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Perfil
O perfeito idiota paquistanês
Em nome do antiamericanismo, Tariq
Ali abre
mão até da democracia e dos direitos humanos

Jerônimo Teixeira
No mercado internacional de idéias,
o antiamericanismo vende bem. Não requer originalidade nem
brilho apenas uma cantilena contra George W. Bush e o imperialismo.
Há intelectuais que ganham a vida explorando esse filão.
O mais notório é o americano Noam Chomsky, mas o paquistanês
Tariq Ali (que presta verdadeira idolatria a Chomsky) vem logo atrás.
Não importa qual seja a posição defendida pelos
Estados Unidos no plano internacional, Ali, de 62 anos, estará
no campo oposto. O espantoso é que, para manter a linha reta
e burra da rejeição ao "império", o autor sacrifica
qualquer bandeira até a democracia e os direitos humanos.
Ali já inventou desculpas para o genocida sérvio Slobodan
Milosevic e dá ao terrorismo que explode mesquitas e mata
inocentes no Iraque o heróico título de "resistência".
Ele apóia os caudilhos Fidel Castro e Hugo Chávez,
num arremedo paquistanês do "perfeito idiota latino-americano".
Arroz-de-festa de eventos de esquerda como o Fórum Social
Mundial, Ali visita o Brasil nesta semana. Está lançando
dois livros: Um Sultão em Palermo (Record), quarto
e medíocre romance de um planejado quinteto sobre a história
islâmica, e A Nova Face do Império (Ediouro),
coletânea de discursos e entrevistas. Na sexta-feira, ele
participa da Festa Literária Internacional de Parati falando
sobre "literatura e política". Ganhará um periquito
venezuelano quem adivinhar o tom de sua palestra.
Nascido em Lahore, no Paquistão,
Ali como ele mesmo relata no livro Confronto de Fundamentalismos
vem de uma família rica e cheia de conexões
políticas. Seus pais, porém, eram comunistas. No início
dos anos 60, sua militância estudantil chamou a atenção
das autoridades. Um tio seu, chefe do serviço de inteligência
paquistanês, aconselhou Tariquinho a buscar o exílio
antes que o regime o prendesse. Em vez de lapidar seu esquerdismo
num país pobre, o destemido agitador fugiu para a Universidade
de Oxford, na Inglaterra. A vocação para o radicalismo
chique seria recompensada em jantares com Marlon Brando e entrevista
com John Lennon. Uma vez estabelecido confortavelmente em Londres,
Ali nunca voltou a morar em seu país natal. Hoje ele vive
no bairro artístico de Hampstead, onde recebe os amigos se
dedicando ao hobby de cozinhar pratos paquistaneses.
A principal tribuna de Ali é
a revista de esquerda New Left Review, atualmente dirigida
por sua mulher, Susan Watkins. O próprio Ali comandou a publicação
nos anos 90, depois de uma mudança qualificada como "golpe
capitalista" por alguns colaboradores veteranos que se viram forçados
a sair da revista. No tal golpe, o intelectual marxista Perry Anderson
fez valer seus direitos de acionista e deu fim a uma tradição
de gestão colegiada da revista ao indicar novos chefes. "Tariq
Ali foi o instrumento de Anderson nesse processo", diz Christopher
Bertram, professor de filosofia da Universidade de Bristol, que
esteve entre os expurgados. Sob nova direção, a revista
alterou sua linha em algumas áreas sensíveis. Ignorando
as catástrofes humanitárias das guerras da Bósnia
e do Kosovo, opôs-se à intervenção da
Otan nesses conflitos e até recusou o texto de um
colaborador que foi ver a guerra de perto (e Ali gosta de acusar
a "autocensura" da imprensa americana). Depois da Guerra do Iraque,
os artigos de Ali e Susan na NLR passaram a defender uma
certa "resistência" contra a "recolonização"
anglo-americana. Como a insurgência ativa no Iraque está
na mão de terroristas da Al Qaeda e de remanescentes do Partido
Baath, de Saddam Hussein, pode-se supor que esses são os
heróis do casal. "O que Ali chama de 'resistência iraquiana'
é um dos movimentos mais reacionários do mundo", diz
Bertram.
Ora, reacionarismo não
é problema desde que o reacionário em questão
esteja, claro, contra os Estados Unidos. Em artigo recente na NLR,
Ali elogia o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad e defende
o direito do Irã de ter armas nucleares. O farol da civilização,
porém, não é o Irã é a
Venezuela, pátria da gloriosa Revolução Bolivariana.
Ali, que faz parte do conselho de assessores da teleSUR, a rede
de televisão oficial da Venezuela, lamenta que o mundo islâmico
não conte com um líder popular da fina estirpe de
Hugo Chávez. A pobreza na Venezuela está crescendo,
e o governo ameaça cassar concessões de TV dos opositores
mas Ali diz que a vibrante democracia venezuelana é
o paraíso dos excluídos.
Com uso muito liberal de fontes
e números, Ali é um Michael Moore (o cineasta de Fahrenheit
11 de Setembro) com um grau a mais de conhecimento histórico
e alguns graus a menos de humor. A irracionalidade hidrofóbica
com que o escritor paquistanês investe contra o Grande Satã
americano contamina até seus romances históricos.
A ação de Um Sultão em Palermo transcorre
no século XII, muito antes de um país chamado Estados
Unidos entrar em cena. Mesmo ali, há um chamado à
resistência antiimperialista: Bagdá é referida
como "a cidade que nunca cairá". Pois é. Caiu.
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Sempre do lado errado
O intelectual paquistanês
Tariq Ali é um consagrado campeão das
piores causas internacionais
BÓSNIA
Srdjan Ilic/AP
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Contrário à
intervenção da Otan na Guerra da Bósnia,
Ali diz que o líder sérvio Slobodan Milosevic
foi demonizado pela imprensa ocidental e que
o que houve nos Bálcãs não foi
genocídio, mas uma "desagradável guerra
civil"
IRAQUE
Sami Aburiya/AP
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Ali pede solidariedade
à "resistência" iraquiana contra a "colonização"
americana e omite o fato incômodo de que
os tais insurgentes são terroristas e
antigos membros da ditadura de Saddam Hussein
VENEZUELA
Fernando Llano/AP
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Amigão de Hugo
Chávez, Ali diz que a Venezuela é
o país mais democrático da América
Latina e comete o desplante de comparar a política
de empobrecimento de Chávez ao New Deal do presidente
americano Franklin Roosevelt
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