmista de poluição e aquecimento global. Além disso,
vejam que felicidade: teremos reservas abundantes e de boa qualidade aqui deste
lado do planeta, bem longe das complicações do Oriente Médio.
O pré-sal brasileiro vai demorar no mínimo dez anos para dar o
ar de sua graça nas bombas. Enquanto isso prosseguem os investimentos
em carro elétrico, entre outras modalidades de veículo movido
a energias alternativas. Para que tanta pressa? Os bons brasileiros esperam
que o mundo continue confiando nesse meio seguro, eficiente e mais do que testado
de mover os carros que é o petróleo.
***
O novo nome do golpe, na América Latina, é "terceiro
mandato". O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, deu um importante
passo para ganhar o seu ao obter do Congresso, na semana passada, aprovação
para a realização de um plebiscito em que o povo decidirá
se a Constituição deve ser alterada para permitir a re-reeleição.
Até tu, Uribe! Até então, a febre do continuísmo
estava restrita à banda bolivariana dos dirigentes latino-americanos,
liderada pelo venezuelano Hugo Chávez, de quem Uribe é inimigo.
A soma de Uribe com os bolivarianos prova que, independentemente da ideologia,
os latino-americanos estão unidos no horror ao império da lei
acima dos homens e das instituições acima das contingências.
Há uma diferença entre os projetos continuístas
de Uribe e de Chávez. Uribe pleiteia uma reforma que permita três
eleições seguidas do mesmo candidato a presidente, e não
mais que três. Chávez foi além, e conseguiu aprovar a reeleição
sem limite. Uribe mostra-se mais modesto? Em princípio, sim, mas a ver
se, ao fim do terceiro mandato, ele não desencadeará novo movimento,
desta vez para possibilitar um quarto, e se ao fim do quarto não pleiteará
o quinto, e depois o sexto, e depois
Chávez, pelo menos, resolveu
a questão de uma só tacada. Que vergüenza, Latinoamérica,
que vergonzosa vergüenza.
***
As ilhas Turks e Caicos formam um pequeno país de cerca
de 30 000 habitantes, no Mar do Caribe. Antigos refúgios de piratas
e traficantes de escravos, desde o fim do século XVIII constituíram-se
em colônia britânica. Nos anos 70 o antigo colonizador lhes concedeu
o autogoverno. Por essa mesma época, as ilhas começaram a atrair
quantidades crescentes de turistas, seduzidos por suas maiores riquezas
o sol, o mar e as areias. Enfim, um bafo de prosperidade as beneficiava, e com
a prosperidade veio o quê? O quê? Ora, o que mais poderia ser? Veio
a corrupção viçosa, abundante, indomável.
Uma investigação britânica apurou que vários ministros
receberam suborno de empreendedores imobiliários estrangeiros, e concluiu
pela existência de "corrupção sistêmica"
no país. O primeiro-ministro, segundo a mesma investigação,
levava uma vida de "estilo hollywoodiano".
A decisão da Inglaterra, diante de tal estado de coisas,
foi iluminada: revogou o autogoverno. Em outras palavras, recolonizou Turks
e Caicos. O governador que representava a rainha Elizabeth, até há
pouco uma figura decorativa, assumiu de fato o governo. Foi uma inovadora solução
que, pensando bem
Por que não? Tomem tento, Américas do
Sul, Central e Caribe. Para certos males endêmicos, foi aberto o precedente
da recolonização.
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