Artes e Espetáculos Ensaio

Esta semana
Sumário
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
X-Men, de Bryan Singer
Kadosh mostra o mundo dos judeus ortodoxos
Uma biografia de Galileu Galilei
O sucesso do programa No Limite
Livros na novela das 8
A vocação de Renato Russo para o marketing
Daniel Barenboim, o egocentrado

Colunas
Diogo Mainardi
Luiz Felipe de Alencastro
Sérgio Abranches
Roberto Pompeu de Toledo

Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA on-line
Radar
Contexto
Holofote
Veja essa
Arc
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
VEJA Recomenda
Os mais vendidos

Arquivos VEJA
Para pesquisar nos arquivos da revista, digite uma ou mais palavras

Busca detalhada
Arquivo 1997-2000
Busca somente texto 96|97|98|99
Os mais vendidos
 

Roberto Pompeu de Toledo

Entrevista: João da Ega

Portugal, nas palavras de um atrevido português – em honra a seu criador e como espelho do que somos

– Como o senhor definiria Portugal, em quatro palavras?

– Isto é uma choldra.

Mas não está melhorando? A política do país não mostra progresso?

– A política! Isso tornou-se moralmente e fisicamente nojento. Os políticos hoje são homens de engonço que fazem gestos e tomam atitudes porque dois ou três financeiros por trás lhes puxam os cordéis... Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados! Mas qual! Aí é que está o horror. Não têm feitio, não têm maneiras, não se lavam, não limpam as unhas... Os três ou quatro salões que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria dos políticos. E por quê? Porque as senhoras têm nojo.

Quem está com a palavra é João da Ega, português cujo nome soa a escândalo, adepto do "massacre das classes médias", do amor livre e da repartição das terras, tão peculiar pelas idéias como pela figura esgrouvinhada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um monóculo entalhado no olho direito. Continuemos a entrevista.

E, no entanto, na imprensa, lêem-se com freqüência elogios aos políticos, descritos como homens de grande talento...

– É extraordinário! Neste abençoado país todos os políticos têm "imenso talento". A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um "talento de primeira ordem". Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de "robustíssimos talentos". De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este fato supracômico: um país governado com imenso talento, que é de todos na Europa, segundo consenso unânime, o mais estupidamente governado!

O que se deve fazer diante disso?

– Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!

João da Ega, se o leitor não sabe, é personagem do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. As perguntas desta entrevista são inventadas. As respostas são todas extraídas do livro. Neste mês de agosto, faz 100 anos que Eça de Queiroz morreu, em Paris, aos 55 anos. Os Maias é considerado sua obra-prima e João da Ega um personagem no qual o autor teria retratado a si próprio. Esta é uma das razões pelas quais se escolhe Ega para homenagear Eça. A outra razão vai-se expor ao final.

O senhor censura muito a falta de soluções próprias em Portugal...

– Aqui importa-se tudo. Leis, idéias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima com os direitos de alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.

O senhor seria capaz de dar exemplos do que está dizendo? De como as importações chegam deformadas a Portugal?

– O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito na ponta; imediatamente o janota estica-o e aguça-o até ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; imediatamente retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve dizer que lá fora se levanta o nível da instrução; imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras a metafísica, a astronomia, a filologia, e egiptologia, a cresmática, a crítica das religiões comparadas e outros infinitos terrores.

O senhor uma vez viu um certo Sousa Neto perguntar se na Inglaterra também havia literatura, como em Portugal. Que faz esse Sousa Neto?

– Oficial superior duma grande repartição do Estado!

Qual?

– Ora, de qual! De qual há-de ser?... Da instrução pública!

Mas Portugal tem também gente valente, capaz de enfrentar o inimigo... Se a Espanha tentasse uma invasão, por exemplo...

– Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história!

O Exército não é bem treinado?

– Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no hospital! Com meus olhos vi um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as praças literalmente largaram a fugir, com a patrona a bater-lhe os rins; e o oficial, enfiado de terror, meteu-se para uma escada, a vomitar!

A outra razão para escolher João da Ega é que ele, assim como Eça de Queiroz, teve uma relação conflitada com Portugal, mescla de amor e ódio, vergonha e afeto, tão cheia de desânimo quanto de torcida para que desse certo, e nisso lembra a relação que muitos brasileiros têm hoje com o Brasil. De certa forma, 100 anos depois, repetimos João da Ega.

Uma última pergunta: como o senhor definiria Portugal, em cinco palavras?

– Isto é uma choldra torpe.

Copyright 2000
Editora Abril S.A.
  VEJA on-line | Veja São Paulo | Veja Rio | Veja Recife | Guias Regionais
Edições Especiais | Site Olímpico | Especiais on-line
Arquivos | Downloads | Próxima VEJA | Fale conosco