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Da laranja ao computador

Revista americana inclui Campinas entre
os 46 centros mais promissores centros
de tecnologia do mundo

Monica Weinberg

Ricardo Benichio
Engenheiro na Lucent: operário com curso superior


A revista americana Wired fez um levantamento para descobrir quais são os mais promissores centros de produção de tecnologia no mundo. Entre 46 pólos espalhados por cinco continentes, há uma boa surpresa brasileira. Campinas, no interior de São Paulo, aparece como uma versão latino-americana para o Vale do Silício, maior conglomerado de indústrias de microeletrônica do planeta, situado na Califórnia. Além de Campinas, a única cidade da América do Sul que figura na lista é São Paulo. As duas brasileiras estão ao lado de centros conhecidos, como Tóquio e Hong Kong, e outros bem menos óbvios, como El Ghazala, na Tunísia, e Bangalore, na Índia. Que São Paulo esteja no ranking não causa nenhum espanto. É o centro financeiro do país. O que salta aos olhos é a presença de Campinas, uma cidade de interior que até pouco tempo atrás vivia de agricultura e pecuária.

Para elaborar sua lista, a Wired levou em consideração quatro aspectos que fizeram do Vale do Silício o que ele é hoje: a presença de universidades e centros de pesquisa, a concentração de grandes empresas, a vocação para fazer surgir novos negócios e a atração de capital de risco para alavancar a economia local. Cada uma dessas características valia 4 pontos. Campinas recebeu nota máxima pelas universidades, 3 pontos pela presença de grandes empresas, 1 pela vocação para fomentar novos negócios e zero pela atração de capital de risco. Atingiu a mesma pontuação de Salt Lake City, nos Estados Unidos, e 1 ponto a mais do que Cingapura. O suficiente para que a Wired apontasse a cidade como um avançado pólo aglutinador de empresas no ramo de telecomunicações e um espetacular celeiro de cérebros.

O cenário pastoril de quinze anos atrás vem mudando radicalmente. Nos últimos três anos, 900 milhões de dólares foram investidos em indústrias de telecomunicações e informática, áreas em que Campinas emerge como o mais importante centro do Brasil. O pólo tem hoje mais de 900 empresas. Da cidade saem celulares, computadores e equipamentos de telecomunicações para toda a América do Sul. Encontram-se ali a linha de montagem e o departamento de pesquisa em novas tecnologias de gigantes como a Motorola, a Lucent, a Nortel e a Compaq. "As grandes funcionam como as âncoras de um shopping center. Atrás delas vem uma enxurrada de outros investidores", compara Manuel Carlos Cardoso, titular da Secretaria de Cooperação Internacional de Campinas, a única do país, criada para atrair e orientar novos empreendedores.

A semelhança com o Vale do Silício não está no tamanho da economia da região nem na principal mercadoria produzida. O carro-chefe dos californianos é a produção de chips para computador, enquanto em Campinas o principal filão é a indústria de telecomunicações. O ponto em comum é a atração que os centros de excelência exerceram sobre as empresas. Nos Estados Unidos, as indústrias instalaram-se próximas a universidades como Berkeley e Stanford para recrutar mão-de-obra especializada. O pólo industrial de Campinas frutificou em torno da Unicamp e da PUC, que abastecem o mercado com alunos dos melhores cursos de engenharia da computação e de telecomunicações do país. "Mudamos para Campinas atrás de mão-de-obra de alto nível", diz Renato Furtado, presidente da Lucent no Brasil. "Nossos funcionários são engenheiros que trabalham de jaleco e prancheta."

A chegada das grandes produtoras de tecnologia mexeu com o caixa dos centros de pesquisa e das pequenas empresas da cidade. A Unicamp espera faturar com os convênios cerca de 3 milhões de dólares em 2001. Fábricas que começaram em fundo de quintal estão se tornando grandes fornecedoras de material para as gigantes das telecomunicações. Em quatro anos, apareceram 120 novas empresas de software. Elas vivem de prestar serviço para o novo pólo industrial. O resultado já é sentido pela população. A renda per capita cresceu 25% nos últimos cinco anos. Muita gente começou a colocar dinheiro na região. Um grupo português, o Sonae, está investindo 120 milhões de dólares na construção do maior shopping center da América Latina. Há cinco hotéis de padrão executivo sendo erguidos. De 1995 para cá, o número de passageiros do aeroporto local quadruplicou. São executivos que visitam a região para fechar negócios. Na Campinas dos prédios high tech, sobrou muito pouco da cidade do interior dominada por laranjais e pastagens.

 

Com reportagem de Gisela Sekeff

 
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