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Roberto
Pompeu de Toledo
Entrevista:
João da Ega
Portugal,
nas palavras de um atrevido português em honra a seu
criador e
como espelho do que somos
Como o senhor definiria Portugal, em quatro palavras?
Isto é uma choldra.
Mas não está melhorando? A política
do país não mostra progresso?
A política! Isso tornou-se moralmente e fisicamente
nojento. Os políticos hoje são homens de engonço
que fazem gestos e tomam atitudes porque dois ou três financeiros
por trás lhes puxam os cordéis... Ainda assim podiam
ser bonecos bem recortados, bem envernizados! Mas qual! Aí
é que está o horror. Não têm feitio,
não têm maneiras, não se lavam, não limpam
as unhas... Os três ou quatro salões que em Lisboa
recebem todo o mundo, seja quem for, largamente, excluem a maioria
dos políticos. E por quê? Porque as senhoras têm
nojo.
Quem está com a palavra é João da Ega, português
cujo nome soa a escândalo, adepto do "massacre das classes
médias", do amor livre e da repartição das
terras, tão peculiar pelas idéias como pela figura
esgrouvinhada e seca, os pêlos do bigode arrebitados sob o
nariz adunco, um monóculo entalhado no olho direito. Continuemos
a entrevista.
E, no entanto, na imprensa, lêem-se com freqüência
elogios aos políticos, descritos como homens de grande talento...
É extraordinário! Neste abençoado país
todos os políticos têm "imenso talento". A oposição
confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias,
têm, à parte os disparates que fazem, um "talento de
primeira ordem". Por outro lado a maioria admite que a oposição,
a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está
cheia de "robustíssimos talentos". De resto todo o mundo
concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto
este fato supracômico: um país governado com imenso
talento, que é de todos na Europa, segundo consenso unânime,
o mais estupidamente governado!
O que se deve fazer diante disso?
Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham,
se experimentem uma vez os imbecis!
João da Ega, se o leitor não sabe, é personagem
do romance Os Maias, de Eça de Queiroz. As perguntas
desta entrevista são inventadas. As respostas são
todas extraídas do livro. Neste mês de agosto, faz
100 anos que Eça de Queiroz morreu, em Paris, aos 55 anos.
Os Maias é considerado sua obra-prima e João da
Ega um personagem no qual o autor teria retratado a si próprio.
Esta é uma das razões pelas quais se escolhe Ega para
homenagear Eça. A outra razão vai-se expor ao final.
O senhor censura muito a falta de soluções
próprias em Portugal...
Aqui importa-se tudo. Leis, idéias, filosofias, teorias,
assuntos, estéticas, ciências, estilo, indústrias,
modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo
paquete. A civilização custa-nos caríssima
com os direitos de alfândega: e é em segunda mão,
não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas.
O senhor seria capaz de dar exemplos do que está
dizendo? De como as importações chegam deformadas
a Portugal?
O figurino da bota que veio de fora era levemente estreito
na ponta; imediatamente o janota estica-o e aguça-o até
ao bico de alfinete. Por seu lado, o escritor lê uma página
de Goncourt ou de Verlaine em estilo precioso e cinzelado; imediatamente
retorce, emaranha, desengonça a sua pobre frase até
descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o legislador ouve
dizer que lá fora se levanta o nível da instrução;
imediatamente põe no programa dos exames de primeiras letras
a metafísica, a astronomia, a filologia, e egiptologia, a
cresmática, a crítica das religiões comparadas
e outros infinitos terrores.
O senhor uma vez viu um certo Sousa Neto perguntar se
na Inglaterra também havia literatura, como em Portugal.
Que faz esse Sousa Neto?
Oficial superior duma grande repartição do
Estado!
Qual?
Ora, de qual! De qual há-de ser?... Da instrução
pública!
Mas Portugal tem também gente valente, capaz de
enfrentar o inimigo... Se a Espanha tentasse uma invasão,
por exemplo...
Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça
à fronteira, o país em massa foge como uma lebre!
Vai ser uma debandada única na história!
O Exército não é bem treinado?
Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada
em massa no hospital! Com meus olhos vi um marujo sueco, um rapagão
do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as
praças literalmente largaram a fugir, com a patrona a bater-lhe
os rins; e o oficial, enfiado de terror, meteu-se para uma escada,
a vomitar!
A outra razão para escolher João da Ega é que
ele, assim como Eça de Queiroz, teve uma relação
conflitada com Portugal, mescla de amor e ódio, vergonha
e afeto, tão cheia de desânimo quanto de torcida para
que desse certo, e nisso lembra a relação que muitos
brasileiros têm hoje com o Brasil. De certa forma, 100 anos
depois, repetimos João da Ega.
Uma última pergunta: como o senhor definiria Portugal,
em cinco palavras?
Isto é uma choldra torpe.
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