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O amor e a morte são os dois grandes temas da vida. Sobre o primeiro, recebo muitos e-mails endereçados à minha coluna em VEJA.com. Sobre o segundo, raramente alguém me envia correspondência. Resolvi escrever a respeito da morte porque ela é inelutável mais dia, menos dia, todos nos confrontamos com o fim.
Entre nós, ocidentais, o tema da morte é um tabu. Erguemos um muro entre os mortos e os vivos, como se assim pudéssemos afastar-nos dela. A palavra de ordem é não falar disso. À diferença de nós, os povos primitivos cultuavam os ancestrais não só para entrar em contato com o morto, no intuito de reverenciá-lo, como para se fazer ajudar por ele. O morto era integrado ao mundo dos vivos, que se separavam dele sem perdê-lo.
Na falta de um culto dos ancestrais, o recurso que nós temos para superar o drama da morte é a rememoração. Perder o ser amado não significa deixar de tê-lo ao nosso lado. Graças à memória, ele pode permanecer conosco. Fazer o luto é entender isso. Implica tempo e um trabalho subjetivo que leva à consolação. O chamado "trabalho de luto", no linguajar dos psicanalistas.
A morte tem de ser desdramatizada para que nós possamos sobreviver a ela, e não desperdiçar o tempo que nos resta. Já no século XVI, o pensador francês Montaigne, que refletiu sobre praticamente todos os temas de interesse, diz em seus Ensaios que é preciso não estranhar a morte, incitando o leitor a se acostumar com ela porque, "como não sabemos onde ela nos espera, é melhor esperá-la em todo lugar". Para Montaigne, essa é a condição da liberdade.
Acostumar-se com a ideia da morte não significa se preocupar com ela. Nada é pior do que viver angustiado diante da ideia de não poder conservar o ser amado, e conservar-se vivo, até o final dos tempos. Quem vive assim torna-se infeliz antes da hora. Preocupar-se com o futuro significa perder o presente, deixar de gozar a existência. Temer a perda é o mesmo que perder.
Carlito Maia, que foi, sobretudo, um filósofo popular brasileiro, dizia que de nada adianta preocupar-se com um problema. Temos de nos ocupar dele e ponto. Porque ocupar-se é uma forma de superar o problema e viver. Preocupar-se, ao contrário, é uma forma de se enterrar em vida e morrer. Sabedor disso, ele era tão leve quanto solidário. Valia-se da sua posição prestigiosa na Rede Globo para exercer uma espécie de flower power celebrava, por exemplo, os eventos culturais de São Paulo, enviando aos amigos flores com bilhetes inesquecíveis. Não está mais vivo, porém, graças ao seu espírito, continua entre nós. O escritor vive para escrever; Carlito Maia viveu para merecer a palavra "saudoso". É bom tê-lo ao lado.
A psicanalista e escritora Betty Milan assina a coluna Consultório Sentimental
em Veja.com.
Uma vez por mês,
ela publica em VEJA um artigo especialmente
escrito para a revista impressa