Livros
Uma infância no inferno
Um belo romance sobre como é crescer numa sociedade totalitária

Nelson Ascher
O romance O Rei Branco, do jovem autor húngaro
György Dragomán (tradução de Paulo Schiller; Intrínseca;
256 páginas; 29,90 reais), é uma obra surpreendentemente madura
e realizada sobre uma idade crucial: a passagem da infância à adolescência.
Seu protagonista, Dzsáta, é um filho único de cerca de
11 anos, que vive só com a mãe num país do bloco soviético
durante os anos 80, pois, pouco antes, seu pai fora preso por motivos políticos
e enviado a um campo de trabalhos forçados. (O próprio autor,
nascido em 1973, passou seus quinze primeiros anos na Romênia do casal
Ceausescu antes de emigrar para a Hungria.) Enquanto espera o regresso não
garantido do pai, o menino tenta sobreviver como pode tanto às crises
típicas de sua idade, como às de um mundo particularmente impiedoso.
Como Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios, filme
iugoslavo de 1985 de Emir Kusturica, a história é narrada do ponto
de vista do garoto, só que sem nenhuma concessão ao lirismo redentor.
O autor dá a entender, desde o primeiro capítulo, que o que vai
expor poderia ser chamado de Aventuras de Tom Sawyer no Inferno. Conduzido pelo
fio tênue do monólogo interior, o romance compõe-se de uma
sucessão de quadros que, aparentemente desconexos, terminam por descortinar
o panorama de uma sociedade que, condicionada desde cima pela crueldade, multiplica-a
em quase todos os encontros interpessoais. Nela, até mesmo uma partida
de futebol escolar se transforma em horror porque o treinador é um sádico
e o campo foi contaminado pelo acidente nuclear de Chernobyl. Nunca há
ninguém a quem recorrer, nenhuma autoridade justa ou bondosa à
qual reclamar. O Rei Branco retrata, com riqueza de detalhes, quanto
se degrada, num universo totalitário, a vida das pessoas comuns e até
que ponto muitas já combinavam em si as características da vítima
e do torturador.
Uma das virtudes de Dragomán é ter conseguido capturar
com precisão o modo peculiar, às vezes desinformado e imaginativo,
às vezes pragmático e perceptivo, como um menino dessa idade vê
o mundo em volta. O leitor sente a apreensão do protagonista, adivinha,
segundos antes, a desgraça seguinte, mas nem por isso consegue evitar
o sobressalto. E é em meio a sustos, trotes, surpresas desagradáveis
que Dzsáta vai crescendo, preparando-se para os próximos golpes
e se fortalecendo. A tradução de Paulo Schiller, que já
verteu para o português muitos dos melhores romances do também
húngaro Sándor Márai, preserva o ritmo exato de uma prosa
cujas frases sinuosas constroem com cuidado situações elaboradas
para levá-las, de forma sempre certeira, a um desfecho inesperado.
Divulgação
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SEM SAÍDA
Dragomán: até jogar futebol é um horror
se o treinador
é sádico e o campo está
contaminado por radiação |
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