Luiz
Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)
Debret,
pintor brasileiro
"O
artista que refletiu sobre a sociedade brasileira antes de transpô-la
para suas aquarelas e desenhos
aparece agora em Paris transfigurado em pintor brasileiro"
Ilustração Ale Setti
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Paralelamente aos eventos transcorridos no Brasil, os festejos
do Descobrimento têm dado lugar a diversas comemorações
nos Estados Unidos e na Europa. Por iniciativa brasileira, está
sendo apresentada no Palácio da Ajuda, em Lisboa, uma exposição
das aquarelas e das litografias de Jean-Baptiste Debret (1768-1848).
No próximo mês, essa mesma mostra será inaugurada
em Paris. Desse modo, a capital da França, onde Debret
nasceu, estudou e morreu, recebe, 150 anos após a sua morte,
a obra desse artista que ficará conhecido nos anais da
arte ocidental como o maior pintor do Rio de Janeiro oitocentista.
O destino singular de Debret reproduz, na sua trajetória
artística, as circunstâncias históricas extraordinárias
que engendraram o império do Brasil.
Em Paris, Debret foi discípulo de David (1748-1825), que,
além de ser seu primo, foi expoente do neoclassicismo e
"pintor oficial" da Revolução Francesa e do imperador
Napoleão Bonaparte. Nessa primeira fase de sua vida artística,
Debret marchou à sombra de David. Pintou quadros sobre
o heroísmo dos antigos romanos, com quem os republicanos
franceses gostavam de parecer, e sobre Bonaparte, que só
gostava de aparecer como herói. Se tivesse ficado por aí,
o nome de Debret não teria ultrapassado os corredores laterais
dos museus onde estão penduradas as telas mortiças
de sua fase parisiense. Longe do brilho de seu colega Ingres (1780-1867),
também discípulo de David, mas que se liberou do
mestre para evoluir em direção do romantismo e dos
movimentos precursores da pintura moderna, garantindo aos seus
quadros um lugar de destaque no Museu do Louvre.
Resta que Debret deu com os costados no Brasil, onde morou de
1816 a 1831. Como acontecia com a instituição monárquica
portuguesa transferida através do oceano, o pintor neoclássico
francês foi forçado a se adaptar às circunstâncias
do novo Estado que despontava na América do Sul. No Rio
de Janeiro, sua residência principal, Debret testemunhou
as vicissitudes da corte portuguesa arribada na Guanabara, os
conflitos da independência, o assentamento do Primeiro Reinado.
De volta a Paris, ele dedicou-se aos três volumes de sua
Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839),
obra que combina a representação pictórica
com o comentário escrito das cenas da sociedade brasileira.
Para todos os efeitos práticos, Debret tem pouco a ver
com outros estrangeiros que deixaram narrativas mais ou menos
coerentes sobre o Brasil, ou com pintores europeus que plantaram
seus cavaletes nas nossas praias durante alguns meses, entre um
navio e outro, no circuito do exotismo paisagístico sul-americano.
Ao contrário desses observadores acidentais, Debret se
estabeleceu para ficar, seguiu de perto as intrigas da corte,
a política do país e o cotidiano carioca, ajudou
a fundar a Academia de Belas Artes, fez escola, formou discípulos
brasileiros, como o pintor e crítico de arte Araújo
Porto Alegre (1806-1879).
Acima de tudo, Debret aproveitou os anos de sua vida no Rio para
refletir sobre a sociedade brasileira antes de transpô-la
para suas aquarelas e desenhos. Sua pintura funcionava num duplo
registro. De um lado, como pintor oficial da coroa, Debret caprichou
no simbolismo político, imprimindo um aspecto majestoso,
imitado das cerimônias da corte de Bonaparte em Paris, aos
eventos fundadores do império, como no seu quadro Coroação
de Dom Pedro, Imperador do Brasil. De outro lado, noutros
quadros e aquarelas, ele captava a gente das ruas cariocas, os
paradoxos de uma sociedade quase ocidental, de uma capital de
império povoada de escravos.
Foi esse último Debret, o pintor dos paradoxos da sociedade
brasileira, tão perto e tão longe de nós,
que ficou na história da arte ocidental e aparece agora
em Paris transfigurado em pintor brasileiro.