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Diogo
Mainardi
Na cova cultural
"Tenho medo de Caetano Veloso. Ele cisma
comigo. Vai acabar me dedicando uma música.
Quando isso acontecer, todo mundo vai me
apontar na rua e dizer: 'Olha lá o novo Menino
do Rio, olha lá o novo Leãozinho, olha lá a
nova Tigresa'"
É aborrecido escrever todas
as semanas sobre Lula. Mas escrever sobre cultura é ainda
pior. Cultura é a minha área. Foi o que eu fiz até
outro dia. É onde normalmente está minha coluna. Nas
páginas de cultura. Ou, na hipótese mais benevolente,
nas páginas de entretenimento. Escrever sobre entretenimento
é ligeiramente menos indecoroso do que sobre cultura. Cultura
é o tema mais rasteiro que há. Entretenimento vem
em segundo lugar. Passei os últimos quatro anos simulando
interesse pela bestialidade lulista, engolindo minha repulsa por
ele. Foi só por isso: para me afastar temporariamente da
cultura. Agora que Lula acabou, serei sepultado de novo na cova
cultural.
Parei de ler os suplementos de
cultura dos jornais cerca de dois anos atrás. Estou retornando
aos poucos, com cautela. Os colunistas continuam os mesmos. Se algum
deles morreu de lá para cá, lamento muito, nem percebi.
Além de publicar artigos nos jornais, os colunistas passaram
também a publicar em blogs. Quem se saiu melhor no novo meio
foi Marcelo Coelho. Quando parei de ler seus artigos na Folha Ilustrada,
ele dava conselhos de leitura. Atualmente, dá conselhos na
internet sobre como educar os filhos. Tenho dois filhos malcriados,
mais ou menos da mesma idade dos filhos dele. Posso garantir que
Marcelo Coelho tem infinitamente mais a dizer sobre filhos malcriados
do que sobre Stendhal. Com admirável habilidade, ele soube
dar um novo rumo à sua carreira. Marcelo Coelho virou a Supernanny
da imprensa.
O cineasta petista Jorge Furtado
está rodando um filme. O Segundo Caderno de o Globo
achou que isso merecia uma matéria de primeira página.
A tese central do filme é que o investimento em cinema é
tão necessário para o país quanto o investimento
em esgoto. Para defender a tese, Furtado recebeu dinheiro do Ministério
da Cultura, do BNDES, da Petrobras. De acordo com ele, trata-se
de seu filme mais político. Não sei se ele incluiu
na lista aquele curta-metragem encomendado pelo Banco do Brasil
de Henrique Pizzolato, sacador do valerioduto. Na matéria
do Globo, Furtado diz que fez cinco campanhas para o PT.
Depois se desiludiu com a política. Apesar de desiludido
com a política, ele promete votar outra vez em Lula. Mas
acrescenta: sem "sair com minha bandeira". O Globo é
como eu. Fala sobre Lula só para tentar escapar das estreitezas
da cultura. Se cultura é Furtado, melhor falar sobre Lula.
Outro velho conhecido dos meus
tempos de cronista cultural é Caetano Veloso. Já fiz
um monte de artigos sobre ele. Terei de voltar a fazer. No último
número da revista Cult, ele reclama de minha atividade
como resenhista literário e diz que me transformei "numa
personagem". Tenho medo de Caetano Veloso. Ele cisma comigo. Vai
acabar me dedicando uma música. Quando isso acontecer, todo
mundo vai me apontar na rua e dizer: "Olha lá o novo Menino
do Rio, olha lá o novo Leãozinho, olha lá a
nova Tigresa". Não basta ter de comentar os romances de Chico
Buarque. Não basta ter de ver as novelas de Luiz Fernando
Carvalho. Não basta ter de folhear os ensaios de Moniz Bandeira.
Quem mexe com cultura também corre o risco de ser humilhado
publicamente.
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