Diogo Mainardi
A ponta do macarrão
"Quarenta anos depois, Franklin Martins ainda
luta pelo poder.
Considerando o que aconteceu
com Ana Maria Machado, é bom a ministra
da Casa Civil esconder as chaves do carro"
Ana Maria Machado é Ho Chi Minh. Por mais que eu a bombardeie
e eu a bombardeio continuamente , um dia ela acabará derrubando,
com sua literatura infantil, minha Saigon doméstica.
A própria Ana Maria Machado inspirou o paralelo histórico
com Ho Chi Minh. Algum tempo atrás, indagada sobre a luta armada no Brasil,
no período da ditadura militar, ela respondeu da seguinte maneira: "O
vietnamita teve coragem de ir à luta, o brasileiro não teve".
Ana Maria Machado, a vietnamita, foi à luta. Como ela
já declarou, envolveu-se "até as orelhas na resistência
à ditadura", escondendo "gente e dinheiro de roubo a banco".
Mas o episódio pelo qual ela é lembrada tem outro protagonista:
Franklin Martins. Em 1969, ele planejou o sequestro do embaixador dos Estados
Unidos no Rio de Janeiro. Para realizá-lo, usou o Fusca de uma de suas
irmãs. Qual delas? Sim: Ana Maria Machado. Os agentes da ditadura identificaram
seu Fusca e ela foi presa.
Quarenta anos depois, Franklin Martins ainda luta pelo poder.
Seu plano mais recente é eleger Dilma Rousseff em 2010. Considerando
o que aconteceu com Ana Maria Machado, é bom a ministra da Casa Civil
esconder imediatamente as chaves do carro. Para Franklin Martins, a candidatura
presidencial é uma espécie de Fusca recauchutado. Dilma Rousseff
é um New Beetle.
Ana Maria Machado, como Franklin Martins, também continuou
sua guerrilha ideológica. Só que ela passou a utilizar outro instrumento:
o Mico Maneco. Ho Chi Minh ensinou que, para recrutar o campesinato analfabeto,
era preciso "contar histórias curtas, simples e divertidas, mas
sem revelar os segredos militares". Agora Ana Maria Machado tenta fazer
o mesmo com a meninada analfabeta. O melhor exemplo disso é A Jararaca,
a Perereca e a Tiririca. A obra, segundo ela, "fala da luta armada".
A jararaca representa o martírio de um terrorista, porque "dá
o bote e é morta". A perereca, por sua vez, simboliza o exilado,
que "sai pulando e nadando até encontrar uma pororoca". E a
tiririca é como o povo, que permanece inerte, passivo, "calado".
De acordo com Ana Maria Machado, o papel do escritor "é
explicar às pessoas como tudo é complicado". O Brasil
diz ela "é uma grande macarronada: você puxa uma ponta
e acaba saindo uma outra coisa do outro lado do prato". O que eu ensino
aos meus filhos é exatamente o contrário: quando se puxa uma ponta
do macarrão, o que acaba saindo é apenas a outra ponta do macarrão.
E, quando se puxa Franklin Martins, o que acaba saindo é ainda mais Franklin
Martins. Alguém aí viu as chaves do New Beetle?
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