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Eu sou o bom

Daniel Barenboim: pianista, maestro e narcisista

Sérgio Martins

O argentino naturalizado israelense Daniel Barenboim é um fenômeno no mundo da música clássica. Aos 58 anos, ele é um dos poucos artistas dessa área a ser reconhecido pelo talento notável em duas especialidades. Como pianista, é um dos melhores do mundo. Como maestro, é o titular da esplêndida Sinfônica de Chicago e atua como regente convidado nos principais conjuntos do planeta. Neste ano, os brasileiros terão a sorte de ver o músico em suas duas versões, com e sem a batuta. Nesta semana, o Barenboim pianista se apresenta em São Paulo e no Rio de Janeiro. Em outubro, retorna à frente da Sinfônica de Chicago. Promete, na ocasião, mostrar seu número favorito, que é reger e tocar piano simultaneamente, num concerto de Mozart. "Eu sou Leonard Bernstein e Glenn Gould ao mesmo tempo", bravateia, numa alusão a um dos maiores regentes e ao maior pianista do século.

Além do talento musical, Daniel Barenboim é conhecido pela habilidade como frasista e pelo espírito competitivo. Recentemente, esteve nas manchetes dos jornais como favorito para substituir Claudio Abbado no pódio da Filarmônica de Berlim. Barenboim estava louco para assumir o cargo, que equivale ao papado da música sinfônica. Como mora na capital da Alemanha, onde rege outra orquestra, a da Ópera Estatal, passava todos os dias na sede da Filarmônica para tomar uma cervejinha com os músicos e cabalar votos. Chegou a prometer que usaria sua influência para conseguir mais verbas para o conjunto. No final, o regente escolhido, por eleição direta, foi o inglês Simon Rattle. Barenboim ficou muito chateado, mas mantém a pose. "Daqui a cinco anos, vamos ver quem terá realizado trabalhos mais significativos", disse ele a VEJA na semana passada. É isso mesmo: Barenboim pretende envolver a orquestra da Ópera Estatal de Berlim numa espécie de disputa turfística com a rival. Sabendo que Abbado iria lançar uma integral das sinfonias de Beethoven pouco antes de deixar a filarmônica, ele se antecipou e fez o mesmo com seu próprio conjunto. Detalhe: sua versão chegou às lojas na frente da de Abbado. Simon Rattle pode esperar uma briga boa quando assumir a filarmônica em 2002. Barenboim não diz com todas as letras que foi preterido por ser judeu, mas gosta de deixar a questão no ar. "Eu seria um tolo se dissesse que não existe racismo em Berlim." Ele também tem uma frase pronta para quando lhe perguntam se a época dos grandes regentes terminou com a morte de Bernstein e Karajan. "Eu tenho 58 anos e só pretendo parar aos 80. Ou seja, teremos ainda mais 22 anos com pelo menos um maestro do meu nível em atividade."

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