Maílson da Nóbrega
O subdesenvolvimento
não se improvisa
"Em tempo de disputa presidencial, o governo
mirou as eleições e não as próximas gerações,
apesar de o presidente Lula dizer o contrário"
O título desta coluna é inspirado na conhecida
frase de Nelson Rodrigues (1912-1980): "O subdesenvolvimento não
se improvisa. É fruto de séculos". Mais tarde, Fernando Henrique
diria: "O Brasil não é um país subdesenvolvido. É
um país injusto".
Essas frases retratam nossa dualidade. Uma parte da sociedade
é moderna, bem-educada, possui hábitos propícios ao desenvolvimento
capitalista. A outra é atrasada, malformada, acredita que o estado tudo
pode.
O subdesenvolvimento a que se refere Nelson Rodrigues é
aquele das ações políticas equivocadas e prioridades mal
escolhidas. É o do país prisioneiro de antigas tradições
culturais, que sobrevive, resiste aos avanços, reduz o potencial de crescimento.
O Brasil velho tem influência. Em um único mês,
agosto passado, protagonizou várias ações. Duas delas chamam
mais atenção: (1) a norma da Anvisa sobre farmácias e (2)
o acordo do governo com sindicalistas sobre benefícios previdenciários.
A Anvisa decidiu que remédios vendidos sem prescrição
médica não podem ficar em gôndolas. Terão de ser
pedidos no balcão. As farmácias foram proibidas de vender produtos
não relacionados à saúde ou cuidados pessoais. Fica vedado
comercializar balas, biscoitos, doces, pilhas etc.
No primeiro semestre, as vendas das farmácias cresceram
11,8% sobre igual período de 2008. Esse desempenho não se deveu
aos remédios, cujas vendas aumentaram 4,3%. As farmácias dependeram,
pois, de muitos produtos que estarão proibidas de vender. Muitas vão
dançar, inclusive porque terão de investir para mudar o seu layout.
O objetivo é inibir a compra de remédios por impulso?
Os consumidores precisam de uma babá para decidir? E se o vendedor atender
ao pedido no balcão? O que dizer aos que investiram confiando na estabilidade
das regras? Por acaso o burocrata sabe que em todo o mundo as farmácias
viraram lojas de conveniência, onde se vende até remédio?
São questões que realçam a insensatez da mudança.
Vejamos o acordo com os sindicalistas. Prevê nova regra
para o reajuste de aposentadorias e pensões superiores a um salário
mínimo: a inflação mais 50% da alta do PIB de dois anos
atrás. Em 2010, será de 2,6% acima da inflação.
Mundo afora, os benefícios são ajustados apenas pela inflação,
para preservar o seu poder de compra. Ganhos reais são para os que trabalham
e de acordo com a produtividade.
O acordo substitui o fator previdenciário pela regra "85-95".
A aposentadoria se baseará na soma da idade com o tempo de contribuição.
Para as mulheres, 85; para os homens, 95. Um ministro disse que o acordo é
"responsável" porque custa 3 bilhões de reais e cabe
nas finanças da Previdência. Não deu para entender. Se a
Previdência está em déficit insustentável, um ato
que piora a situação é responsável?
Em regimes previdenciários, o relevante é o impacto
no cálculo atuarial, isto é, no longo prazo. Estudos de Fabio
Giambiagi indicam que o acordo é um desastre de graves consequências.
Dentro de trinta anos, quando a próxima geração de segurados
estiver aposentada, seus benefícios serão em média 30%
maiores. Isso sem contar o aumento da expectativa de vida, que exacerbará
o problema.
Trata-se, pois, de um atentado contra as gerações
futuras. No Congresso, o acordo tende a ser aprovado com aplausos. Se o governo,
que tem as informações, preferiu ignorar os efeitos terríveis
do acordo, o que dizer dos nobres parlamentares, que pensam em reeleger-se?
Em tempo de disputa presidencial, o governo mirou as eleições
e não as próximas gerações, apesar de o presidente
Lula dizer o contrário.
Agosto foi pródigo de ameaças semelhantes. Surgiram
propostas para fazer renascer a CPMF e criar um tributo sobre a venda de livros.
Sindicalistas e parlamentares se acertaram para reduzir as horas trabalhadas.
Disseram que a medida aumenta o emprego. Nada prova essa lorota, mas outro ministro
a apoiou.
O marco regulatório do pré-sal pode nos tornar a
próxima vítima da maldição dos recursos naturais,
aquela em que oportunidades são perdidas no embalo do populismo eleiçoeiro
e do estatismo. Mais uma vez, o velho trabalha em prol do subdesenvolvimento.
A esperança é que o novo se fortaleça e prevaleça.
Oremos.
Maílson
da Nóbrega é economista
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