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Ponto
de vista: Lya Luft
Descendo a lomba*
"Fica difícil permanecer alheio
à nossa
degringolada. Como chegamos a
tamanha decadência, não sei explicar"
Por algumas semanas tentei não
escrever sobre os escândalos brasileiros: a gente corre o
risco de se contaminar com a feia doença do pessimismo. Tirei
uma folga dos temas assustadores desta nossa democracia minada pela
impunidade: pressões de autoridades e leis tortas liberam
a corrupção e libertam bandidos. Em que aspectos nossa
Justiça é boa, em que outros nos confunde ainda mais?
A evidência e a complexidade do que vem acontecendo não
admitem refúgio permanente em temas humanos como amizade,
velhice, educação. Vamos ao que houve recentemente
em nosso amado Brasil:
Studio Atômica
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Um monstro estuprou muitas vezes, retalhou e matou
uma menina de 16 anos, enquanto seus comparsas matavam o namorado
dela. Ele não vai a julgamento: também tinha só
16 aninhos na ocasião, coitado. Nossa lei não poderia
ser mais parcial e fora da realidade, protegendo menores de idade
e deixando órfã a sociedade em que psicopatas com
bem menos de 18 anos estupram, matam e saem praticamente ilesos.
Para eles, idade é documento, sim senhor.
Uma jovem facínora da classe média paulistana, que
com dois cúmplices trucidou (matar não é só
manejar a arma) os pais, e dali foi direto para um motel transar
com um dos rapazes, obteve mais mídia do que o presidente
da República. Foram raríssimas suas manifestações
durante o julgamento: "Chorou de sair lágrimas". Mas também
deu algumas gargalhadas com seus advogados. Se não for louca
declarada, é de uma perversidade de assustar criancinha e
gente grande. Em poucos anos estará solta. É a lei...
Certas escolas elementares preparam novas gerações
de contraventores (que terão o aval das autoridades, se tudo
continuar como está) usando uma cartilha do MST. Nenhuma
novidade. O movimento original em favor dos desalojados de suas
terras é legítimo e meritório. Mas o que vemos
hoje são ilegalidades protegidas pelo governo. Representantes
de movimentos do campo, que invadem e destroem propriedades privadas
e públicas pelo país, e que violentaram o Congresso
Nacional, em Brasília, freqüentam as cortes, nas quais
são bem relacionados, com privilégios que eu quereria
ter. Outro dia foram dar seu apoio a um candidato a presidente.
Disseram, entre outras coisas: "Não queremos a volta da burguesia
ao poder". Gente, estamos em pleno século XXI! Enquanto isso,
fazendas produtivas continuam tomadas ou cercadas por bandos ameaçadores,
sustentados com nosso dinheiro. Um dos líderes máximos
desses grupos que desvirtuam a verdadeira figura do colono,
do trabalhador no campo recentemente foi convidado a dar
(e deu!) uma palestra na Escola Superior de Guerra: não escrevo
"pasmem", pois a esta altura nada mais nos assombra.
Cresce a cada dia a lista de implicados na chamada máfia
dos sanguessugas (outras tantas máfias aparecem a toda hora):
muita gente, muitos conhecidos, teria aumentado sua conta bancária
com dinheiro destinado a assistir, e possivelmente salvar, milhares
de doentes. Não conheço dinheiro mais indecente: é
dinheiro da morte. Desde que não manchem irremediavelmente
a reputação de alguns inocentes, numa temível
caça às bruxas com falsas incriminações
de fundo político, tais investigações
se tiverem conseqüências podem significar uma
retomada da retidão moral do país. Mas podemos acreditar
que desta vez não haverá a dança marota dos
mensaleiros absolvidos? A frouxidão das instituições
neste momento, os interesses políticos em época eleitoral
e o exemplo da inaceitável absolvição dos mensaleiros
não nos permitem grandes ilusões. Para começar,
os sanguessugas não serão julgados tão cedo.
Podem até continuar candidatos a cargos eletivos: a maioria
deles realmente é. Se eleitos, terão imunidade. O
que pensar de tudo isso?
Fica difícil permanecer
alheio à nossa degringolada. Começo a ter vontade
de sumir se não do Brasil, ao menos de aspectos de
sua realidade que o insultam e mancham. Como chegamos a tamanha
decadência, não sei explicar. Ninguém me dá
uma explicação satisfatória.
Mas consolemo-nos: a também
confusa guerra está distante, podemos continuar alegrinhos,
sem catiúchas caindo em nossa alienada cabeça. Os
roncos e estrondos lá fora, de madrugada, são apenas
os rachas na minha rua. As cotas para pessoas de cor entrarem em
universidades, independentemente de sua capacidade, vão resolver
a tragédia da educação brasileira, e o insensato
estímulo ao racismo não parece importar. Na descida
pela ladeira que aqui no Rio Grande do Sul chamamos de lomba
, ou abrimos os olhos e fazemos melhores escolhas, ou os mantemos
fechados, e... seja o que os deuses quiserem.
* No Sul chamamos ladeira de
lomba.
Lya Luft é escritora
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