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Carta ao leitor
Uma viagem ao país mais intrigante da Terra 
 | | Ribeiro,
Monica, Vilma, Lauro e Vitale, em Xangai, e seus cartões em chinês:
um império global brota do chão |
VEJA dedica 97 páginas desta edição especial à China.
É exagero? Não, quando o assunto é o país mais populoso
e o que mais cresce no planeta e que em pouco tempo será também
sua maior economia. Uma das armadilhas a ser evitadas no jornalismo é a
tentação de simplificar temas complexos. A China é um desses
temas. Nada ali é simples ou de fácil entendimento. Como uma economia
capitalista pode progredir em ritmo tão extraordinário em uma sociedade
oficialmente ainda comunista? Como pode a China atrair para seu território
as maiores empresas do mundo quando se sabe que o ambiente de negócios
ali é tisnado por níveis de corrupção que fazem empalidecer
em volume e ousadia nossos mensalões? Como pode encantar o mundo um país
que executa cerca de 1 000 prisioneiros por ano ao cabo de ritos sumários,
discrimina as mulheres, proíbe a religião, censura a imprensa e
a internet? Como uma nação pode chegar a ter, como é o caso
da China, 1 trilhão de dólares de divisas acumuladas? Como pode
manter com os Estados Unidos uma relação simbiótica que a
potência hegemônica do planeta jamais se permitiu ter com nenhuma
outra? Como a economia mundial se tornou dependente da corrente de riquezas que
une China e Estados Unidos em uma fulgurante estrela binária?
Para responder a essas e muitas outras questões, VEJA enviou à China,
sob o comando da editora executiva Vilma Gryzinski, uma equipe de jornalistas
escolhidos entre seus profissionais mais experientes em coberturas internacionais.
Durante três semanas eles testemunharam o nascimento de um império
global que, como uma ilha vulcânica, em termos históricos, brota
do chão quase instantaneamente. "Em 1993 fiz minha primeira viagem à
China e usei uma bicicleta como meio de transporte. Agora vi bicicletas esgueirando-se
entre carros de luxo à sombra de arranha-céus que poderiam muito
bem estar nas ruas de Nova York ou Tóquio", diz Paulo Vitale, editor de
fotografia de VEJA. Vitale registra ainda o acerto que foi a equipe ter levado
cartões de apresentação em chinês. "Todos pediam",
lembra ele. Também em sua segunda viagem
à China, Lauro Jardim, chefe da sucursal de VEJA no Rio de Janeiro, assustou-se
com o ritmo das mudanças e com a força gravitacional da economia
chinesa para atrair capitais. Diz Lauro: "A rota principal dos investimentos globais
desemboca na China". Monica Weinberg, editora de educação, notou
uma disposição incomum dos entrevistados de todas as idades em se
medir com os demais países. "Eles querem ser os líderes e, em todos
os campos, superar os países ricos", diz Monica. Na terra do filho único,
ela, grávida de sete meses, ouvia sempre a mesma pergunta: "É o
primeiro?". "Não, o terceiro", respondia para espanto absoluto.
A Antonio Ribeiro, correspondente de VEJA em Paris, coube como foco principal
de sua cobertura na China verificar in loco as agruras do mundo rural, onde vivem
800 milhões de chineses ainda alijados do surto de progresso que, em três
décadas, já arrancou outros 400 milhões da miséria.
Diz Ribeiro: "No campo chinês ainda estão em ação as
forças mais retrógradas da história da China, a ditadura
comunista e a tradição milenar de exploração dos despossuídos".
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