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econômica
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Rubén
Gamarra![]() |
"Para viabilizar a justiça social, é preciso apostar
no crescimento e na estabilidade. Sem isso, não se produz a riqueza para repartir" |
O jornalista Mauricio Funes, de
49 anos, deu à Frente Farabundo Martí de Libertação
Nacional, à qual se integrou há dois anos, sua primeira vitória
desde 1992, quando a guerrilha esquerdista depôs as armas e se tornou um
partido político. Assumiu em junho o governo de El Salvador, um país
menor que Sergipe, mas com problemas gigantescos. Cerca de 30% dos salvadorenhos
vivem nos Estados Unidos, e suas remessas são responsáveis por 18%
do produto interno bruto de El Salvador. Com a crise inter-nacional, esses recursos
minguaram, assim como as exportações para os EUA, que correspondiam
a 50% do total. As primeiras medidas de Funes mostram uma visão de esquerda
bem diferente da de Hugo Chávez, a quem seus adversários tentaram
associar sua imagem durante a campanha eleitoral. Na semana que vem, ele chega
ao Brasil para uma visita de dois dias. Além de estreitar a colaboração
na área social, vem propor a criação, em El Salvador, de
uma plataforma de exportação de produtos brasileiros. De sua residência,
onde vive com a esposa, a brasileira Vanda Pignato, fundadora do PT, e o filho
Gabriel, de 1 ano e 9 meses, Funes falou a VEJA.
Como o senhor
define um governo de esquerda?
A grande questão da esquerda hoje
é que não se trata mais apenas de fazer um governo popular, democrático
e voltado para a distribuição justa da renda. Embora esta continue
a ser a prioridade que nos diferencia dos governos de direita, para viabilizar
a justiça social é preciso adotar um modelo que aposte no crescimento
e na estabilidade macroeconômica. Sem isso, não se produz a riqueza
que se pretende repartir. É preciso ser responsável, e isso significa
contas em ordem e déficit público sob controle.
| "Quero fazer de El Salvador uma porta de entrada de produtos brasileiros para os EUA, com quem temos um tratado de livre comércio. Isso pode ser muito interessante para o etanol" |
Essa definição
não combina com alguém que foi comparado ao presidente da Venezuela,
Hugo Chávez, durante a campanha eleitoral. Qual é sua opinião
sobre o "socialismo do século XXI" defendido por ele?
O modelo de Chávez corresponde a uma conjuntura específica da
Venezuela e é inviável em qualquer outro país da América
Latina. Durante a campanha eleitoral, nossos adversários nos apresentavam
como uma esquerda que adotaria o modelo de Chávez. Eles pretendiam criar
um horizonte de ameaça, de caos na economia. Mas eu sempre sustentei
na campanha e como presidente eleito e reafirmo agora como presidente
constitucional que não sou um seguidor de Hugo Chávez. Podemos
estreitar a cooperação com a Venezuela, mas isso não significa
aderir a seu modelo. Ele pode (ou não) funcionar lá, e serão
os venezuelanos os responsáveis por julgá-lo. O que estamos fazendo
em El Salvador segue outros paradigmas. Vejo com o maior interesse e simpatia
os exemplos de gestão pública seguidos por outros presidentes da
América Latina, como Lula, no Brasil, onde o estado tem papel planejador
na busca de crescimento econômico, distribuição de renda e
combate à pobreza.
O nacionalismo tem lugar nessa visão
de esquerda defendida pelo senhor?
Os velhos nacionalismos que se construíram
como oposição à integração com o mundo não
têm nenhuma viabilidade. Muitas vezes, são reservas ideológicas
destinadas a perpetuar alguns governantes no poder. É preciso abrir fronteiras,
estimular a integração regional, inclusive com os Estados Unidos.
Não faz sentido manter o discurso anti-imperialista que a FMLN tinha no
passado, quando um terço dos salvadorenhos vive nos EUA. Para nós,
trata-se de um parceiro estratégico, com o qual podemos enfrentar problemas
comuns. Já tive a oportunidade de dizer ao presidente Barack Obama que
comemoro sua política externa para a América Latina, na medida em
que ela reconhece a necessidade de apoiar o desenvolvimento da região.
E faz isso porque entende que a pobreza e a estagnação da América
Latina representam uma ameaça à segurança interna dos Estados
Unidos.
Às vésperas de completar 100 dias de governo,
o senhor tem 84% de aprovação. A que atribui esse índice?
Fundamentalmente, à mudança na forma de exercer o poder.
Fizemos um grande esforço para criar mecanismos que permitam ouvir todos
os setores da sociedade. Nos próximos dias vou instalar o Conselho Econômico
e Social, que é um fórum consultivo a partir do qual serão
deliberadas as principais políticas públicas voltadas para o desenvolvimento
econômico e social. Nunca houve nada parecido em meu país. Com isso,
foi possível atrair para o projeto político do governo até
eleitores que votaram na situação.
Que medidas concretas
já foram tomadas para enfrentar a crise econômica em seu país?
Fiz um plano anticrise, que tem vários componentes. Mas o que já
está em andamento é um plano de habitação social,
em parceria com a Associação Bancária de El Salvador, que
vai construir 27 000 casas e criar 100 000 empregos, diretos e indiretos. Também
distribuímos um bônus às famílias mais pobres. Estamos
investindo em saúde e educação. Chamo atenção
para o fato de que boa parte dos recursos para esses programas vem do Banco Mundial
(Bird) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), apesar de durante a
campanha meus opositores terem afirmado que a vitória da FMLN significaria
fuga de investidores e portas fechadas para El Salvador nos organismos financeiros
multilaterais.
Por que isso não aconteceu?
Essa é
uma ruptura de paradigmas das mais interessantes. A banca multilateral tornou-se
aliada estratégica para financiar o desenvolvimento num país onde
a esquerda sempre responsabilizou instituições como o Fundo Monetário
Internacional, o Bird e o BID pelos problemas estruturais que tivemos nos últimos
anos. A verdade é que os dois lados mudaram. Nossa visão de esquerda
inclui fazer dessas instituições sócias do desenvolvimento.
Isso é possível, também, porque esses organismos já
se deram conta de que, se não dividirem conosco o problema da pobreza,
da exclusão e da marginalidade, nosso país não será
viável. Isso permitiu empréstimos em que os recursos não
estão submetidos às condicionantes que havia no passado. Conseguimos
firmar compromissos com o Bird e o BID com aumento substancial do gasto social,
porque nos comprometemos com o equilíbrio fiscal.
Quais são
os pontos principais da agenda de sua visita ao Brasil?
Além da
continuidade de algumas parcerias importantes na área social, estou propondo
uma parceria econômica estratégica ao Brasil. Quero fazer de El Salvador
uma grande porta de entrada de produtos brasileiros para o mercado americano,
oferecendo as vantagens que temos por força do tratado de livre comércio
com os EUA. Isso pode ser particularmente interessante para o etanol, porque temos
terras que poderiam ser usadas por empresas brasileiras para o cultivo da cana-de-açúcar
e a produção de álcool. O etanol poderia entrar no mercado
americano com preço muito mais competitivo do que o fabricado no Brasil,
porque não teria de enfrentar nenhum tipo de barreira alfandegária.
A mesma lógica pode ser seguida por empresas de outros setores, como a
indústria têxtil. Temos interesse na infraestrutura e na criação
de empregos que resultariam disso. E também planejamos acordos de transferência
de tecnologia e formação de mão de obra.
| "O combate ao narcotráfico em meu país começa no front interno, acabando com a cumplicidade e a corrupção na polícia, no Ministério Público e em outras esferas" |
Além
da crise econômica, El Salvador enfrenta problemas cruciais como o combate
ao narcotráfico. Quais são suas prioridades nessa área?
No front interno, combater a cumplicidade e a corrupção em diversos
escalões. Aqui, o narcotráfico conseguiu corromper a polícia,
o Ministério Público e algumas instituições do governo
anterior, que não teve vontade política de romper essas amarras.
Estamos tratando de profissionalizar a polícia e de reforçar os
mecanismos de inteligência policial. Mas temos consciência de que
esse é um flagelo que atinge a todos os países do continente, e
só pode ser enfrentado com uma política integrada.
O senhor
é favorável à descriminação do consumo de drogas?
Não creio que esse possa ser um caminho. O problema do narcotráfico
tem de ser atacado também pelo lado do consumo. Não se pode combater
o narcotráfico tendo como alvos apenas os países que produzem a
droga. É preciso combatê-lo também dentro dos países
que consomem. Se não há demanda de droga, a produção
cai. Por isso, em vez de descriminar o consumo da droga, é preciso investir
em políticas preventivas voltadas para a juventude e ser ainda mais coercitivo,
penalizando drasticamente o consumo.
O senhor foi eleito como candidato
da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional, um partido
que por doze anos pegou em armas para derrubar o governo e que tem entre seus
integrantes muitos ex-guerrilheiros. Como analisa hoje a ação da
guerrilha em seu país?
O surgimento da luta armada em El Salvador
foi provocado por razões objetivas. Fecharam-se os espaços de participação
política. Foi a intolerância dos governos militares que levou as
organizações sociais a seguir o caminho da guerrilha, considerado
por muitos a única reação possível. Não estou
expressando nenhuma simpatia pela luta armada. Naquele momento, o fim dos anos
70, eu era estudante e não acreditava na guerrilha como caminho para resolver
os problemas do país. Mas perdi um irmão nessa guerra, que matou
mais de 75 000 pessoas. Ele não era guerrilheiro, era apenas um líder
estudantil. Por isso posso entender aqueles que não viram outra saída
a não ser opor-se militarmente para buscar as transformações
que o país requeria. E acredito que essa reação abriu espaço
para as mudanças que tiveram lugar em El Salvador depois dos acordos de
paz intermediados pela ONU a partir de 1992.
Sua opção
profissional pelo jornalismo teve relação com a resistência
democrática em El Salvador?
Minha escolha foi mais circunstancial.
Eu era estudante de letras, mas tinha paixão por conhecer a realidade de
meu país e, também, por cinema e televisão. Em meados dos
anos 80 surgiu a oportunidade de um trabalho na TV, que permitiu juntar essas
paixões. Pouco a pouco, fui me dando conta de que também se pode
contribuir para transformar a realidade a partir do exercício do jornalismo.
Entendi que num país como o meu, marcado pela pobreza, desigualdade e exclusão
social, a única atitude ética aceitável para um jornalista
era denunciar a realidade. Por isso transitei na direção de um jornalismo
crítico que acabou me levando à política. Chegou um momento
em que me dei conta de que o jornalismo não me permitira transformar a
realidade. Como jornalista, mal ou bem continuaria sendo espectador da realidade.
Alguns setores da esquerda salvadorenha defendem a revogação
da lei de anistia. Qual sua opinião sobre esse tema?
A lei de anistia
foi aprovada pouco depois dos acordos de paz, para que todos aqueles que participaram
da guerra pudessem ter atuação política sem o temor de ser
condenados por haver violado direitos humanos. Foi o que as condições
da época permitiam. Isso tornou possível que integrantes da FMLN
tivessem participação na política democrática, assim
como alguns chefes militares. Como presidente, não me cabe decidir se a
lei de anistia deve ser revogada. Essa é uma prerrogativa do Legislativo.
Dadas as condições em que vivemos, considero que não é
o momento histórico oportuno para uma iniciativa do governo de alterar
a lei. Tenho de trabalhar para criar condições de harmonia social,
política e de governabilidade. A revogação da lei abriria
a possibilidade de qualquer cidadão iniciar um processo contra aqueles
que participaram da guerra. Isso vale tanto para chefes militares quanto para
ex-comandantes da Frente que hoje são deputados, ou até fazem parte
deste novo governo.