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Eles não conseguem

Estudo mostra que as chances de um homem
gerar filhos também diminuem com os anos

Anna Paula Buchalla

Até a semana passada, relógio biológico era uma expressão que se referia apenas a mulheres. Para quem não sabe, são aqueles ponteiros apressados que se encarregam de lembrá-las que a chance de ter filhos tem hora para acabar. Agora, um estudo inédito, publicado no último número da revista inglesa Human Reproduction, traz à tona uma revelação surpreendente: a fecundidade dos homens também é regida por um relógio biológico. Quanto mais velhos, menor a probabilidade de eles engravidarem suas parceiras. A conclusão é de pesquisadores da Universidade de Bristol e da Universidade Brunel, ambas na Inglaterra, que deram nova dimensão ao problema da infertilidade masculina. O estudo, que faz parte de um amplo projeto para avaliar os fatores que influenciam o desenvolvimento da criança desde a gestação, acompanhou durante um ano 8.500 casais. Todos querendo engravidar nesse período. Os cientistas descobriram que, quando o homem tem menos de 24 anos, a chance de ele não conseguir engravidar sua parceira depois de um ano de tentativas é de apenas 8%. Depois dos 35 anos, essa probabilidade ultrapassa os 15%. A diferença a favor dos homens ainda é considerável. A partir dos 35 anos a possibilidade de uma mulher engravidar cai para cerca de 60% se comparada à que tinha aos 25. Aos 40 anos, a chance de ter filhos é de aproximadamente 50%. "Sempre se suspeitou que a fertilidade masculina diminuía com a idade, mas até agora nenhum estudo havia comprovado isso", diz o médico Christopher Ford, do St. Michael's Hospital de Bristol, um dos coordenadores do estudo. "Os dados mostraram que os homens também começam a ter problemas depois dos 30."

É também a primeira vez que a fecundidade masculina pôde ser traduzida em números. A pesquisa examinou se, com o passar da idade, os homens ficam menos fecundos, em vez de menos férteis. Há uma diferença significativa entre esses dois termos. A fertilidade refere-se à habilidade de gerar um bebê, independentemente de quanto tempo demore para isso acontecer. Já a fecundidade representa a capacidade de produzir uma gravidez dentro de determinado período de tempo. Se um homem demora vinte anos para engravidar sua parceira, ele é considerado fértil, mas pouco fecundo. O que se sabe agora é que as chances de um homem engravidar uma mulher diminuem a cada ano. A pesquisa conclui que as chances de ele gerar um filho são reduzidas em 3% a cada ano. Também ficou claro que engravidar é mais difícil para mulheres cujo parceiro é cinco ou mais anos mais velho que elas. Ou seja: uma mulher de 20 anos tem menos chance de engravidar de um homem de 30 que de um parceiro de sua idade ou mais jovem.

As mulheres nascem com um número determinado de óvulos e perdem a capacidade reprodutiva após a menopausa. A produção masculina de testosterona, hormônio coadjuvante na geração de espermatozóides, começa a minguar a partir dos 30. Mas, exceto em caso de doença, não há limite de idade para um homem ser pai. O ator americano Anthony Quinn teve o caçula de seus treze filhos aos 80 anos. O humorista Renato Aragão acaba de ser pai aos 64. Nos dois casos, com esposas bem mais jovens: de 34 e 31 anos, respectivamente. "É realmente difícil quantificar o efeito da idade masculina na fecundação porque ele se confunde com uma série de outros fatores", diz outra pesquisadora, Kate North. "Mas os números de nosso estudo revelam que o relógio biológico masculino tem grande influência."

A pesquisa demonstra que a idade paterna deve ser levada em conta no diagnóstico de casais inférteis. Dados mundiais apontam que um em cada seis casais tem dificuldades em ter filhos. É algo como 15% da população de todo o mundo. Os resultados do levantamento podem trazer uma nova luz a esse campo, ajudando médicos que buscam prognósticos de casais inférteis. Os especialistas explicaram ainda que, à medida que os homens envelhecem, eles estão mais expostos a doenças e a outros fatores ambientais que influenciam na qualidade do esperma. "A pesquisa é louvável, mas peca por generalizar demais problemas tão particulares", diz o urologista Jorge Hallak, diretor do Centro de Reprodução Humana do Hospital das Clínicas, de São Paulo. Ele aponta o uso de álcool, o cigarro, o nível de stress, as doenças sexualmente transmissíveis e a diminuição da atividade física como fatores de forte influência na fertilidade masculina, independentemente da idade. O próprio ritmo da vida sexual dos casais pode estar relacionado com a perda de fertilidade. "Depois de certo tempo os casais tendem a fazer menos sexo", reconhece Ford.

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