Armação
ilimitada
Manobra
jurídica transforma precatórios
que não valiam nada em
fortuna de
2 bilhões de reais
Marcelo
Carneiro
José Carlos Veloso
 |
| Amigo
de Falk, o juiz Regueira recebeu dois processos sobre os títulos:
coincidência |
Há três anos, a enciclopédia dos grandes escândalos
financeiros no Brasil ganhou um verbete encorpado. Com a CPI dos
Precatórios, foi possível conhecer os bastidores das
complicadas transações envolvendo bancos, títulos
públicos e governantes de três Estados brasileiros.
As denúncias revelaram um dos maiores assaltos aos cofres
do Tesouro da história do país. A CPI comprovou que
boa parte dos títulos, destinados a honrar dívidas
dos governos de Santa Catarina, Pernambuco e Alagoas cobradas na
Justiça, não passava de uma grosseira fraude (veja
quadro). Os títulos, com a credibilidade reduzida
a zero, tornaram-se um mico no mercado. Agora, uma bem-sucedida
manobra jurídica garante que esses papéis ressurjam
do pó e voltem a valer cerca de 2 bilhões de reais.
A ação beneficia bancos, como o Bradesco, fundos de
pensão e alguns figurões do mercado financeiro. No
meio dessa turma está o carioca Artur Falk, ex-banqueiro
e ex-dono do Papatudo. O sucesso dessa urdidura jurídica
deve forrar-lhe os bolsos o suficiente para devolver a ele o
comando do grupo Interunion, que está sob intervenção
federal há quatro anos.
O
novo capítulo dos precatórios tem um enredo ainda
mais espantoso que o original. Para que esses títulos se
tornassem novamente válidos, foi necessária a participação
de juízes federais do Rio de Janeiro e de senadores. Em momentos
distintos, tanto a Justiça do Rio quanto o Senado, responsável
pelas investigações da CPI dos Precatórios,
reconheceram a validade dos títulos e aprovaram o refinanciamento
das dívidas dos Estados com a União. Isso apesar de
sentenças de tribunais estaduais e decretos governamentais
terem declarado os títulos nulos desde 1997. Tem mais. Pelo
acordo de refinanciamento, os precatórios micados foram trocados
por letras do Tesouro da União, que podem ser negociadas
sem problema, a qualquer momento. Na linguagem do mercado financeiro,
têm liquidez. Em bom português, são como dinheiro
vivo.
É exatamente esse o ponto que deixa Falk, de 52 anos, com
a faca e o queijo na mão. O ex-banqueiro anda longe dos holofotes
desde 1996, quando o grupo Interunion sofreu intervenção
do Banco Central. Na mesma ocasião, a Superintendência
de Seguros Privados interveio no Papatudo, aquela espécie
de bingo pela TV que tinha Xuxa como garota-propaganda e deixou
uma legião de consumidores incautos a ver navios. Falk tem,
através do Interunion, cerca de 80 milhões de reais
em precatórios, a maioria de Alagoas. E vai utilizar esses
papéis como moeda na negociação de uma dívida
de 56 milhões de reais com o Banco Central. Ou seja, pretende
pagar o BC com dinheiro do governo. Zerado o débito, retomará
a marca Interunion, apesar de continuar proibido de operar no mercado
financeiro.
Selmy Yasssuda
 |
| Fernando
Orotavo, o cérebro da operação: lobby em
Brasília
|
A autoria da espetacular obra de engenharia jurídica que
transformou papéis sem valor em dinheiro vivo não
é do ex-banqueiro. Fernando Orotavo Júnior, advogado
especializado na área financeira e de quem Falk é
cliente há um ano, foi o cérebro de toda a operação.
A partir de agosto do ano passado, o advogado entrou na Justiça
com várias ações reclamando a validade dos
precatórios. Todos os processos tinham como destino a Justiça
Federal do Rio e em nenhum deles o autor era Falk ou seu Interunion.
O nome de sua empresa só surgiu oficialmente em um processo
da Justiça federal em abril deste ano, às vésperas
da conclusão da manobra. As ações defendidas
por Orotavo quase sempre tinham como personagem principal pessoas
físicas, ou "pequenos investidores", como o advogado de Falk
os chamava.
Um
olhar mais atento sobre o trabalho de Fernando Orotavo revela como
foi montado o esquema bilionário. Em dois dos processos aos
quais VEJA teve acesso foi possível perceber uma notável
coincidência entre os autores das ações Marco
Ocke, que se diz portador de apenas duas letras do Tesouro de Alagoas,
e Carlos Batista, dono de outras doze letras, também de Alagoas.
Eles declaram como residência o mesmo endereço. A surpresa:
ambos dizem morar num apartamento que pertence a ninguém
menos que o próprio Fernando Orotavo. Num primeiro momento,
o advogado disse ao repórter de VEJA na quinta-feira passada
que Ocke morava em São Paulo e havia usado o endereço
de um parente para ajuizar a ação no Rio. Alertado
de que o imóvel estava registrado em seu nome, Orotavo deu
uma ajeitada na explicação inicial. "Não há
nenhum problema, eu poderia até ter alugado o apartamento
para ele", afirmou.
As
coincidências não param por aí. Como única
prova de que são donos de precatórios, Ocke e Batista
apresentaram declarações de uma mesma empresa, a Karta
Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários. Em
13 de agosto do ano passado, a Karta, por intermédio do onipresente
Fernando Orotavo, pediu à juíza Márcia de Barros,
então à frente da 16ª Vara Federal do Rio, para
ser incluída na ação movida por Ocke. Quatro
dias depois, essa ação teve uma decisão favorável.
A juíza concedeu ao advogado um instrumento jurídico
chamado tutela antecipada, uma espécie de liminar que tornava
válidos os títulos de Alagoas. Dez dias após
a tutela, Orotavo entrou na Justiça com uma nova petição,
requerendo o ingresso de oito empresas que se dizem donas de títulos
do Estado de Alagoas. A ação original do "pequeno
investidor" tinha como valor da causa 5.000
reais. No fim, com o ingresso das empresas, já alcançava
65 milhões de reais. O mesmo expediente foi usado para também
tirar da nulidade precatórios de Pernambuco.
Não
há ilegalidade alguma nas manobras usadas por Orotavo. A
distribuição de uma mesma ação em várias
varas de Justiça, com autores diferentes, é uma prática
comum entre os advogados. O bem montado esquema, porém, esconde
outras sutilezas. Das três ações que resultaram
na validação dos títulos estaduais, duas caíram
nas mãos da juíza Márcia de Barros. Quando
decidiu considerar válidas as letras de Alagoas, Márcia
ocupava o cargo de juíza substituta da 16ª Vara Federal.
Deu a decisão favorável a Orotavo. Dois meses depois,
outra ação referente às letras de Pernambuco
foi distribuída para a 8ª Vara. Coincidentemente,
Márcia então atuava como juíza substituta nessa
vara. A decisão, é claro, foi a mesma. A Justiça
Federal do Rio tem 44 juízes para 27 varas cíveis,
e em cada uma delas tramitam todos os meses milhares de novos processos.
A distribuição das ações é feita
por um programa de computador. A probabilidade de um juiz julgar
duas causas semelhantes por meio da distribuição automática
é ínfima. É mais difícil que acertar
o número na roleta do cassino, segundo cálculos do
matemático Oswald de Souza. Mas, pelo visto, a sorte bateu
duas vezes à porta de Orotavo.
A
juíza não está sozinha na cadeia de coincidências.
Os três processos que obtiveram tutela antecipada sofreram
contestação no Tribunal Regional Federal (TRF) do
Rio por parte dos Estados, do Banco Central e do Senado. Destes,
dois foram parar no gabinete do desembargador Ricardo Regueira.
O TRF do Rio tem cinco turmas, com quatro desembargadores em cada
uma. Só neste semestre, quase 5.500
novos processos chegaram ao tribunal, mais de 1.000
por turma. Regueira, porém, foi premiado, também por
distribuição automática, com dois processos
que tratavam do mesmo assunto: os precatórios.
Juiz
federal desde 1987, Regueira é um magistrado com fama de
rigoroso. Com salário de não mais que 8.000
reais por mês, é dono de uma casa de três andares
com área superior a 600 metros quadrados em um condomínio
fechado na Zona Sul do Rio. Gosta de colecionar quadros e até
o mês passado andava a bordo de um reluzente Mercedes 280,
ano 99, máquina que não custa menos que 110.000
reais. Casado com Lana Regueira, juíza titular da 8ª
Vara Federal de onde, por acaso, saiu outra das ações
vitoriosas de Orotavo no caso , o juiz também não
economizou para dar à filha uma bela festa de casamento no
mês passado, ao preço de 50.000
reais. "Tive até de vender o carro", diz Regueira. Entre
os 800 convidados da festa, que aconteceu nos elegantes salões
do Jockey Club, estava Artur Falk, muito amigo de Regueira. "Não
vejo nenhum problema", afirma o desembargador. "Um ministro do STF
pode ser amigo do presidente e nem por isso vai deixar de julgar
casos em que ele esteja envolvido."
Regueira
decidiu favoravelmente ao caso dos precatórios de Alagoas.
Com relação ao de Pernambuco, nem foi preciso sua
ajuda. Em dezembro do ano passado, os donos de títulos, o
governo do Estado e a União fecharam um acordo validando
os papéis. Pavimentado o caminho na Justiça, outra
questão mais complicada precisava ser resolvida pelos detentores
de precatórios. O Senado, que três anos atrás
havia reduzido a pó os papéis e contribuído
para que explodissem país afora mais de 200 ações
responsabilizando ex-governadores, ex-secretários de Fazenda
e banqueiros pelo escândalo, agora discutia o refinanciamento
das dívidas dos Estados. No centro da questão estavam
os títulos podres. O que fazer com eles, já que, apesar
de fajutos, serviram para que os governos estaduais captassem recursos
e deixaram centenas de investidores com o mico na mão?
Entrou
em cena, então, a bancada da tutela antecipada. No início
de maio, o Senado aprovou projetos de refinanciamento das dívidas
de Alagoas e Santa Catarina, com a inclusão do seguinte texto:
"(....) o pronunciamento final de que trata o caput deste
artigo não poderá decorrer de acordo entre as partes,
salvo em caso de antecipação judicial de tutela".
Senadores não costumam ser tão familiarizados com
o Código de Processo Civil brasileiro a ponto de citar a
tutela antecipada num projeto. Quatro deles, porém Antônio
Carlos Valadares (PSB-SE), Geraldo Lessa (PSDB-AL), Geraldo Althoff
(PFL-SC) e Jorge Bornhausen (PFL-SC) , apresentaram emendas prevendo
o dispositivo. Orotavo admite que fez lobby pela tutela antecipada.
Entre os que se manifestaram contra a mudança, o senador
Roberto Freire (PPS-PE) foi o mais enfático. "Esse artigo
significa que estamos abrindo a possibilidade de acordo, ou seja,
de impedir que a Justiça decida se os títulos são
válidos", protestou.
Orlando Brito
 |
Sergio Dutti
 |
| Os
senadores Jorge Bornhausen, Antônio Carlos Valadares
(fotos), Geraldo Lessa e Geraldo Althoff apresentaram emendas
ao projeto de refinanciamento das dívidas estaduais afinadas
com as decisões da Justiça do Rio de Janeiro:
três anos depois que a CPI dos Precatórios descobriu
a fraude e transformou os papéis em pó, o Senado
ressuscitou os títulos |
Uma
semana antes da sessão do Senado que aprovou a mudança,
Fernando Orotavo já havia entrado com uma ação
na Justiça Federal do Rio, em nome de 21 empresas três
delas do grupo Interunion , na qual informava que a União,
o Estado de Alagoas e as empresas estavam às vésperas
de fechar um acordo para refinanciamento das dívidas. Pressionado
pela possibilidade de ser inscrito no cadastro de inadimplentes
e com uma proposta de rolagem do débito em dez anos, o governo
de Alagoas cedeu e assinou o termo de negociação.
Até o momento, apenas o governador de Santa Catarina, Esperidião
Amin, vem se recusando a negociar com os donos dos títulos
podres: "Se alguém aparecer na boca do caixa com esses papéis,
eu grito pega ladrão", diz Amin. No momento, os beneficiários
de toda essa teia de decisões já conseguiram tudo
o que queriam. Estão com a grana abarrotando seus cofres.
Hoje, as chances de uma nova reviravolta no caso parecem pequenas,
mas existem alternativas jurídicas. Para isso seria preciso
a União se mexer ou o Senado reabrir as intermináveis
discussões sobre esses nefandos precatórios.
|
Operação
foi desmascarada em 1997
Orlando Brito
 |
|
CPI
dos Precatórios: descoberta
de fraude fez
títulos virar pó
|
O
escândalo gerado em torno dos precatórios, principalmente
a partir das denúncias da CPI do Senado, acabou estigmatizando
uma palavra até então desconhecida e que não
é sinônimo de maracutaia. Precatórios
são documentos que os tribunais de Justiça de
todo o país devem emitir, até o dia 30 de junho
de cada ano, com a relação das dívidas
que os governos da União, dos Estados e dos municípios
terão de pagar. Isso ocorre porque os governos precisam
incluir essas dívidas no seu orçamento para
o ano seguinte. A maior parte desses débitos refere-se
a ações por desapropriação e indenizações
a servidores públicos. Os governos que não honrarem
esses pagamentos correm o risco de sofrer até intervenção
federal. Os precatórios podres eram, na verdade, letras
do Tesouro que os Estados envolvidos nos escândalos
emitiram usando como justificativa o pagamento de dívidas
judiciais. Só que as dívidas não existiam.
|
|
Uma
série de problemas que ninguém viu
Como é possível que um processo com erros evidentes
e sinais de favorecimento consiga transitar tranqüilamente
pela Justiça e termine por revalidar títulos
que o mercado considerava podres? Responder a essa questão
é tão difícil quanto deixar de enxergar
as incorreções contidas nas ações
que passaram pela Justiça Federal do Rio. No processo
dos precatórios de Alagoas, as evidências de
que havia algo errado, ainda que dentro da legalidade, são
patentes. Nas primeiras quarenta páginas da petição,
o autor é um "pequeno investidor", como o qualifica
o advogado Fernando Orotavo, que depois passa a ser chamado
de "autora". Na página 43, um ato falho: o advogado
explica ao juiz que está defendendo "o direito da Karta",
empresa que só iria figurar na ação após
alguns dias. Numa visão rigorosa, pode-se suspeitar
que esse investidor seja apenas um "laranja".
No processo de Pernambuco, outro "pequeno investidor", Guilherme
Rocha, apresenta um comprovante do Bradesco como prova de
que comprou duas letras de Pernambuco. Dias depois, o Bradesco
pediria para ser incluído no processo de Guilherme,
tentando tornar válidos 600 milhões de reais
em papéis do mesmo Estado. A data de emissão
da venda das duas letras ao "investidor" é 15 de setembro,
um mês antes do início do processo. Até
o mais avoado dos juízes poderia se perguntar por que
um pequeno aplicador compraria um título podre, pelo
qual teria que brigar na Justiça para provar sua validade,
em vez de investir em outra aplicação menos
complicada. Apenas o Ministério Público Federal
do Rio mostrou disposição para lançar
dúvidas sobre o processo. Em 16 de junho, o procurador
Flávio Paixão enviou à Justiça
uma manifestação contestando pontos polêmicos.
Infelizmente, a reação pode ter chegado tarde.
|
|