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O transgênico já é parte
da sua vida

O artigo que pode revolucionar a produção
de alimentos terá rótulo especial no Brasil

Carlos Rydle e Rachel Verano


Charles Bennett/AP
Ambientalista protesta nos Estados Unidos: "Frankenfood"


O consumidor brasileiro vai em breve deparar com a expressão "alimento geneticamente modificado" estampada no rótulo de diversos alimentos industrializados. A expressão é sinônimo de transgênico, termo mais conhecido devido ao estardalhaço de seus inimigos nacionais, que vão de ambientalistas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST. Na semana passada, uma comissão com representantes de quatro ministérios começou a definir o que se vai escrever nas embalagens. A intenção do governo é colocar um mínimo de ordem – e também uma borrifada de água fria – numa polêmica que ameaça descambar para a histeria. Na terça-feira, pela primeira vez no Brasil, a Secretaria de Saúde de São Paulo, Estado que há seis meses exige a identificação nos rótulos, determinou o recolhimento de artigos suspeitos de conter matéria-prima alterada geneticamente. Na semana anterior, um piquete do MST tomou um navio carregado de milho argentino ancorado no porto do Recife e tentou pôr fogo na carga. No Rio Grande do Sul, o plantio desse tipo de semente está proibido desde que o PT chegou ao governo. A verdade é que, de uma forma ou de outra, os transgênicos já estão na mesa do brasileiro. Eles chegam sobretudo em produtos importados dos Estados Unidos ou da Argentina, países que cultivam comercialmente grãos de laboratório. Muitos brasileiros, sobretudo no Rio Grande do Sul, também estão plantando, mas clandestinamente, sementes contrabandeadas do país vizinho.

A controvérsia sobre os transgênicos não é uma excentricidade brasileira, mas um assunto que eletriza o mundo. Na verdade, irrompeu assim que as colheitas geneticamente modificadas chegaram ao mercado em meados dos anos 90. Os primeiros protestos foram dos ambientalistas europeus e de grupos de defesa dos consumidores. Na Europa, que restringe a importação e a venda desses grãos, há boicotes organizados contra os produtos em supermercados e protestos em praça pública. No Brasil, por decisão judicial, só podem ser plantados em lavouras experimentais. O panorama é inteiramente diferente nos Estados Unidos. Lá, 60% de todos os alimentos processados apresentam modificações genéticas. Na Argentina, 90% da soja origina-se desse tipo de semente, e a área plantada saltou de 36.000 hectares para 6,9 milhões de hectares nos últimos quatro anos. Com alta produtividade e mais resistente a herbicidas, a soja permitirá a nossos vizinhos uma economia de mais de 200 milhões de dólares em 2000. Um sinal claro de que, pelo menos do ponto de vista econômico, os transgênicos são um sucesso. Hoje, 2,5 bilhões de pessoas consomem algum tipo de produto que tenha em sua composição vegetais geneticamente alterados. Estima-se que o conjunto de negócios globais com transgênicos deva gerar uma receita de 3 bilhões de dólares apenas neste ano. Em 2010, pode chegar a 25 bilhões.


Sérgio Castro/AE
Atividades do Greenpeace em supermercado paulista: apreensões


A lógica de produção dos transgênicos não é diferente da dos métodos tradicionais de hibridização, conhecidos da humanidade desde o alvorecer da agricultura, há 10.000 anos. Consiste no cruzamento de variedades de um mesmo produto, para ganhar em qualidade e produção. A diferença é que, no caso dos transgênicos, a mistura envolve seres completamente diferentes, como plantas, bactérias e vírus, dos quais é retirado um gene para desenvolver essa ou aquela qualidade. É o caso da soja patenteada pela Monsanto, empresa gigante da área de biotecnologia. Na aparência é como qualquer outra. Mas tem a vantagem de ter recebido um gene retirado de uma bactéria que confere à planta resistência a um dos herbicidas mais usados. De acordo com o fabricante, o resultado é uma redução de 15% nos custos de produção, o que permite baixar o preço final. Na quinta-feira passada, a empresa anunciou que cederá ao domínio público a patente de uma variedade de arroz enriquecida com betacaroteno. É um produto promissor para suprir uma das principais carências nutricionais das populações pobres do planeta, a vitamina A. "Nos transgênicos, há a vantagem de os genes serem usados para fins bastante específicos, enquanto nos híbridos são misturados os dois códigos genéticos completos, sem saber exatamente no que vai dar no final", diz o bioquímico Fernando Reinach, professor da Universidade de São Paulo e signatário de um recente manifesto internacional de cientistas a favor do uso de transgênicos.

Os transgênicos são o início de uma nova era na agricultura. Prometem ser o equivalente do século XXI à revolução verde, que triplicou a produção agrícola nos anos 60. Se é assim tão bom, por que tanta gente sente os cabelos arrepiarem ao ouvir a palavra transgênico? A hostilidade tem raízes numa preocupação natural: os produtos geneticamente modificados ainda não são conhecidos o suficiente para ser usados com segurança. É razoável perguntar se um grão adaptado para resistir a herbicidas não irá igualmente desencadear o desenvolvimento de proteínas desconhecidas no organismo humano capazes de provocar reações alérgicas. Apesar da aparente simplicidade teórica, a manipulação genética é complexa e exige precauções enormes, como cuidados para que o pólen das plantas modificadas não fecunde outras espécies silvestres e crie monstrengos vegetais. Até hoje isso nunca aconteceu, mas ainda não é uma hipótese totalmente descartada. "Não conhecemos os riscos de juntar organismos que jamais se cruzariam na natureza", argumenta Mariana Paoli, coordenadora da campanha de engenharia genética do Greenpeace no Brasil. "Não podemos ser cobaias de uma tecnologia que não está suficientemente comprovada", diz. Os ambientalistas adotaram uma expressão maldosa para os transgênicos: "Frankenfood". É a mistura de Frankenstein, o monstro criado por um cientista louco, e food (comida em inglês). É bom que se diga que, embora as objeções sejam lógicas, desde 1996, quando as primeiras versões comerciais de grãos transgênicos foram postas à venda, nunca foi detectado nada de anormal.


Geyson Magno/ Ag. Lumiar
Navio invadido pelo MST no Recife: milho importado visto como ameaça à soberania


Grande parte da balbúrdia e da antipatia provocada pelos transgênicos deve-se ao perfil da primeira geração dos produtos que chegou ao mercado. Projetados por grandes empresas de biotecnologia, ganharam a conotação de artigos estritamente comerciais. O fato de serem mais resistentes a herbicidas e pragas foi ofuscado pela impressão de que serviam sobretudo para que os laboratórios e a agroindústria ganhassem dinheiro, sem nenhum benefício perceptível ao consumidor. Não ajudou em nada o fato de a primeira soja da Monsanto ter sido estéril. Ou seja, em vez de poder guardar parte da colheita para usar na próxima semeadura, o agricultor era forçado a comprar novas sementes a cada ano. A empresa já suprimiu essa característica do produto e tem feito de tudo para mudar a própria imagem. A entrega da fórmula do arroz vitaminado é uma dessas providências.

Boa parte dos laboratórios já tem em suas linhas de pesquisa a segunda e a terceira gerações, com genes que aumentam o valor nutricional dos vegetais e combatem doenças infecciosas. Os benefícios deixarão de ser apenas dos agricultores e chegarão de forma explícita aos consumidores. Nessa categoria inclui-se 1 milhão de crianças que morrem a cada ano por deficiência de vitamina A e as 350.000 que ficam cegas. Como disse o ex-presidente americano Jimmy Carter, "O inimigo não é a biotecnologia, mas a fome". O rótulo de "ganância capitalista", contudo, está firmemente apegado à palavra transgênico. Isso vale para qualquer lugar do mundo. E explica, em parte, por que o MST, a Pastoral da Terra e outros grupos de esquerda ocuparam a trincheira que em outros países é dos ambientalistas. No Rio Grande do Sul, o governador petista, Olívio Dutra, já botou até mesmo a PM para destruir plantações.

O MST argumenta que os transgênicos são mais uma investida para tornar o país dependente das multinacionais. "Esses produtos são um atentado contra nossa soberania e vão acabar de vez com a agricultura familiar no país", vocifera Rommel Fiqueiredo, do MST de Pernambuco. Ele liderou a invasão ao navio liberiano cheio de milho argentino atracado no Recife. O milho foi trazido ao Brasil para suprir a falta de ração para os frangos criados no Nordeste provocada pela escassez do grão no mercado nacional. A ideologia é curiosa nesse aspecto. Apesar de nos assentamentos os colonos usarem pesticidas e herbicidas – aliás, como em qualquer lavoura brasileira – , a doutrina oficial do movimento acalenta a utopia de que é possível produzir alimentos em grande escala sem o uso de produtos químicos ou a manipulação genética da semente.

Há outro perigo no surto fóbico em torno da biotecnologia – pode comprometer a possibilidade de a ciência brasileira desenvolver transgênicos nacionais. "É uma confusão que transformou o assunto em ideologia, religião, política – tudo, menos ciência", critica Luiz Antônio Barreto de Castro, responsável pela área de recursos genéticos e biotecnologia da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Na área de transgênicos, a empresa pública pesquisa variedades de soja, feijão, mamão, banana, batata e algodão com tolerância a herbicidas e resistência a vírus, fungos e insetos. "Temos de considerar que, hoje, a Embrapa detém 70% das variedades de soja disponíveis no mercado brasileiro", diz Elíbio Rech, coordenador do Laboratório de Transferência de Genes. A gritaria em torno dos transgênicos pode pôr tudo por água abaixo, já que os números indicam que o futuro inevitavelmente passa por eles.

 

Colaborou Raul Justes Lores, de Buenos Aires

 
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