Seções
• VEJA.comPanorama
• Imagem da SemanaBrasil
• Energia: O petróleo volta à cena na política brasileiraGeral
• Saúde: As novas abordagens para o alcoolismoGuia
• Bicicletas: Escolha o modelo corretoArtes e Espetáculos
• Livros: Grupo editorial Leya chega ao BrasilBrasil10 questões sobre o pré-salOs desafios para retirar o petróleo do fundo do mar
e transformar
|
Istockphotos![]() |
VEJA TAMBÉM |
| • Nesta edição: "O Brasil é a quinta potência" |
A produção brasileira de petróleo dobrou na última década, alcançando 2 milhões de barris por dia. Esse salto expressivo coincidiu com a aprovação da Lei do Petróleo de 1997, um divisor de águas que deu fim ao monopólio da Petrobras e instituiu a concorrência no setor de exploração. Antes o Brasil possuía uma única companhia de controle estatal e subjugada a interferências políticas a prospectar as jazidas. Hoje há 76 empresas que exploram petróleo e gás natural nos campos marítimos e terrestres. Além da abertura daquela antiquada reserva de mercado, o país construiu um modelo institucional de exploração transparente e confiável, similar ao que se faz de melhor no planeta. Esse sistema, embasado em concessões públicas disputadas em leilões, foi vital para a atração dos investidores privados, os quais trouxeram não apenas dólares, mas também tecnologia. Agora, com as descobertas promissoras no pré-sal, o Brasil vê-se diante da perspectiva de um novo salto e da possibilidade de se transformar em grande exportador mundial. Pois é esse modelo de sucesso reconhecido que o governo pretende alterar. Nas áreas de pré-sal, passaria a ser usado o sistema de partilha do petróleo. A justificativa questionável, segundo os especialistas é que essas descobertas seriam uma espécie de "bilhete premiado", por supostamente oferecer menos riscos de insucesso e maior potencial de rentabilidade, o que justificaria a mexida nas regras do jogo. A seguir, VEJA trata dessas e de outras questões essenciais a respeito do potencial das reservas e de como elas poderão contribuir para o desenvolvimento do país.
1 Qual é o tamanho das reservas?
Ainda não se sabe com exatidão. As estimativas vão
de 40 bilhões a 80 bilhões de barris. Até agora, a Petrobras
divulgou avaliações apenas para as principais áreas já
licitadas os campos de Tupi e Iara, na Bacia de Santos, e Parque das
Baleias, na Bacia de Campos. Nessas três regiões existiriam até
14 bilhões de barris o suficiente para dobrar as atuais reservas
conhecidas brasileiras. Os números poderão ganhar maior precisão
no fim de outubro, quando serão feitas perfurações em novos
poços e haverá a conclusão dos testes para quantificar
as reservas de Guará. Mais importante do que dimensionar as jazidas,
no entanto, será determinar quais delas apresentam viabilidade comercial.
Segundo a Petrobras, suas perfurações feitas no pré-sal
obtiveram uma taxa de sucesso de 87%. Mas empresas privadas anunciaram recentemente
que encontraram poços "secos" (com quantidade de óleo
insuficiente para justificar a exploração).
2 Quais são os desafios geológicos?
Diversos obstáculos terão de ser superados para
que jorre petróleo do pré-sal. O primeiro é sua profundidade:
5 000 a 7 000 metros separam o poço da plataforma. "Explorar
petróleo em águas profundas é como dirigir um carro a 300
quilômetros por hora. É possível, mas muito perigoso",
afirma o professor de geologia da UFRJ Giuseppe Bacoccoli. As dificuldades se
repetem na fixação dos cabos de âncora, que garantem estabilidade
à plataforma, na camada conhecida como pós-sal. Como os sedimentos
são pouco firmes, aumentam os riscos de a estrutura se desprender. Nos
2 quilômetros seguintes, o sal, por ser viscoso e plástico, pode
fluir para dentro do poço, esmagar seu revestimento e fechá-lo.
Finalmente, as rochas nas quais o petróleo está armazenado são
formadas de carbonato de cálcio, um material de grande resistência
à penetração das brocas que tem comportamento imprevisível,
além de porosidade variada.
3 Existe tecnologia para explorar o pré-sal?
Em tese, mas serão necessários investimentos pesados
para aprimorar os equipamentos e tornar a prospecção rentável.
A Petrobras não dispõe de conhecimento pleno sobre as características
do pré-sal. Prova disso é a irregularidade da produção
de Tupi. Em testes desde maio, a exploração do poço precisou
ser paralisada em julho devido à corrosão em algumas das peças
utilizadas. Para tirar o máximo potencial de todas as reservas, o país
não poderá também contar exclusivamente com a Petrobras.
"É fundamental dispor de soluções tecnológicas
desenvolvidas por outras companhias, nacionais e estrangeiras", afirma
João Carlos de Luca, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo
(IBP).
Ricardo Stuckert![]() |
NOVA FRONTEIRA |
4 Como será financiada a exploração?
O plano de investimentos da Petrobras para o período de
2009 a 2013 prevê gastos de 29 bilhões de dólares apenas
com a exploração do pré-sal. Parece muito dinheiro, mas
é quase nada perto das estimativas de que será necessário
investir até 1 trilhão de dólares para explorar toda a
província petrolífera do pré-sal. Nem o governo nem a Petrobras
têm tanto dinheiro. Diante disso, o governo revelou a intenção
de aumentar o capital da empresa, que assim ampliaria a sua capacidade de obter
financiamentos. O governo tenciona conceder à Petrobras reservas ainda
não licitadas, no volume de até 5 bilhões de barris. Com
isso, a empresa poderia obter até 100 bilhões de reais. Em troca,
a União receberia ações da Petrobras. A ambição
do governo é ampliar a sua participação no capital total
da empresa, hoje de 32,2%. Mas seria temerário que uma única companhia
concentrasse em si todos os investimentos. O ideal seria dividir a tarefa
e os riscos com outras empresas.
5 A Petrobras sairá fortalecida?
Sim, caso o plano de Lula passe no Congresso. Ainda que a Petrobras
não recupere sua posição de monopolista plena no país,
ela passará a ter privilégios concedidos na disputa por áreas
e também será a operadora única nas novas reservas. A estatal
terá uma participação mínima de 30% em todos os
campos a ser licitados no pré-sal daqui em diante. Mas nada impedirá
que ela, por meio de leilões, aumente sua participação
nas áreas que desejar. Além disso, a União poderá
também contratar a Petrobras como operadora única e exclusiva
dos poços ditos "estratégicos".
6 É preciso mudar as regras do setor?
Na avaliação de especialistas, a proposta defendida
pelo governo de substituir o modelo de concessão pelo de partilha (veja
o quadro abaixo) responde a critérios meramente políticos
e ideológicos, estimulados pelo desejo de ampliar a interferência
estatal no setor. "O sistema de concessão é mais adequado,
porque o estado tem o poder indelegável de tributar e fiscalizar",
diz David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da ANP. "Estamos partindo de um
sistema absolutamente transparente, que não foi objeto de nenhum tipo
de questionamento, para um sistema que pode ser questionado permanentemente
e no qual não necessariamente prevalece a racionalidade econômica.
Haveria um retrocesso institucional." Na avaliação de João
Carlos de Luca, do IBP, o novo sistema inibirá a atuação
de companhias privadas: "Quem aceitará participar de um consórcio
em que todas as decisões serão tomadas pelo governo e pela Petrobras?".
7 Para que servirá a Petro-Sal?
A nova estatal que representará a União na administração
das reservas do pré-sal e de outras áreas estratégicas
será a fiscal e "olheira" do governo. Vai monitorar a execução
dos projetos de exploração e, principalmente, os custos de produção.
Ela será comandada por executivos nomeados pelo governo e nascerá
sob o risco de se render a interesses políticos, sem falar nas brechas
que serão abertas à corrupção.
8 O país será vítima da maldição
do petróleo?
Esse fenômeno ocorre quando uma nação é
extremamente rica em algum mineral (o petróleo, por exemplo), tornando-se
exportadora de um único produto e impedindo a diversificação
da economia. É o caso de países como a Venezuela ou os produtores
do Oriente Médio. "Não creio que o Brasil tenha de se preocupar
muito com esse risco, pois sua economia já é muito complexa e
diversificada", diz o professor de economia da Universidade Princeton José
Alexandre Scheinkman. De qualquer modo, o governo não quer correr risco
e lançará mão de um instrumento bastante conhecido
a criação de um fundo soberano, que se chamará Novo Fundo
Social. A ideia é impedir a enxurrada de dólares na economia,
ao mesmo tempo que se poupa parte dessa riqueza. A fórmula consagrada
internacionalmente é gastar apenas os rendimentos dessas aplicações.
Afirma Scheinkman: "O exemplo clássico de país que soube
usar muito bem seus recursos naturais é a Noruega, pela preocupação
de guardá-los para o proveito das gerações futuras. Outros
bons exemplos são a Austrália e o Canadá, que possuem gigantescas
reservas naturais e têm sabido manejá-las com sabedoria".
9 A era do petróleo está perto do fim?
A empresa britânica BP estima que, se o mundo continuar
a produzir petróleo a um ritmo igual ao do ano passado, as reservas globais
durem apenas até 2050 na hipótese de não haver descobrimento
de novas reservas significativas. O pesquisador americano Daniel Yergin, da
Cambridge Energy Research Associates (Cera), é mais otimista. Em artigo
publicado há pouco no Wall Street Journal, afirmou que levantamentos
recentes comprovam a existência de vastos recursos petrolíferos
no mundo. O ponto importante aqui é o preço do barril. À
medida que o preço sobe, passa a ser possível a extração
de jazidas até então tidas como inviáveis. As reservas
fáceis de explorar, ou seja, a um custo mais baixo, se não foram
esgotadas, caminham para isso. Mas ainda resta ao planeta embrenhar-se em profundidades
abissais, como no caso do pré-sal brasileiro, ou extrair petróleo,
com imensa dificuldade, das areias betuminosas canadenses. Para que tais projetos
sejam atraentes, no entanto, a cotação do barril precisa atingir
ao menos 60 dólares.
10 O pré-sal é um bilhete premiado?
Pela ordem de desafios técnicos e econômicos que
a sua exploração envolve, não se pode dizer que o pré-sal
seja um prêmio de resultado líquido e certo. Diz José Alexandre
Scheinkman: "Talvez o país não consiga aproveitar esta oportunidade
justamente por ter eventualmente escolhido um modelo errado. Temo que os recursos
que fluírem do pré-sal sejam mal aproveitados". O que fazer
para escapar dessa maldição? "O governo teria de investir
em infraestrutura, educação fundamental e no estímulo à
pesquisa científica", diz Scheinkman. Em outras palavras, sem trabalho
duro e sabedoria na gestão dos recursos, o pré-sal, a despeito
de todas as suas potencialidades, está longe de ser um passaporte certo
para o desenvolvimento.


Gustavo Miranda/Ag. O Globo; Frank Franklin II/ AP; Gerald Herbert/AP; Leon Leal/ afp; Peter David Josek/AP; B Mathur/Reuters; Lee Jin-Man/AP; Istock
Photos