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Dose para cavalo

Onda do consumo de produtos para animais
mata lutador de jiu-jítsu no Rio de Janeiro

Ricardo Amorim

Potenay: remédio veterinário usado na recuperação de cavalos e consumido nas academias

Nos últimos tempos, muitas pessoas aderiram a uma moda no mínimo estranha: usar produtos destinados a cavalos. Mesmo absurda e sem nenhum tipo de comprovação científica, a crença de que essas fórmulas são mais eficazes ajudou a impulsionar a venda de xampus, vitaminas e pomadas veterinárias, entre outros itens. Na semana passada, pela primeira vez o hábito teve um desfecho trágico. O estudante cearense Jean Mendonça de Mesquita, de 23 anos, participava de um campeonato de jiu-jítsu quando desabou sozinho sobre o tatame, no meio de uma luta. Foi vítima de um infarto fulminante. O principal suspeito de ter provocado sua morte chama-se Potenay, um remédio indicado para cavalos com anemia. O medicamento combina vitaminas e anfetamina. Essa substância estimulante eleva a pressão arterial e aumenta a freqüência cardíaca, melhorando a respiração e a circulação. Sob efeito do produto, o coração de Jean pode ter chegado a mais de 200 batimentos por minuto, 20% acima do normal numa situação de competição esportiva. Essa arritmia é a causa mais provável do infarto. "Nós checamos se ele consumiu o remédio por indicação de alguém, mas descartamos essa hipótese", afirma o delegado Aluísio Russo, responsável pelas investigações. "Para mim, Jean tomou o Potenay por iniciativa própria."

Produtos de uso veterinário têm controle de qualidade menos rigoroso, dispensam apresentação de receita na maioria das vezes e nunca foram seriamente testados em pessoas. Alguns deles, caso dos xampus e pomadas analgésicas, não possuem grandes contra-indicações quando utilizados por seres humanos. No máximo, podem ser inócuos ou desconfortáveis (veja quadro). A categoria de produtos que oferecem riscos maiores é justamente a que está se popularizando entre os praticantes de jiu-jítsu. São os hormônios artificiais (ou anabolizantes) e os complexos vitamínicos injetáveis, como o Potenay. Segundo os lutadores que utilizam a substância, uma dose injetada na veia possibilita mais rapidez e agilidade nos movimentos.

É cada vez mais fácil encontrar nas academias um vendedor de anabolizantes para cavalos, substância preferida pelos candidatos a fortões. Esses produtos contêm hormônios que estimulam o ganho de massa muscular num prazo muito rápido. São quase idênticos aos destinados aos seres humanos, mas a moda entre os atletas é tomar doses cavalares dessa droga. A crença de que são mais eficazes não tem respaldo científico. "Em termos de aumento de massa muscular, não faz diferença utilizar anabolizante para humanos ou cavalos", afirma o professor de farmacologia da Universidade Estadual Paulista Oduvaldo Câmara Pereira, que pesquisou nos últimos anos o hábito de consumo de anabolizantes e drogas veterinárias entre os atletas. "O que coloca em risco a saúde é a quantidade exagerada do produto injetada pelos fisiculturistas", conclui ele.

Há atletas que chegam a usar 300 miligramas de anabolizante por dia, enquanto a produção média de testosterona de um homem saudável é de 17 miligramas durante o mesmo período. O abuso dessa droga tem efeitos devastadores sobre o organismo. Ela provoca disfunção hepática, queda de pêlos, atrofia dos testículos e impotência. Nos casos extremos, o hábito pode levar ao desenvolvimento de câncer no fígado. Os aminoácidos fazem parte do outro grupo de produtos bastante consumidos nas academias. São substâncias sintetizadas que aumentam o rendimento dos atletas durante o esforço físico. Estão disponíveis nas prateleiras de magazines especializados na venda de suplementos alimentares e nas lojas veterinárias. Nesse caso, a fórmula é feita sob medida para reforçar a alimentação de bípedes e quadrúpedes. Lutadores de jiu-jítsu desenvolveram a crença de que o aminoácido animal surte mais efeito, por isso consomem o produto. Exageros na dose podem sobrecarregar a função renal.

Tudo indica que Jean Mendonça de Mesquita tenha caído na tentação de vitaminar seu corpo com remédios veterinários. De acordo com a investigação policial em andamento, atletas inscritos no campeonato mundial relataram que ele injetou Potenay minutos antes da luta fatídica. O laudo médico preliminar confirma que "informações colhidas no local davam conta de que ele teria usado a substância". Um fator que pode ter contribuído para o desfecho trágico foi a predisposição da vítima a doenças cardíacas. O pai de Jean implantou cinco pontes de safena no ano passado. O lutador cursava o último ano de administração de empresas, era casado com Camila, de 20 anos, e tinha um filho, Gabriel, de apenas 11 meses. Pensava em parar de competir e abrir uma academia em Fortaleza, onde morava. O sucesso no campeonato em que morreu era parte fundamental de seu plano, já que seria promovido a faixa preta, graduação mais alta do jiu-jítsu. Nos quinze dias antes da luta fatal, obedecia a uma rigorosa rotina de oito horas diárias de treinamento. "Ele estava muito forte", afirma o treinador Giancarlo Vidal. Os resultados definitivos dos exames realizados no corpo de Jean, que serão concluídos nos próximos trinta dias, devem confirmar se a potência muscular foi obtida à custa de doses para cavalo.

 

Com reportagem de Ronaldo França,
do Rio de Janeiro

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