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 Brechas
na muralhaEmpresas brasileiras
entenderam rapidamente que a China oferece
oportunidades fantásticas e abriram fábricas no ex-país
de Mao. O outro aprendizado tem sido mais lento e até
doloroso: ganhar dinheiro no capitalismo chinês exige mais
do que paciência  Lauro
Jardim
Antonio
Ribeiro
 | UMA
TROPA DÓCIL Trabalhadores montam um jato na fábrica
chinesa da Embraer: treinada no Brasil, a mão-de-obra é barata, disciplinada e
não discute ordens sob hipótese alguma |
A brasileira Embraer tem fábricas em três países do mundo
e escritórios em outros quatro. Em cada um desses lugares, a empresa teve
de se adaptar a certas regras. É natural que seja assim. Nada, porém,
se compara à experiência da Embraer na China. Há menos de
três anos, a empresa instalou-se em Harbin, no nordeste do país,
associando-se à estatal Avic II. Projetou uma fábrica para montar
vinte jatos ERJ145 por ano. Parecia um tiro certeiro. Só que as coisas
não andaram como o previsto. Desde então, a Embraer conseguiu apenas
dezesseis encomendas. Pior: no fim de março, a Avic I, o outro braço
do governo chinês para o setor, anunciou que começará a produzir
um jato regional que, embora um pouco maior, competirá justamente com o
ERJ145. "Em algum momento isso teria de acontecer", diz o diretor da fábrica,
Roberto Rossi, enquanto caminha pelo monumental galpão onde está
instalada a fábrica da Embraer.
A empresa brasileira não admite o golpe. Afinal, a operação
da Embraer foi montada exclusivamente para vender jatos regionais à China.
Não há, portanto, como brigar com o governo, que é o seu
sócio e único cliente todas as empresas aéreas chinesas
têm, em maior ou menor escala, participação estatal. Não
é somente por isso que a Embraer amorteceu a pancada: como tantas outras,
a empresa faz uma aposta no futuro. Em quinze anos, a China será o segundo
maior mercado do mundo para a aviação, na opinião de todos
os especialistas. Até lá, a previsão é que as encomendas
de jatos regionais sejam as maiores do planeta. É essa promessa de felicidade
que justifica o risco desse mercado. Mesmo com obstáculos, ninguém
quer desembarcar da festa antes que ela realmente comece. Antonio
Ribeiro
 | LONGE
DO CÉU DE BRIGADEIRO Rossi, diretor da joint
venture da Embraer em Harbin, e Jiang Da, o número 2 da empresa: a previsão era
montar vinte jatos por ano. Até agora, no entanto, foram apenas dezesseis encomendas
em três anos. Ainda assim, ninguém quer sair de lá. O país deverá ser o maior
mercado do mundo para jatos regionais nos próximos quinze anos |
A Embraer não é a primeira ou a única empresa global a padecer
desses transtornos. Está até em boa companhia. A poderosa General
Motors é um exemplo. Em 2003, a GM surpreendeu-se ao ver uma van que apresentava
numa feira de automóveis em Xangai ser integralmente copiada pela chinesa
Chery. Eram iguais em tudo, menos no preço: enquanto a GM pedia 9.000 dólares
por seu modelo, os chineses ofereciam o seu por 6.000 dólares. Uma das
empresas donas da Chery era a estatal Xangai Auto, nada menos do que parceira
da GM. Levado à Justiça, o caso não deu em nada: o juiz não
viu provas conclusivas de roubo de propriedade intelectual. Estrategicamente,
todas essas empresas lá permanecem em nome das oportunidades que um mercado
efervescente oferece. A China é
o terceiro maior parceiro comercial do Brasil. Está atrás apenas
dos EUA e muito próxima da Argentina. É também o país
que mais importa matérias-primas brasileiras como aço, minério
de ferro ou soja. Está, portanto, assumindo um papel capital para a economia
brasileira. Apesar disso, relativamente poucas empresas daqui têm escritórios
ou fábricas no país mais populoso do mundo não chega
a cinqüenta esse número. Como competir com o bicho-papão que
parece sugar para suas fronteiras os empregos dos operários do mundo inteiro?
Não há uma regra. Exceto a de que não há como ficar
parado vendo o monstro engordar. Esse é o caminho mais curto para morrer
de inanição.
Paulo
Vitale
 | PACIÊNCIA
CHINESA Viviane e Gabriela, sócias no Alameda,
escolhido duas vezes como o melhor restaurante de cozinha internacional de Pequim:
quatro anos para encontrar o endereço certo, mudança de regras e burocracia excessiva
|
Há quinze
anos, quando o governo brasileiro espanou décadas de protecionismo e abriu
a economia, baixando as tarifas de importação, os fracassomaníacos
de plantão previram o caos. O que sucedeu foi o aumento de produtividade
e o fortalecimento das empresas que estavam preparadas para os novos tempos. Agora,
guardadas as proporções, a história se repete. A Gradiente,
por exemplo, silenciosamente, partiu para a terceirização da manufatura.
Já fabrica 60% de sua linha de produtos em solo chinês. Até
poucos anos atrás, esse porcentual era irrisório. "Não dá
para competir com o custo da mão-de-obra chinesa", diz Eugênio Staub,
presidente da Gradiente e uma tradicional voz na defesa da empresa nacional. "Mas
estamos dez anos à frente deles em design, tecnologia e gestão da
marca." É nisso que Staub tem apostado. Montou um escritório com
quase vinte funcionários num sofisticado arranha-céu em Shenzen,
cidade ao sul do país, onde está instalado o maior parque fabril
de eletroeletrônicos do mundo. Ali, a Gradiente garimpa novos fornecedores,
faz encomendas e mantém sua competitividade no mercado brasileiro.
"Aqui aparecem e somem fornecedores numa velocidade impressionante", afirma Roberto
Diniz, que chefia o posto avançado da Gradiente na China. "No início
dos anos 90, quando vim a esta cidade pela primeira vez, eu só fechava
negócio com a intermediação do pessoal de Hong Kong. Agora,
trato direto com os chineses." A maioria dos empreendedores com quem Diniz fecha
negócios é jovem, com menos de 40 anos de idade. "Em comum, têm
a característica de tomar decisões arriscadas quando aceitam encomendas.
Assumem que vão fazer e movem tudo o que for possível para cumprir
o prometido." Staub não é
o único empresário com discurso nacionalista a se render aos encantos
da oficina do mundo para continuar competindo. No setor têxtil também
se encontram os mesmos paradoxos. O presidente da Associação Brasileira
da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) é
Josué Gomes da Silva, que acumula ainda a presidência da Coteminas,
a maior do Brasil no setor, e da Springs, a maior do mundo em cama e mesa. Com
o chapéu de presidente da Coteminas e da Abit, Josué tem pedido
ao governo proteção contra a invasão chinesa. Afinal, o Brasil
está importando três vezes mais têxteis chineses em comparação
com dois anos atrás. Algo como 50 milhões de dólares mensais.
Já com o chapéu de presidente da Springs, que tem sede nos EUA,
Josué está prestes a abrir uma megafábrica na China
não só para exportar, mas também para vender ao mercado local.
Na verdade, a Springs já compra (e muito) de fornecedores chineses. Evidentemente,
não há como culpá-lo. O capitalismo exige jogo de cintura,
capacidade de adaptação. Do contrário, é melhor fechar
as portas. Da mesma forma, não
se pode ficar parado diante do fantasma da clonagem ou pirataria até
porque na China, fatalmente, um dia ele nos assombrará de verdade. A Politec,
uma das mais bem-sucedidas e inovadoras empresas de tecnologia da informação
do Brasil, com 6.500 funcionários, subsidiária nos EUA e escritório
no Japão, está prestes a encarar o fantasma. Fechou uma joint venture
com uma companhia chinesa para vender soluções de internet banking
para o Banco Agrícola da China, um dos quatro maiores do país. Há
risco de que ele seja clonado por concorrentes locais? "Sim, e dou um prazo de
três anos para que isso ocorra", afirma o presidente da Politec, Hélio
Oliveira. "Já montei meu plano de negócios para lucrar nesse período."
Enquanto isso, diz Oliveira, sua empresa deve fazer novos produtos que os chineses
não saibam como copiar. Mais uma lição. Não adianta
espernear contra o capitalismo peculiar e selvagem de lá: o jeito é
buscar mais inovação. Antonio
Ribeiro
 | COM
O PÉ DIREITO Corrêa da Silva, um gaúcho de 36
anos que não fala uma palavra de mandarim: ele produz 35 milhões de pares de sapatos
em Dongguan, para onde se mudou há doze anos em busca de custos menores |
E se adaptar regra de ouro para os grandes e os pequenos negócios.
As paulistas Viviane Gonçalves e Gabriela Alves da Silva são sócias
do restaurante Alameda, em Pequim, de comida contemporânea com toques brasileiros.
O maior problema que enfrentaram para montar o negócio foi prosaico: encontrar
um lugar adequado. Levaram quatro anos para achar um endereço simpático,
numa rua sem saída do bairro de vida noturna mais intensa da capital. "É
preciso aprender a ter muita paciência", diz Viviane, que comanda a cozinha,
repetindo um mantra comum a todos os estrangeiros que vão fazer negócios
na China. Segundo ela, o que mais atrapalha é a mudança das regras
no meio do jogo. Leis que brotam do nada, exigências que surgem de repente.
Superadas as dificuldades iniciais, hoje o restaurante tem 24 funcionários,
dos quais vinte são chineses. Vive lotado. Foi escolhido como o melhor
de comida internacional da cidade duas vezes seguidas, o que aumentou ainda mais
o movimento. O alívio de ver o negócio fazendo sucesso agora vai
passar por outro teste: Viviane e Gabriela já estão procurando um
novo endereço. A ruazinha de lojas simpáticas virá abaixo
para dar lugar ao estacionamento de um prédio comercial. É o preço
a pagar por viver e ganhar dinheiro num país em ebulição
permanente. "Em São Paulo, Nova York ou Londres já está tudo
pronto", diz Viviane, que comandou um restaurante na capital inglesa. "Aqui está
tudo em construção." Literalmente.
Uma das primeiras empresas a enxergar a China como uma oportunidade, e não
uma ameaça, foi a Embraco, a maior fabricante de compressores para refrigeradores
do Brasil. A empresa hoje controlada pela americana Whirlpool, mas dirigida
por brasileiros aposta na China desde os anos 80. Inicialmente, exportando.
Desde 1995 tem uma fábrica em Pequim. Deu certo. Em maio, foi inaugurada
uma nova e moderna fábrica, dobrando a capacidade de produção
para 4,5 milhões de compressores por ano. Todos serão vendidos na
China. O roteiro da parceria foi o mais clássico possível. Primeiro,
a Embraco associou-se a uma estatal. Mais especificamente, à Snowflake,
velha fábrica de compressores controlada pela prefeitura de Pequim. Pelo
acordo, a Embraco é a sócia majoritária e controla a gestão.
Quem toca a fábrica é um executivo brasileiro, mas não há
mais do que cinco brasileiros na operação, num total de 1.550 empregados.
Na presidência do conselho está um dirigente do partido em Pequim.
Assim como entre os seis gerentes três são do Partido Comunista Chinês.
Como o capitalismo à chinesa é dependente do Estado até a
medula, essas relações acabam facilitando a vida da empresa no dia-a-dia.
Muitas vezes os comunistas relutam em aceitar inovações. Há
alguns anos, os brasileiros propuseram a seus sócios dar participação
nos lucros aos empregados. Algo como um salário a mais por ano. "Vocês
estão loucos?", reagiu, com o vigor de um capitalista à moda antiga,
o representante comunista no conselho da empresa. Depois, acabou cedendo.
Quando um empresário brasileiro pergunta ao advogado carioca Rodrigo Maciel,
especialista em China, o que fazer para se proteger da invasão chinesa,
ele propõe: "Por que o senhor não abre uma unidade de sua empresa
lá?". Maciel aconselha também que, antes de fechar qualquer negócio
com os chineses, o brasileiro patenteie seu produto na China. Não é
garantia de tranqüilidade total, mas uma tentativa de proteção
a mais. O paulista Marcelo Godke, advogado e também especialista em China,
sugere aos clientes que escolham qualquer cidade chinesa para montar seu negócio,
desde que joguem para Hong Kong o foro para dirimir quaisquer questões
judiciais. É também uma garantia extra em Hong Kong, o Judiciário
funciona, ao contrário do que ocorre na China continental. "Embora nada
assegure que a execução da sentença será mesmo cumprida,
dependendo da província em que está instalada a fábrica",
afirma Godke. Ou seja, se não for do interesse do governo local, esqueça,
que a Justiça tardará e falhará.
Se várias companhias brasileiras ergueram uma unidade avançada na
China, outras partiram para uma solução mais radical: mudaram-se
para lá. Alto, muito magro e dono de pronunciado sotaque gaúcho,
Ricardo Corrêa da Silva mora há doze anos no sul da China. Não
fala mandarim. Ainda assim, produz 35 milhões de calçados femininos
por ano em Dongguan, quase todos exportados para os EUA cerca de 1% de
tudo o que a China, o maior fabricante de calçados do mundo, vende ao exterior.
É uma amostra do que dá para fazer ali, mesmo sem dominar a língua,
tendo apenas o know-how. Aos 36 anos, ele comanda a Paramont, fundada por seu
pai em Campo Bom, no Rio Grande do Sul, décadas atrás, e transferida
para a China nos anos 90. "Era outro país, sem tradição no
setor, mas meu pai resolveu apostar", diz o empresário. "Os chineses aprendem
rápido." O que empurrou a Paramont para fora do Brasil foram os custos.
A indústria calçadista precisa de mão-de-obra intensiva.
Por isso, faz toda a diferença estar num lugar em que os operários
ganham o equivalente a 60 dólares por mês, trabalhando sete dias
por semana, doze horas por dia. No Brasil, o mesmo funcionário recebe em
média quase sete vezes mais, trabalhando de segunda a sexta-feira. "Nosso
setor é nômade", explica Corrêa da Silva. "Está sempre
em busca de mão-de-obra barata." Assim, o Brasil exportou milhares de empregos,
milhões em impostos e know-how acumulado anos a fio. Numa palavra, perdeu
competitividade. Hoje, a China é o maior fabricante de calçados
do planeta. E Dongguan e arredores são o centro dessa indústria.
Produzem 9 bilhões de pares de sapatos por ano, doze vezes mais que o Brasil.
Dongguan é outro daqueles milagres
chineses. Há pouco mais de duas décadas, sua população
não chegava a 30.000 pessoas. Hoje, chega a 7 milhões. Na cidade,
erguem-se arranha-céus de aço escovado e vidro como, no Brasil,
só São Paulo possui. E existem brasileiros. Muitos brasileiros.
"Não param de chegar", diz o diretor da Paramont Ari Filipini, há
oito anos na cidade. Estima-se que lá existam perto de 1.000 brasileiros,
praticamente a totalidade na indústria de calçados. Na Paramont
estão 150, todos técnicos. A empresa ainda mantém um naco
de operação no Brasil. Algo como 5% de sua produção.
"Quando viemos para cá, a idéia era ter a China como uma opção
estratégica de negócios", afirma Corrêa da Silva. "Agora,
o Brasil virou nossa opção estratégica para um problema inesperado
na China." Inverteram-se, pois, as prioridades e as opções. É
um resumo do grande desafio a ser enfrentado pelo Brasil. |