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Entrevista: Dunga
A "era do coletivo"
O novo treinador da seleção acha
que o
futebol deixou de ser romântico e diz que o
time ideal é um misto de Romários e Dungas

Ronaldo Soares
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Oscar Cabral

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"Política,
moda e economia evoluíram.
Por que as pessoas
querem que os
jogadores continuem
como nos anos 50, 60?" |
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Pelo menos no discurso, não
se nota que o novo treinador da seleção brasileira
é um estreante na profissão. Dunga ou Carlos
Caetano Bledorn Verri , 42 anos, pontua seu raciocínio
com ensinamentos extraídos de livros de auto-ajuda. Sua familiaridade
com o tema preferido de dez entre dez técnicos de futebol
vem das muitas palestras motivacionais que fazia para empresários
(a 20 000 reais cada uma). Mas a neurolingüística deve
ser o único ponto em comum entre a seleção
do gaúcho Dunga e as de seus antecessores. O homem cujo apelido
já foi sinônimo de futebol sem graça (a era
Dunga) diz que vai acabar com as regalias das estrelas decretou
que não haverá mais quartos individuais para jogadores,
uma das exigências de Ronaldo e companhia na última
Copa. O novo treinador escolheu até um epíteto para
seu trabalho à frente da equipe: a "era do coletivo". Na
semana passada, momentos depois de fazer sua primeira convocação,
Dunga concedeu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja Sua única
experiência no comando de uma equipe de futebol foi na adolescência,
treinando o time dente-de-leite de sua escola, em Ijuí. Assumir
a seleção brasileira não é um salto
grande demais?
Dunga É um salto, mas com responsabilidade.
Sei que vou ter de aprender muita coisa rapidamente. Tenho conversado
com muitos treinadores para tentar adquirir experiência e
entender melhor como trabalhar em grupo. Sei que tenho de acelerar
meu aprendizado, por causa da cobrança que vai haver. O mais
importante é que a equipe tenha postura, seja vibrante e
se identifique muito com o povo brasileiro.
Veja Se você
fosse presidente de um grande clube, colocaria um treinador inexperiente
para dirigir seu time?
Dunga Para vencer é preciso ter coragem, correr
riscos. Nada do que você faz na vida tem garantia de que dará
certo, mas é preciso tentar. No futebol, há casos
de pessoas experientes que deram certo e que deram errado, assim
como há casos de novatos que deram certo e outros que não
funcionaram. Não pode haver preconceito pelo fato de a pessoa
ser iniciante.
Veja A seleção
que foi à Alemanha ficou marcada pela apatia da comissão
técnica, o que fez a CBF procurar um técnico com o
perfil do Bernardinho, do vôlei. Você se imagina como
ele, quicando e berrando à beira do gramado?
Dunga Admiro muito o Bernardinho, mas a gente não
pode confundir as coisas. Ele tem vibração, joga junto
com a equipe, mas não é só isso. Bernardinho
tem um trabalho qualificado. Não é só ficar
gritando, berrando. Tem de ter conteúdo, até mesmo
para haver cobrança.
Veja Até
onde vai sua autonomia na seleção? Já se comentou
que a CBF teria feito uma relação de nomes para dentre
eles você escolher a comissão técnica e até
sugerido que não fossem convocados muitos jogadores novatos,
para evitar um fracasso logo no começo.
Dunga Tenho carta-branca para trabalhar. Tanto é
verdade que o presidente Ricardo Teixeira vai dar um suporte especial,
sabendo que é a minha primeira experiência como treinador.
Ele me deu total liberdade para escolher os jogadores que eu quisesse.
Com relação à comissão técnica,
a mesma coisa. Os nomes escolhidos não vieram de lista nenhuma.
São pessoas qualificadas, competentes, que poderiam estar
em qualquer seleção do mundo.
Veja Mas o que
é exatamente esse suporte especial do Ricardo Teixeira? Ele
vai interferir no seu trabalho?
Dunga Não é isso. Suporte especial significa
que posso me dirigir diretamente a ele no caso de qualquer problema.
Em qualquer turbulência, qualquer problema meu ou da comissão
técnica, terei a liberdade de me dirigir a ele, que vai agir
em seguida.
Veja Quando
era jogador, na Copa de 98, você ficou indignado porque a
seleção encurtou um treino para comparecer a um evento
do patrocinador. Como agirá agora, como técnico, sabendo
que a relação da CBF com os patrocinadores às
vezes interfere no trabalho da seleção?
Dunga A figura importante é a seleção
brasileira, essa é a prioridade. Sponsor (patrocinador)
é um assunto totalmente administrativo, não tem nada
a ver com o meu trabalho. Agora, lógico que cada sponsor
tem seu relacionamento com a CBF. Duvido que um clube de futebol
que tem um sponsor não vá tratar bem esse cara.
Só que isso não tem interferência nenhuma no
trabalho de campo. No caso dos amistosos feitos a pedido do patrocinador,
acho que o Brasil tem de jogar. Principalmente neste momento de
formar a seleção. E tem de jogar com todo mundo, não
importa o nível do adversário.
Veja Você
andou dizendo que vai se inspirar na lição das mães
para esse trabalho na seleção. O que significa isso
exatamente?
Dunga Costumo falar nas minhas palestras que a gente
sempre busca um líder na política, na guerra, nas
batalhas, mas no fundo o maior líder que a gente pode encontrar
é a nossa mãe. Porque quem tem mais paciência
nos momentos mais turbulentos de uma família? É a
mãe, a mulher. Quem mais quer que seu marido, seus filhos,
se dêem bem na vida? É a mãe. Quem tem mais
paciência do que uma mãe? Nos momentos mais difíceis
da vida, a mãe sabe usar sua autoridade. E sempre na hora
certa.
Veja É
difícil imaginar você como uma mãezona, passando
a mão na cabeça dos jogadores. Pelo que você
foi como jogador, é de esperar um técnico rígido.
Dunga Não tem essa de treinador rígido.
Tudo depende do comportamento dos jogadores. Tem de ter hierarquia,
cada um dentro do seu espaço, sabendo dos seus limites, sempre
consciente de que o mais importante é o coletivo. Está
mais do que comprovado, em todos os setores, que quando o coletivo
é forte a individualidade se destaca. Em qualquer esporte,
em qualquer outro setor da sociedade, se o coletivo funcionar, todo
mundo sai ganhando. Então não se trata de adotar uma
linha mais ou menos rígida, e sim seguir o que tem de ser
feito. Se todo mundo se comportar bem, não tem por que ser
rígido. Agora, se alguém sair da linha, aí
vai ter intervenção.
Veja Isso significa
que você vai adotar um código de conduta? O que vai
ser liberado? Sexo na concentração, por exemplo, será
autorizado? E jogador cair na farra durante a Copa do Mundo?
Dunga Vamos analisar o dia-a-dia. O que vai valer
são as regras do bom senso. A gente convive em grupo. O que
for bom para o grupo vai ser feito. Quanto maior a convivência,
melhor. A gente vai descobrir que cada um tem de ceder um pouquinho
para viver bem com o outro. Tudo tem seu momento certo, sua hora
certa. Não acredito que se o cara ficar uma semana ou duas
sem fazer determinado tipo de coisa ficará prejudicado. Depois
ele vai ter quatro anos para fazer.
Veja Uma imagem
que marcou sua carreira foi, na final da Copa de 94, você
aparentemente xingando os críticos enquanto erguia a taça.
Hoje você está mais preparado para aceitar críticas?
Dunga Eu não xinguei a imprensa ou os críticos.
Xinguei o jornalista (um fotógrafo) na minha frente,
que queria que eu fizesse uma pose, fizesse caras e bocas para uma
foto boa para ele. Aquilo ia contra tudo o que aquela seleção
representava: o trabalho em equipe, todo mundo junto, sem vantagens
individuais, sem regalias. Meu palavrão foi para o egoísmo
de um cara em um momento tão especial para mim. Você
acha que no momento mais importante da minha vida eu iria pensar
em críticas, em coisas negativas?
Veja Se numa
Copa do Mundo fictícia um jogador do seu país ajeitasse
o meião durante uma cobrança de falta do time adversário,
outro se apresentasse 10 quilos acima do peso e outro ainda só
pensasse em recordes individuais, o que você faria como treinador?
Dunga O que o torcedor sempre quer é um jogador
vibrante, que esteja concentrado no objetivo da seleção
brasileira. Quando se perde, isso não acontece por causa
de uma situação apenas, mas de várias. Tanto
a vitória quanto a derrota são decorrência de
vários fatores que vão se acumulando e que no final
você não consegue mais controlar.
Veja Dando nome
aos bois, então: Roberto Carlos, Ronaldo e Cafu estão
nos seus planos?
Dunga Não falo em nomes. Tudo vai depender
de quem estiver em melhores condições no momento.
Ninguém joga com o nome. Se essas pessoas se tornaram famosas,
foi pelo que fizeram dentro de campo, então têm de
continuar fazendo isso. E quem estiver bem, independentemente de
nome, vai jogar.
Veja O que é
mais vital: jogar para fazer gol ou para não levar gol?
Dunga Para fazer gol é preciso recuperar a
bola o mais rápido possível. É como uma casa:
é mais fácil construir a base primeiro. Ninguém
começa uma casa pelo telhado. No campo, é a mesma
coisa. Primeiro tem de dar um suporte atrás, para que depois
o ataque possa fazer gol.
Veja E o que
você prefere: jogar bonito, mesmo que perca, ou ganhar de
qualquer jeito, mesmo jogando feio?
Dunga Tem de tentar aproximar ao máximo esses
dois conceitos: vencer e ter um bom desempenho. Sou fã do
futebol do Internacional dos anos 70, do São Paulo de Cilinho
e Telê Santana, do Flamengo de Zico, das cinco vezes em que
o Brasil foi campeão do mundo. Essas equipes souberam mesclar
eficiência com jogo bonito. O futebol da seleção
de 82 e o da de 94 seriam o casal perfeito para mim. É como
uma combinação de Romário com Dunga. Os dois
sempre quiseram vencer da sua maneira. Mas, se forem onze Dungas
num time, que chatice desgraçada. Se forem onze Romários,
que marra desgraçada. Tem de ter os dois, tem de ser uma
mescla.
Veja Você
soube aproveitar o futebol para dar um passo adiante, investindo
em cultura e conhecimento. Por que em geral nossos jogadores não
conseguem ir além do circuito carrões-mulheres-badalação?
Dunga O cara muitas vezes sai de uma situação
em que não tem uma boa estrutura familiar e social e de uma
hora para outra vira uma personalidade. Isso mexe com a cabeça
dele. O que não é exclusividade do jogador de futebol.
Entre advogados, médicos, artistas, jornalistas que da noite
para o dia estouraram, muitos também cometeram erros. No
caso do jogador, isso já melhorou bastante, e a tendência
é melhorar ainda mais, por causa do maior acesso à
informação. Porque não está ligado diretamente
à escolaridade do cara o fato de ele ser inteligente ou não.
Não é por ser formado que o cara é culto. Ele
pode ter muita informação, mas cultura é uma
coisa um pouquinho diferente. As pessoas acham que cultura é
só o cara conhecer museus, quadros, cidades importantes.
Isso também faz parte, é informação
que se pode adquirir. Agora, você saber se comportar num lugar,
saber respeitar as pessoas, saber seguir as regras da sociedade,
isso começa a ter conotação de cultura. Isso
vem quando você sabe aproveitar as informações
que recebe.
Veja A Fifa
está cada vez mais empenhada em combater o racismo no futebol.
Você acha que esse é um problema com o qual as autoridades
esportivas brasileiras devam se preocupar também?
Dunga O que existe, tanto aqui quanto lá fora,
é preconceito, independentemente de questões como
cor, raça ou religião. O cara passa com o carro, as
duas perguntas são: teve sorte ou roubou? Nunca se fala que
o cara trabalhou, se dedicou, sofreu para ter aquilo. No futebol,
é preciso saber que o adversário vai xingar. Mas,
quando há um bate-boca entre dois jogadores, tem de resolver
ali. Não pode passar para a torcida nem para a imprensa.
Acabou, acabou. Aquilo que é do campo tem de morrer dentro
do campo.
Veja Por que
no fim de sua carreira você doou o dinheiro da rescisão
com o Internacional (370 000 reais, em 2000) a uma instituição
de caridade?
Dunga Sou um cara que procura ser justo. Sempre tive
aquele negócio: se eu trabalhei, eu mereço. Era um
dinheiro a que eu legalmente tinha direito, só que eu não
tinha trabalhado para receber. Não achava justo, não
ia trazer felicidade para mim, ia ser uma ferida que ficaria aberta
o resto da minha vida. Então preferi esse gesto, como forma
de retribuição. Seria muito egoísmo da minha
parte o futebol ter me dado tanto, meu país ter me proporcionado
tanta coisa, ter me dado uma oportunidade na seleção
brasileira, e eu não fazer nada em troca. Foi uma forma de
retribuir uma parcela das oportunidades que a sociedade me deu.
Veja Você
acredita que ainda existe amor à camisa ou o futebol virou
apenas uma operação de marketing?
Dunga O futebol evoluiu. A gente quer que o futebol
continue naquela era romântica, que era bonita nos anos 50,
mas as coisas evoluíram. A política evoluiu, a economia
evoluiu, a moda evoluiu, e a gente quer que o futebol permaneça
no mesmo estágio. A gente quer que o jogador seja um romântico,
como muitos daqueles jogadores dos anos 50 e 60, que não
conseguiram construir uma vida e dos quais muita gente se aproveitou.
A gente quer que todo o resto do país ande, que tudo o que
está ao redor do futebol evolua, mas que o jogador continue
naquela monotonia. Hoje isso não é mais possível.
O jogador tem de ter a vida dele fora de campo, os compromissos
de marketing ou o que for. Agora, quando entrar para treinar e para
jogar, ele tem de esquecer o resto. Entrou em campo, tem de respeitar
o torcedor, a empresa, os patrocinadores, o treinador, o adversário.
Tem de jogar, tem de se entregar totalmente.
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