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Home  »  Revistas  »  Edição 2129 / 9 de setembro de 2009


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Livros

Uma infância no inferno

Um belo romance sobre como é crescer numa sociedade totalitária


Nelson Ascher


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O romance O Rei Branco, do jovem autor húngaro György Dragomán (tradução de Paulo Schiller; Intrínseca; 256 páginas; 29,90 reais), é uma obra surpreendentemente madura e realizada sobre uma idade crucial: a passagem da infância à adolescência. Seu protagonista, Dzsáta, é um filho único de cerca de 11 anos, que vive só com a mãe num país do bloco soviético durante os anos 80, pois, pouco antes, seu pai fora preso por motivos políticos e enviado a um campo de trabalhos forçados. (O próprio autor, nascido em 1973, passou seus quinze primeiros anos na Romênia do casal Ceausescu antes de emigrar para a Hungria.) Enquanto espera o regresso não garantido do pai, o menino tenta sobreviver como pode tanto às crises típicas de sua idade, como às de um mundo particularmente impiedoso.

Como Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, filme iugoslavo de 1985 de Emir Kusturica, a história é narrada do ponto de vista do garoto, só que sem nenhuma concessão ao lirismo redentor. O autor dá a entender, desde o primeiro capítulo, que o que vai expor poderia ser chamado de Aventuras de Tom Sawyer no Inferno. Conduzido pelo fio tênue do monólogo interior, o romance compõe-se de uma sucessão de quadros que, aparentemente desconexos, terminam por descortinar o panorama de uma sociedade que, condicionada desde cima pela crueldade, multiplica-a em quase todos os encontros interpessoais. Nela, até mesmo uma partida de futebol escolar se transforma em horror porque o treinador é um sádico e o campo foi contaminado pelo acidente nuclear de Chernobyl. Nunca há ninguém a quem recorrer, nenhuma autoridade justa ou bondosa à qual reclamar. O Rei Branco retrata, com riqueza de detalhes, quanto se degrada, num universo totalitário, a vida das pessoas comuns e até que ponto muitas já combinavam em si as características da vítima e do torturador.

Uma das virtudes de Dragomán é ter conseguido capturar com precisão o modo peculiar, às vezes desinformado e imaginativo, às vezes pragmático e perceptivo, como um menino dessa idade vê o mundo em volta. O leitor sente a apreensão do protagonista, adivinha, segundos antes, a desgraça seguinte, mas nem por isso consegue evitar o sobressalto. E é em meio a sustos, trotes, surpresas desagradáveis que Dzsáta vai crescendo, preparando-se para os próximos golpes e se fortalecendo. A tradução de Paulo Schiller, que já verteu para o português muitos dos melhores romances do também húngaro Sándor Márai, preserva o ritmo exato de uma prosa cujas frases sinuosas constroem com cuidado situações elaboradas para levá-las, de forma sempre certeira, a um desfecho inesperado.

Divulgação
SEM SAÍDA
Dragomán: até jogar futebol é um horror
se o treinador é sádico e o campo está
contaminado por radiação

 

 

 

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