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Truque assassino

Descoberto mecanismo de infecção do vírus
Ebola, que mata nove entre dez contaminados

O Ebola é um pesadelo. Capaz de liquidar suas vítimas em poucos dias, é o mais violento de todos os vírus. De cada dez pessoas contaminadas, nove morrem. Isso ocorre porque o microrganismo ataca veias e artérias de todo o corpo, provocando hemorragia generalizada. Certos órgãos, como o fígado e os rins, simplesmente se desfazem e o sangue jorra em tal profusão que sai pelos olhos e poros. Na semana passada, cientistas americanos anunciaram o primeiro passo para combater esse assassino cruel: a descoberta da proteína usada pelo Ebola para destruir as células, causando o rompimento dos vasos sanguíneos. Entender o mecanismo de infecção torna possível o desenvolvimento de recursos para controlá-lo. "Remédios exigem maior prazo de pesquisa, mas uma vacina pode ser desenvolvida com rapidez", disse a VEJA Gary Nabel, coordenador da pesquisa no Instituto Nacional de Saúde, responsável pelos estudos com o vírus, nos Estados Unidos.

A primeira epidemia de Ebola da qual se tem notícia matou 500 pessoas em 1976, no Zaire (atual Congo). Dezenove anos mais tarde, um novo surto, com 245 mortes, chocou o mundo com cenas dantescas. Temeu-se que o microrganismo se alastrasse de maneira incontrolável, causando uma catástrofe de proporções planetárias. O clima de pânico internacional foi transposto para o cinema no filme Epidemia, com Dustin Hoffman, em 1995. A preocupação justifica-se. O Ebola é um vírus rápido, com um período de incubação de duas a três semanas, que se espalha num piscar de olhos. Um simples espirro é capaz de lançar milhares de micróbios no ar. Pode ser transmitido por contato sexual, pelo sangue e por secreções de pessoas contaminadas. Mas, da mesma forma abrupta que apareceu, a epidemia se foi. Uma particularidade do Ebola é a capacidade de devastar vilas inteiras e depois sumir sem ninguém saber ao certo como nem por quê. Isso explica, em parte, que o microrganismo continue raro, restrito a algumas regiões da África. Impressiona que já se saiba tanto sobre a fisiologia de um vírus e tão pouco sobre seu comportamento. "Ainda precisamos descobrir onde ele existe na natureza e qual bicho serve de transmissor para o ser humano", diz Nabel. A descoberta de seu mecanismo de ação pode ajudar os pesquisadores a entender doenças parecidas, como a dengue hemorrágica e as infecções por hantavírus que ocorrem no Brasil.

 

Decifrado o segredo da cólera

Podemos estar a um passo da descoberta de uma arma eficaz contra um antigo inimigo da humanidade: o micróbio da cólera, doença transmitida por meio de alimentos e água contaminada. A bactéria da cólera aloja-se no intestino e provoca violenta diarréia, causando a morte por desidratação em poucos dias. Na semana passada, um grupo de pesquisadores das universidades Harvard e de Maryland, ambas nos Estados Unidos, anunciou ter decifrado o código genético do Vibrio cholerae, o causador da doença. Utilizando a mesma técnica empregada para seqüenciar o genoma humano, os pesquisadores concluíram que o microrganismo possui apenas dois cromossomos com um total de 3 885 genes. A partir desse mapeamento fica mais simples desenvolver um método eficiente de combate à doença, que mata 120 000 pessoas por ano.

Há registros de que a cólera aflige o ser humano há mais de 2 000 anos. A primeira epidemia em escala internacional dos tempos modernos ocorreu em 1817, transmitida por soldados ingleses que tinham contraído a doença na Índia. Virtualmente erradicada nos países ricos, a cólera é uma praga na América Latina, na Ásia e na África. A Organização Mundial de Saúde registrou mais de 220 000 casos no ano passado, com 8 400 mortes. No Brasil 4 495 pessoas ficaram doentes, das quais 83 morreram.

 

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